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  • Paulo Jorge Pereira

Agostinho Costa Sousa lê "Música, Só Música", de Haruki Murakami e Seiji Ozawa


A proposta que Agostinho Costa Sousa apresenta hoje nasce de diálogos entre um escritor e um maestro com a leitura de um excerto da obra "Música, Só Música", de Haruki Murakami e Seiji Ozawa.



"Pessoas que estejam no meio da confusão gostam dos meus livros - por exemplo, quem vivia na União Soviética em transição para ser Rússia ou na Alemanha da queda do muro de Berlim", contou Haruki Murakami em 2018, numa entrevista ao mesmo jornal, o britânico The Guardian, que já o considerou "um dos grandes romancistas vivos". Nascido a 12 de janeiro de 1949 em Quioto, no Japão, Murakami iria estudar na Universidade de Waseda (Tóquio), com especial atenção às artes dramáticas. Mas não foi logo a escrita o centro das suas atenções profissionais, uma vez que seria proprietário de um bar de jazz (Peter Cat) de 1974 a 1982. Deitava-me às três ou quatro da manhã e a minha vida era uma enorme confusão", recordou na entrevista. O livro que hoje aqui é apresentado por Agostinho Costa Sousa, nascido de uma parceria sob a forma de conversas, durante dois anos, com o maestro Seiji Ozawa, antigo diretor da Orquestra Sinfónica de Boston, recupera essa paixão de Murakami por jazz e música clássica. Nesta obra fica a saber-se mais, por exemplo, sobre famosos trabalhos de compositores como Bartók, Brahms ou Beethoven; regentes de orquestra de um nível como o de Leonard Bernstein; solistas inigualáveis como Glenn Gould; partes de óperas ou música de câmara.

"Quando decidi que seria escritor, tomei também a decisão de adotar um modo de vida saudável: deitar-me cedo, levantar-me cedo e fazer exercício físico. Devo ser forte fisicamente para escrever textos poderosos", sintetizou. Agora, é possível que saia da cama às quatro da manhã para escrever durante seis horas, ter dez páginas prontas por dia antes de uma corrida - tornou-se praticante de atletismo e chegou a entrar em ultra-maratonas - ou de ir nadar...

"Ouve a Canção do Vento" (1979) é o seu primeiro livro e a sua vida iria alterar-se de forma radical com a partida para a Europa em 1986, a que se seguiu viagem rumo aos Estados Unidos. "Norwegian Wood" (1987) assegurou-lhe a primeira grande fatia de popularidade (3,5 milhões de exemplares vendidos num ano e adaptação ao cinema) e, na referida entrevista de há quatro anos no Guardian, o escritor afasta a ideia de que o seu estilo seja demasiado americanizado. "Quem cresceu no pós-guerra no Japão durante a ocupação norte-americana sabe com a sua cultura nos influenciou: ouvia jazz e música pop dos Estados Unidos, via programas de televisão deles - era uma espécie de janela para um outro mundo. Aos poucos, fui construindo o meu estilo; nem japonês, nem americano - o meu", explicou.

"Kafka à Beira-Mar", de que Sandra Escudeiro aqui apresentou um trecho, é de 2002. Mas, entre as obras de Murakami, traduzidas para dezenas de idiomas, destacam-se outros títulos, como "Dance, Dance, Dance" (1988), "Crónica do Pássaro de Corda" (1994), "Sputnik, Meu Amor" (1999), "Após o Anoitecer" (2004), "Autorretrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo" (2007), "A Peregrinação do Rapaz sem Cor" (2013), "Homens sem Mulheres" (2014) - do qual saiu a adaptação ao cinema dos contos "Drive my Car", "Sherazade" e "Kino" para o filme com o nome do primeiro que recebeu o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2022 -, "O Assassino do Comendador" (2017) ou "Primeira Pessoa do Singular" (2020).

Tradutor de Truman Capote, F. Scott Fitzgerald, J.D. Salinger ou John Cheever, Murakami tem acolhido as suas influências nos livros que publica. E não escreve apenas ficção - a propósito do atentado com gás sarin no metro de Tóquio em 1995, fez entrevistas a sobreviventes para escrever "Underground - O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa" (2006).

A 2 de dezembro de 2020 apreentei aqui pela primeira vez uma obra de Murakami com um excerto de "1Q84", seguindo-se o já mencionado "Kafka à Beira-Mar", por Sandra Escudeiro, a 8 de junho deste ano.


Leya - Casa das Letras/Tradução de Maria João Lourenço


No prefácio, o maestro Martim Sousa Tavares classifica Murakami: "Mais apaixonado do que entendido, rigoroso ouvinte de discos (em vinil, é claro), colecionador obsessivo e dono de uma discoteca pessoal com milhares de volumes, incluindo verdadeiras raridades, e por fim, dotado de um espírito sensível e capaz de captar as mais subtis nuances e significados da música."

Agostinho Costa Sousa reside em Espinho e socorre-se da frase de Antón Tchekhov: "A medicina é a minha mulher legítima, a literatura é ilegítima" para se apresentar. Estreou-se a ler por aqui a 9 de maio com "A Neve Caindo sobre os Cedros", de David Guterson, seguindo-se "As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino, a 16 do mesmo mês, mas também leituras de obras de Manuel de Lima e Alexandra Lucas Coelho a 31 de maio. "Histórias para Uma Noite de Calmaria", de Tonino Guerra, foi a sua escolha no dia 4 de junho. No passado dia 25 de julho, a sua escolha recaiu em "Veneno e Sombra e Adeus", de Javier Marías, seguindo-se "Zadig ou o Destino", de Voltaire, a 28. O regresso processou-se a 6 de setembro, com "As Velas Ardem Até ao Fim", de Sándor Márai. Seguiram-se "Histórias de Cronópios e de Famas", de Julio Cortázar, no dia 8; "As Palavras Andantes", de Eduardo Galeano, a 11; "Um Copo de Cólera", de Raduan Nassar, a 14; e "Um Amor", de Sara Mesa, no dia 16. A 19 de setembro, a leitura escolhida foi "Ajudar a Estender Pontes", de Julio Cortázar. A 17 de outubro, a proposta centrou-se na poesia de José Carlos Barros com três poemas do livro "Penélope Escreve a Ulisses". Três dias mais tarde leu três poemas inseridos na obra "A Axila de Egon Schiele", de André Tecedeiro.

A 29 de novembro apresentou "Inquérito à Arquitetura Popular Angolana", de José Tolentino de Mendonça. De dia 1 do mês seguinte é a leitura de "Trieste", escrito pela croata Dasa Drndic e, no dia 3, a proposta foi um trecho do livro "Civilizações", escrito por Laurent Binet. No dia 5, Agostinho Costa Sousa dedicou atenção a "Viagens", de Olga Tokarczuk. A 7, a obra "Húmus", de Raul Brandão, foi a proposta apresentada. Dois dias mais tarde, a leitura foi dedicada a um trecho do livro "Duas Solidões - O Romance na América Latina", com Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Seguiu-se "O Filho", de Eduardo Galeano, no dia 20. A 23, Agostinho Costa Sousa trouxe "O Vício dos Livros", de Afonso Cruz. Voltou um mês mais tarde com "Esta Gente/Essa Gente", poema de Ana Hatherly. No dia 26 de janeiro, apresentou "Escrever", de Stephen King. Quatro dias mais tarde foi a vez de Maria Gabriela Llansol com "O Azul Imperfeito". "Poemas e Fragmentos", de Safo, e "O Poema Pouco Original do Medo", de Alexandre O'Neill, foram outras recentes participações. Seguiram-se "Se Isto É Um Homem", de Primo Levi, e "Se Isto É Uma Mulher", de Sarah Helm. No dia 18 de março, a leitura proposta foi de um excerto de "Augustus", de John Williams. A 24, Agostinho Costa Sousa leu "Silêncio na Era do Ruído", de Erling Kagge; a 13 de abril, foi a vez do poema "Guernica", de Rui Caeiro e, no dia 20, apresentou um pouco de "Great Jones Street", de Don DeLillo.

No Especial dedicado ao 25 de Abril, a sua escolha foi para "O Sangue a Ranger nas Curvas Apertadas do Coração", escrito por Rui Caeiro, seguindo-se "Ararat", de Louise Glück, no Dia da Mãe e do Trabalhador, a 1 de maio. "Ver: Amor", de David Grossman, foi a proposta de dia 17. No dia 23, a leitura proposta trouxe Elias Canetti com um pouco da obra "O Archote no Ouvido".

A 31 de maio surgiu com "A Borboleta", de Tonino Guerra. A 5 de junho trouxe um excerto do livro "Primeiro Amor, Últimos Ritos", de Ian McEwan. A 17, a escolha recaiu sobre "Hamnet", de Maggie O'Farrell. A 10 de julho, o trecho selecionado saiu da obra "Ofuscante - A Asa Esquerda", do romeno Mircea Cartarescu. No dia 19 de julho apresentou "Uma Caneca de Tinta Irlandesa", de Flann O'Brien. A 31 de julho leu um trecho da obra "Por Cuenta Propia - Leer y Escribir", de Rafael Chirbes. No dia 8 de agosto foi a vez de "No Entres Docilmente en Esa Noche Quieta", de Ricardo Menéndez Salmón. A 15 de agosto apresentou "Julio Cortázar y Cris", de Cristina Peri Rossi.

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