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  • Paulo Jorge Pereira

Agostinho Costa Sousa lê "Belladonna", de Dasa Drndic


Com o romance "Belladonna", publicado no ano de 2012 e de que hoje é apresentado aqui um trecho por Agostinho Costa Sousa, Dasa Drndic conquistaria em 2018 o Prémio Warwick, tendo ainda ganho evidência como finalista no Prémio Literário do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento. É o regresso da sua obra, depois de uma primeira leitura de "Trieste".



Licenciada pela Universidade de Belgrado, Dasa Drndic nascera a 10 de agosto de 1946 na cidade de Zagreb, começando depois dos estudos por desempenhar funções como tradutora e jornalista. Docente universitária no Canadá e também na Universidade croata de Rijeka, iria doutorar-se precisamente nesta instituição de ensino superior. Com o romance "Belladonna", publicado no ano de 2012 e de que hoje é apresentado aqui um trecho por Agostinho Costa Sousa, ganharia em 2018 o Prémio Warwick, tendo ainda ganho evidência como finalista no Prémio Literário do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento. A sua obra literária seria fortemente influenciada pelos crimes contra a Humanidade e pelas atrocidades cometidas durante a II Guerra Mundial, incluindo os que contaram com a cumplicidade do seu país. "A História recorda os nomes dos criminosos, mas esquece os das vítimas", escreveu.

Em "Trieste" (2007), de que Agostinho Costa Sousa já leu aqui um excerto, conta-se a história de Haya Tedeschi e da busca incessante pelo filho que foi o fruto da sua ligação a um oficial das SS. Envolvido no sinistro projeto intitulado Lebensborn, criado com intenções de definir a aquilo que os nazis designavam como pureza racial, o pequeno foi retirado à mãe mais de seis décadas antes. De fotos ao próprio julgamento de Nuremberga, passando por inúmeros rastos da loucura deixada pela II Grande Guerra, Haya não deixará de insistir e não ficará indiferente a tragédias, assassínios e violência que marcaram para sempre a História da Humanidade: os crimes em massa contra os judeus e, nesse contexto, a San Sabba, campo de extermínio em solo italiano.

Preocupada com a ascensão da extrema-direita, a escritora afirmou em 2017, numa entrevista concedida à Paris Review: "A História está a repetir-se e já vemos a sua face monstruosa. Aos poucos, por todo o mundo, a extrema-direita ressurge - são ainda pequenos passos, embora isso não a torne menos perigosa", disse. "Não há pequenos fascismos, nem nazismos benignos. É disso que tento falar nos meus livros, sobretudo da importância de não esquecer. Nestes tempos de revisionismos agressivos, algo que tende a exercer um efeito de lavagem cerebral sobre as nossas mentes já afetadas, e também sem memória, somos presas fáceis para a manipulação e depressa perdemos identidade", sustentou.

Mãe da realizadora Masa Drndic, Dasa morreu aos 71 anos, vítima de cancro, a 5 de junho de 2018. Para trás ficava um percurso na escrita que englobou quase três dezenas de peças e, além dos romances já mencionados, obras como "Caminho até ao Sábado" (1982), "Como uma Pedra do Céu" (1984), "O Duplo, Belgrado" (2002) e "O Duplo, Zagreb" (2005) com "Leica" (2003) pelo meio, "Canções de Guerra" (2007) ou "Abril em Berlim" (2009).


Sextante


"Não há pequenos fascismos, nem nazismos benignos. É disso que tento falar nos meus livros, sobretudo da importância de não esquecer", alertou a escritora.

Agostinho Costa Sousa reside em Espinho e socorre-se da frase de Antón Tchekhov: "A medicina é a minha mulher legítima, a literatura é ilegítima" para se apresentar. "A Arquitetura é a minha mulher legítima, a Leitura é uma das ilegítimas", refere. Estreou-se a ler por aqui a 9 de maio com "A Neve Caindo sobre os Cedros", de David Guterson, seguindo-se "As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino, a 16 do mesmo mês, mas também leituras de obras de Manuel de Lima e Alexandra Lucas Coelho a 31 de maio. "Histórias para Uma Noite de Calmaria", de Tonino Guerra, foi a sua escolha no dia 4 de junho. No passado dia 25 de julho, a sua escolha recaiu em "Veneno e Sombra e Adeus", de Javier Marías, seguindo-se "Zadig ou o Destino", de Voltaire, a 28. O regresso processou-se a 6 de setembro, com "As Velas Ardem Até ao Fim", de Sándor Márai. Seguiram-se "Histórias de Cronópios e de Famas", de Julio Cortázar, no dia 8; "As Palavras Andantes", de Eduardo Galeano, a 11; "Um Copo de Cólera", de Raduan Nassar, a 14; e "Um Amor", de Sara Mesa, no dia 16. A 19 de setembro, a leitura escolhida foi "Ajudar a Estender Pontes", de Julio Cortázar. A 17 de outubro, a proposta centrou-se na poesia de José Carlos Barros com três poemas do livro "Penélope Escreve a Ulisses". Três dias mais tarde leu três poemas inseridos na obra "A Axila de Egon Schiele", de André Tecedeiro. A 29 de novembro apresentou "Inquérito à Arquitetura Popular Angolana", de José Tolentino de Mendonça. De dia 1 do mês seguinte é a leitura de "Trieste", escrito pela croata Dasa Drndic e, no dia 3, a proposta foi um trecho do livro "Civilizações", escrito por Laurent Binet. No dia 5, Agostinho Costa Sousa dedicou atenção a "Viagens", de Olga Tokarczuk. A 7, a obra "Húmus", de Raul Brandão, foi a proposta apresentada. Dois dias mais tarde, a leitura foi dedicada a um trecho do livro "Duas Solidões - O Romance na América Latina", com Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Seguiu-se "O Filho", de Eduardo Galeano, no dia 20. A 23, Agostinho Costa Sousa trouxe "O Vício dos Livros", de Afonso Cruz. Voltou um mês mais tarde com "Esta Gente/Essa Gente", poema de Ana Hatherly. No dia 26 de janeiro, Stephen King e "Escrever" foram as suas opções.

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