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  • Paulo Jorge Pereira

Agostinho Costa Sousa lê "O Triângulo Mágico", de António Cândido Franco

No ano em que é assinalado o centenário do nascimento do poeta e nome maior do Surrealismo, Agostinho Costa Sousa propõe uma biografia de Mário Cesariny, intitulada "O Triângulo Mágico", de António Cândido Franco.



Não é suficiente falar sobre o seu papel preponderante no movimento surrealista enquanto poeta e pintor, mas também como uma espécie de historiador. É essencial sublinhar o caráter sempre rebelde e provocatório da personalidade de Mário Cesariny de Vasconcelos, cujo centenário do nascimento, a 9 de agosto, se celebrou este ano, prosseguindo as exposições e homenagens ao artista.

Viriato de Vasconcelos e Maria de las Mercedes Cesariny foram os pais e o mais jovem de quatro herdeiros (teve três irmãs mais velhas) nasceu durante umas férias do casal na Vila Edith, em Benfica. Era aluno do Liceu Gil Vicente quando os planos para o seu futuro profissional começaram por ter a influência da atividade a que o pai se dedicava - era ourives na Rua da Palma e quis que o filho fosse inscrito num curso de cinzelagem na Escola António Arroio. Para transtorno do pai, o facto de Cesariny conhecer nesta escola Artur do Cruzeiro Seixas, outro futuro representante do Surrealismo, revelou-se decisivo. Atraído pelas Belas-Artes, ainda procurou essa via e a da música (foi aluno de Fernando Lopes Graça), mas o pai afastou-o deste universo, apesar do talento pianístico do filho.

A rebeldia do jovem leva-o a aproximar-se de outros jovens para tertúlias literárias e de ideias nos cafés da capital - quando ruma a Paris, em 1947, para aproveitar a bolsa que o leva à Académie de la Grande Chaumiére, trava conhecimento com André Breton, mas já conhece neorrealistas e surrealistas. O escritor francês e teórico do Surrealismo vai servir como principal fonte de inspiração para o nascimento do Grupo Surrealista de Lisboa, no qual Cesariny está acompanhado por Alexandre O'Neill, Vespeira, António Pedro, João Moniz Pereira, Cândido Costa Pinto ou Joé Augusto França. Apesar da vigilância da PIDE, as conversas fervilham e é intensa a troca de ideias num grupo que escolhe a pastelaria Mexicana como cenário dos encontros e rejeita tanto o neorrealismo, onde pontifica uma identificação com o PCP, como qualquer proximidade da ditadura.

Mas o irrequietismo próprio de Cesariny depressa se converte em insatisfação: demarca-se do grupo que ajudara a criar e, colocando-se à margem, reencontra o amigo Artur do Cruzeiro Seixas n'Os Surrealistas que, incluindo Pedro Oom, António Maria Lisboa, Mário-Henrique Leiria, Risques Pereira, Fernando José Francisco, entre outros, passam a rivalizar com o Grupo Surrealista de Lisboa. Por esta altura, o pai de Mário Cesariny afasta-se da mulher e, com uma acompanhante, segue rumo ao Brasil. Começa a escrever (Luiz Pacheco encarrega-se de editar, embora venham a distanciar-se na década de 70, depois de uma série de episódios em que Cesariny se considera traído) e vai pintando com regularidade a partir dos anos 50 ao mesmo tempo que é perseguido pela polícia face à sua condição de homossexual.

Uma nova bolsa, atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1964 para que tenho Vieira da Silva como protagonista de um trabalho para livro, permite-lhe ausentar-se de Portugal com frequência, passando muito tempo em Londres até 1969.

Continua o trabalho com a paixão e a irreverência de sempre e, após o 25 de Abril, deixa de ter a polícia sempre por perto.

Reedições do seu trabalho poético nos anos 80 possibilitam que a sua obra ganhe uma nova dimensão aos olhos de um público que o desconhecia. Essa redescoberta leva-o a presenças mais regulares em meios de comunicação em conversas sem fronteiras e com a rebeldia da juventude sempre na ponta da língua.

Os últimos anos da vida são partilhados em Campolide com a irmã Henriette. Numa entrevista à RTP, em 2000, confessa a desilusão por ter deixado de escrever: "Recordo o tempo da escrita dos poemas que era lindíssimo", afirma. "Mas aconteceu... Ou pus os cornos à musa ou a musa pôs-me os cornos a mim, não sei." Ainda assim, nunca abandonou a pintura.

Um cancro da próstata foi a causa da morte do poeta e pintor, a 26 de novembro de 2006. Nesse mesmo dia, a RTP exibiu o documentário que pode ser revisto aqui.

A sua extensa obra literária, iniciada em 1950 com "Corpo Visível", engloba: "Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano" (1952); "Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos" (1953); "Manual de Prestidigitação" (1956); "Pena Capital" (1957); "Alguns Mitos Maiores e Alguns Mitos Menores Postos à Circulação pelo Autor" (1958); "Nobilíssima Visão" (1959); "Poesia, 1944 - 1955" (1960); "Planisfério e Outros Poemas" (1961); "Um Auto para Jerusalém" (1964); "Titânia e A Cidade Queimada" (1965); "19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres" (1971); "As Mãos na Água a Cabeça no Mar" e "Burlescas, Teóricas e Sentimentais" (ambos de 1972); "Primavera Autónoma das Estradas" (1980); "Vieira da Silva, Arpad Szenes ou O Castelo Surrealista" (1984); "O Virgem Negra" (1989); "Titânia" (1994) e "A Alma e o Mundo" (1997).

Professor universitário e escritor, António Cândido Franco, que aqui é apresentado por Agostinho Costa Sousa na leitura deste trecho da biografia de Mário Cesariny, também escreveu, por exemplo, sobre as vidas de Agostinho da Silva e Luiz Pacheco. Além disso, publicou poesia e romances de caráter histórico, bem como variados ensaios.


Quetzal


"Autografia" (2004), documentário de Miguel Gonçalves Mendes, revela um Mário Cesariny como nunca antes fora visto, dois anos antes da sua morte.

Agostinho Costa Sousa reside em Espinho e socorre-se da frase de Antón Tchekhov: "A medicina é a minha mulher legítima, a literatura é ilegítima" para se apresentar. Estreou-se a ler por aqui a 9 de maio de 2021 com "A Neve Caindo sobre os Cedros", de David Guterson, seguindo-se "As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino, a 16 do mesmo mês, mas também leituras de obras de Manuel de Lima e Alexandra Lucas Coelho a 31 de maio. "Histórias para Uma Noite de Calmaria", de Tonino Guerra, foi a sua escolha no dia 4 de junho. No dia 25 de julho, a sua escolha recaiu em "Veneno e Sombra e Adeus", de Javier Marías, seguindo-se "Zadig ou o Destino", de Voltaire, a 28. O regresso processou-se a 6 de setembro, com "As Velas Ardem Até ao Fim", de Sándor Márai. Seguiram-se "Histórias de Cronópios e de Famas", de Julio Cortázar, no dia 8; "As Palavras Andantes", de Eduardo Galeano, a 11; "Um Copo de Cólera", de Raduan Nassar, a 14; e "Um Amor", de Sara Mesa, no dia 16. A 19 de setembro, a leitura escolhida foi "Ajudar a Estender Pontes", de Julio Cortázar. A 17 de outubro, a proposta centrou-se na poesia de José Carlos Barros com três poemas do livro "Penélope Escreve a Ulisses". Três dias mais tarde leu três poemas inseridos na obra "A Axila de Egon Schiele", de André Tecedeiro.

A 29 de novembro apresentou "Inquérito à Arquitetura Popular Angolana", de José Tolentino de Mendonça. De dia 1 do mês seguinte é a leitura de "Trieste", escrito pela croata Dasa Drndic e, no dia 3, a proposta foi um trecho do livro "Civilizações", escrito por Laurent Binet. No dia 5, Agostinho Costa Sousa dedicou atenção a "Viagens", de Olga Tokarczuk. A 7, a obra "Húmus", de Raul Brandão, foi a proposta apresentada. Dois dias mais tarde, a leitura foi dedicada a um trecho do livro "Duas Solidões - O Romance na América Latina", com Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Seguiu-se "O Filho", de Eduardo Galeano, no dia 20. A 23, Agostinho Costa Sousa trouxe "O Vício dos Livros", de Afonso Cruz. Voltou um mês mais tarde com "Esta Gente/Essa Gente", poema de Ana Hatherly. No dia 26 de janeiro, apresentou "Escrever", de Stephen King. Quatro dias mais tarde foi a vez de Maria Gabriela Llansol com "O Azul Imperfeito". "Poemas e Fragmentos", de Safo, e "O Poema Pouco Original do Medo", de Alexandre O'Neill, foram outras recentes participações. Seguiram-se "Se Isto É Um Homem", de Primo Levi, e "Se Isto É Uma Mulher", de Sarah Helm. No dia 18 de março, a leitura proposta foi de um excerto de "Augustus", de John Williams. A 24, Agostinho Costa Sousa leu "Silêncio na Era do Ruído", de Erling Kagge; a 13 de abril, foi a vez do poema "Guernica", de Rui Caeiro e, no dia 20, apresentou um pouco de "Great Jones Street", de Don DeLillo.

No Especial dedicado ao 25 de Abril, a sua escolha foi para "O Sangue a Ranger nas Curvas Apertadas do Coração", escrito por Rui Caeiro, seguindo-se "Ararat", de Louise Glück, no Dia da Mãe e do Trabalhador, a 1 de maio. "Ver: Amor", de David Grossman, foi a proposta de dia 17. No dia 23, a leitura proposta trouxe Elias Canetti com um pouco da obra "O Archote no Ouvido".

A 31 de maio surgiu com "A Borboleta", de Tonino Guerra. A 5 de junho trouxe um excerto do livro "Primeiro Amor, Últimos Ritos", de Ian McEwan. A 17, a escolha recaiu sobre "Hamnet", de Maggie O'Farrell. A 10 de julho, o trecho selecionado saiu da obra "Ofuscante - A Asa Esquerda", do romeno Mircea Cartarescu. No dia 19 de julho apresentou "Uma Caneca de Tinta Irlandesa", de Flann O'Brien. A 31 de julho leu um trecho da obra "Por Cuenta Propia - Leer y Escribir", de Rafael Chirbes. No dia 8 de agosto foi a vez de "No Entres Docilmente en Esa Noche Quieta", de Ricardo Menéndez Salmón. A 15 de agosto apresentou "Julio Cortázar y Cris", de Cristina Peri Rossi. Uma semana mais tarde, a leitura foi de um trecho da obra "Música, Só Música", de Haruki Murakami e Seiji Ozawa. De 12 de setembro é a sua leitura de um poema do livro "Do Mundo", cujo autor é Herberto Helder. "Instruções para Engolir a Fúria", de João Luís Barreto Guimarães, foi a leitura a 16 de setembro e já aqui regressou. A 6 de outubro leu um trecho da obra "Jakob, O Mentiroso", de Jurek Becker.

"Rebeldes", de Sándor Márai, foi a leitura do dia 11. Mircea Cartarescu e "Duas Formas de Felicidade" surgiram dois dias mais tarde. Seguiu-se "Diários", do poeta Al Berto, a 17 de outubro. Três dias mais tarde propôs "A Herança de Eszter", de Sándor Márai. A 2 de novembro apresentou "Os Irmãos Karamazov", de Fiódor Dostoiévski. Data de 22 de novembro a leitura de "Nicanor Parra: Rey y Mendigo", de Rafael Gumucio. A 30 de novembro leu "Schiu", de Tonino Guerra. No passado dia 12 trouxe "Montaigne", de Stefan Zweig. Recuperei a sua leitura do poema "Instruções para Engolir a Fúria" no dia 16 quando o autor, João Luís Barreto Guimarães, foi distinguido com o Prémio Pessoa. A 23 apresentou um excerto de "Silêncio na Era do Ruído", de Erling Kagge. No dia 6 de janeiro a escolha recaiu sobre "Lições", de Ian McEwan. A 16 de janeiro apresentou "Stalinegrado", de Vasily Grossman. No dia 30 leu um excerto da obra "A Biblioteca à Noite", de Alberto Manguel. De 7 de fevereiro é a leitura de "Remodelações Governamentais", de Mário-Henrique Leiria. A proposta de dia 22 de fevereiro foi "Roseira de Espinho", de Nuno Júdice. No dia 7 de março propôs "Método de Caligrafia para a Mão Esquerda", de António Cabrita. No Especial dedicado ao Dia Mundial do Teatro, a 27 de março, apresentou "Memórias", de Raul Brandão. De 30 de março é a leitura de um trecho da obra "Rebeldes", de Sándor Márai. A 10 de abril propôs "O Amante da Minha Mãe", de Urs Widmer. De 21 de abril é a leitura de um trecho do conto "A Primavera", escrito por Bruno Schulz. Do Especial dedicado ao 25 de Abril constaram poemas de Sara Duarte Brandão. A 2 de maio propôs "A Musa Irregular", de Fernando Assis Pacheco. "Ravel", de Jean Echenoz, é de 6 de junho.

"Tristia", de António Cabrita, foi a sua leitura a 9 de junho. A 23 leu "Foi Ele?", de Stefan Zweig. No dia 7 de julho trouxe "Cartas 1955-1964, volume II", de Julio Cortázar. "Uma Faca nos Dentes", de António José Forte, chegou a 21 de julho. De 30 de agosto é a leitura de um trecho da obra "Servidão Humana", de Somerset Maugham. "Nosotros", de Manuel Vilas, foi a leitura no dia 18. De 22 de setembro é a leitura da obra "A Religião da Cor", de Jorge Sousa Braga. "Exercícios de Humano", de Paulo José Miranda, foi a leitura de 11 de outubro. A 17, "Flores Silvestres", de Abbas Kiarostami, foi a proposta.

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