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Alice Vieira lĂȘ "O Valor do Vento", de Ruy Belo

  • Paulo Jorge Pereira
  • Jan 3, 2024
  • 6 min read

Aqui se relembra o momento em que a escritora Alice Vieira participou com a leitura de um poema de Ruy Belo - nome grande da poesia em Portugal na segunda metade do século XX -, a quem conheceu bem desde os tempos em que se cruzaram na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.



"Na obra de Ruy Belo estå muito explicada Santarém e este mundo da sua infùncia, da sua juventude", resume o ator Mårio Viegas em imagens de arquivo - do seu programa "Palavras Vivas", à porta do teatro Taborda, em janeiro de 1991 - no documentårio da RTP intitulado "Ruy Belo, Era Uma Vez", realizado por Nuno Costa Santos em 2015. Nascido em São João da Ribeira (27 de fevereiro de 1933), uma pequena aldeia do concelho de Rio Maior, Ruy Belo era filho de um casal de professores do ensino primårio e iria licenciar-se em Direito, estudando nas Universidades de Coimbra e de Lisboa. Foi editor literårio da Editorial Aster e chefiou a redação da revista Rumo. Licenciou-se na capital em 1956, aí transmitindo uma aura de respeito à sua volta. Ia doutorar-se em Roma (Direito Canónico) e, mais tarde, nos anos 60, quando jå publicara "Aquele Grande Rio Eufrates", ingressou na Faculdade de Letras da Universidade lisboeta para nova licenciatura, então em Filologia Romùnica. Pelo meio publica "Boca Bilingue" (1966). Muitos se interrogavam o que fazia ali alguém com o seu nível de conhecimentos, como recorda no referido documentårio a própria escritora Alice Vieira que o conheceu nessa altura. Leonor Xavier, jornalista e escritora, segue um caminho semelhante: "Ele intimidava-me um pouco, era alguém que sabia mais do que nós todos juntos", aponta. Com formação católica e ligado à Opus Dei, afastou-se da organização porque esta o "proibia de escrever" e, ainda estudante na Faculdade de Letras, jogou futebol como defesa-central, publicou artigos e foi entrevistado em A Bola.

Contactou de perto com o linguista Lindley Cintra, pai do ator LuĂ­s Miguel Cintra, com quem manteve forte amizade. Tradutor rigoroso e com grande atividade editorial, ganhara em 1961 uma bolsa na Fundação Gulbenkian que serĂĄ fundamental para o seu sustento. Conhecera Maria Teresa na Faculdade de Letras e casam-se em Vila do Conde (1966), mas Ă© o prĂłprio Lindley Cintra quem tem de ir buscĂĄ-lo a casa, uma vez que se distraĂ­ra com as horas e ficara em contemplação Ă  varanda. Colabora na revista O Tempo e o Modo, as crises estudantis fazem com que assuma posiçÔes de cariz polĂ­tico, integra o grupo dos catĂłlicos progressistas com JoĂŁo BĂ©nard da Costa, Pedro Tamen ou Sophia de Mello Breyner Andresen, coloca o nome em manifestos e abaixo-assinados contra a ditadura, vindo a ser candidato a deputado pela ComissĂŁo Eleitoral de Unidade DemocrĂĄtica (CEUD), em 1969, ao lado de MĂĄrio Soares, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares ou Gonçalo Ribeiro Telles. Face a semelhante exposição, desperta a atenção da PIDE que passa a exercer vigilĂąncia sobre os seus passos. Vive rodeado de livros, com a mulher e os trĂȘs filhos (dois rapazes, Diogo e Duarte, e uma rapariga, Catarina) numa casa no Monte AbraĂŁo (Queluz), lĂȘ muito, escreve a toda a hora e em todas as superfĂ­cies, atĂ© no verso de um bilhete de metro, a busca pela perfeição das sonoridades e dos ritmos das palavras Ă© incessante, publica "Homem de Palavra(s)" e "Na Senda da Poesia".

Nadador experiente, Ă© salvo de morrer afogado na Senhora da Guia, mas passa cinco horas em coma - sobre o assunto escreve "Fala de um Homem Afogado ao Largo da Senhora da Guia no Dia 31 de Agosto de 1971". Leitor de PortuguĂȘs em Madrid, regressa a Portugal e, sem ter oportunidade de ser docente universitĂĄrio, algo que lhe causa profunda tristeza, torna-se professor do ensino secundĂĄrio Ă  noite. Continua a escrever e a publicar: "Transporte no Tempo", "PaĂ­s PossĂ­vel", "A Margem da Alegria", "Os Estivadores" e "Toda a Terra". Em 1977 publica "Despeço-me da Terra da Alegria". Um dia, vĂȘ num jornal o anĂșncio a um concurso para professor assistente de Literatura na Faculdade de Letras. Desloca-se a Lisboa para concorrer, mas a vida jĂĄ nĂŁo lhe dĂĄ tempo. Insuficiente coronĂĄrio como o pai, acaba por ser vĂ­tima de edema pulmonar, morre bruscamente a 8 de agosto de 1978. Maria Teresa, a quem homenageia no poema "Elogio de Maria Teresa", torna-se curadora da sua obra atĂ© ao momento em que deixa de existir, a 17 de fevereiro de 2018.


"Obra Poética" em dois volumes (Editorial Presença)


"A minha vida passou para o dicionårio que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras", escreve no poema "Não Sei Nada".

Nascida em Lisboa, a 20 de março de 1943, Alice de Jesus Vieira Vassalo da Fonseca passou muitas fĂ©rias de verĂŁo nas termas de Caldelas e, antes de entrar na Faculdade de Letras, estudou no Liceu D. Filipa de Lencastre. Seria jornalista e mulher de MĂĄrio Castrim, crĂ­tico de televisĂŁo, escrevendo aos 14 anos um texto a tentar que ele o publicasse, mas a resposta foi negativa, embora lhe indicasse o caminho de continuar a tentar. Alice insistiu, trocaram muitas cartas e acabaram por conhecer-se quando a licenciada em Filologia GermĂąnica começou a trabalhar no DiĂĄrio de Lisboa. PorĂ©m, quando a ligação entre os dois ganhou dimensĂŁo, Alice atravessou a rua e foi trabalhar para o DiĂĄrio Popular, conforme contou ao PĂșblico em 2012. "As pessoas, quando tĂȘm um relacionamento, nĂŁo devem trabalhar no mesmo sĂ­tio. Seja marido e mulher, pai e filho", disse. Em 1966, conforme lembrou em entrevista ao DiĂĄrio de NotĂ­cias publicada a 3 de agosto de 2018, foi para Paris, onde se encontrava Maria Lamas, sua prima e que era tambĂ©m escritora, tradutora, jornalista e militante pela causa feminista, alĂ©m de grande lutadora contra a ditadura. Na referida entrevista ao DiĂĄrio de NotĂ­cias contou como foi a experiĂȘncia de viver o Maio de 68 na capital francesa e o tempo que ali passou. "Foi a liberdade completa", lembrou. "Foram anos que me enriqueceram muito: aquilo que se ouve, que se vĂȘ, as conversas que se tĂȘm", sintetizou. Nesse Ăąmbito, nĂŁo deixou de lembrar o convĂ­vio com personalidades como Pablo Neruda, Jorge Amado e a sua mulher, ZĂ©lia Gattai, ou Manuel Alegre.

Na conversa com Rita Pimenta para o diĂĄrio PĂșblico em 2012 reconheceu ainda que fora desaconselhada a ligar-se a Castrim, sobretudo devido Ă  diferença de 23 anos entre eles. Contudo, a vida encarregou-se de mostrar que tivera razĂŁo em ignorar os receios de outros. "Quando tive o 'cancro da praxe', ele Ă© que foi o meu enfermeiro", contou. E transmitiu-lhe a força necessĂĄria para que pudesse ultrapassar as diversas fases da doença, em especial a da quimioterapia. AlĂ©m disso, incentivou-a sempre a escrever, admitindo a autora com mais de trĂȘs dĂ©cadas a construir uma importante obra para pĂșblico mais jovem - mas tambĂ©m de poesia, romance e crĂłnicas - que sente "algum remorso por ele se ter afastado da escrita" para que ela se dedicasse aos livros.

Alice e Mårio são pais da escritora Catarina Fonseca e do professor universitårio André Fonseca e ganharam netos que ele não chegou a conhecer. Para Alice, o jornalismo continuou, depois do Diårio Popular no Record e no Diårio de Notícias, mas também no Jornal de Notícias e em revistas. Quanto à escrita de livros, essa ganhou decisivo impulso graças ao primeiro prémio que recebeu, em 1979, relativo a literatura infantil, vindo da Fundação Gulbenkian e entregue em função da obra "Rosa, Minha Irmã Rosa". Ambos cultivaram o contacto com as crianças como um privilégio, algo que Alice tem continuado a fazer com a ternura de sempre. Também escreve poesia e tem participação em coletùneas de crónicas ou parcerias em obras de ficção. A sua vasta obra estå traduzida para dezenas de línguas e também jå foi premiada além-fronteiras.

E, sempre interessada em novos projetos, na fase de pandemia Alice Vieira esteve com Manuela Niza em Retratos Contados com as crĂłnicas "PĂł de Arroz e Janelinha" que chegaram Ă  Antena 1 e tambĂ©m podiam ser seguidas via Facebook.  Um projeto cujo mentor foi, em 2015, precisamente NĂ©lson Mateus, coautor do livro que jĂĄ aqui se apresentou: "DiĂĄrio de uma AvĂł e de um Neto Confinados em Casa", diĂĄlogo por entre momentos inesquecĂ­veis, com uma proposta diferente que, em tempos estranhos e adversos de pandemia, juntou Alice Vieira e NĂ©lson Mateus. E um segundo volume estĂĄ jĂĄ publicado... NĂ©lson nasceu em 1972 na cidade de Lisboa e tem procurado desenvolver projetos e iniciativas que valorizem os mais velhos como, por exemplo, o 1.Âș Encontro AvĂłs e Netos; a celebração dos 60 anos de carreira de Simone de Oliveira ou exposiçÔes que passam em revista o trabalho e a vida de nomes tĂŁo fundamentais como Ruy de Carvalho ou Alice Vieira.

 
 
 

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