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  • Paulo Jorge Pereira

Anabela Borges lê "Contos Amarantinos", de Agustina Bessa-Luís

Prémio Camões em 2004, Agustina Bessa-Luís e os seus "Contos Amarantinos" são a escolha de Anabela Borges para a apresentação de hoje. Inspiradora de várias adaptações ao cinema por parte de Manoel de Oliveira, Agustina morreu há pouco mais de um ano, a 3 de junho de 2019.



Poucos instrumentos literários escaparam às mãos artísticas de Agustina Bessa-Luís (nome literário, já que o verdadeiro era Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa) que, entre as mais de seis dezenas de trabalhos publicados, passeou por romances, ensaios, peças de teatro, literatura infantil, memórias, biografias e contos. Com o rio Douro a corre-lhe nas veias, Agustina nasceu em Vila Meã (Amarante), a 15 de outubro de 1922, depressa se interessando pelas leituras graças à densa biblioteca do avô materno. Encanta-se com a arte de escrever e conjuga-a com recortes que trazem figuras às suas primeiras histórias - tem apenas 12 anos e já é olhada com admiração por aquilo que escreve. A partir de 1932 está a estudar no Porto e, em 1945, passa a viver em Coimbra (sem ter perdido as oportunidades de se divertir nos espaços de cinema e café-concerto geridos pelo pai). Nesse ano, publica um anúncio no jornal "O Primeiro de Janeiro": "Jovem instruída procura correspondência com pessoa inteligente e culta." Respondem-lhe três dezenas de candidatos, Agustina dá atenção a cinco, mas é com Alberto Luís, estudante de Direito, que se casa a 25 de julho e de quem terá a filha Mónica Bessa-Luís Baldaque. Só no final dos anos 40 irá estrear-se a publicar com a novela "Mundo Fechado". Radicada no Porto a partir de 1950, quatro anos depois publica "A Sibila", e torna-se alvo de admiração generalizada entre leitores, publicando diversos romances até à entrada dos anos 70, alguns dos quais em vários volumes (três no caso d'"As Relações Humanas", dois para "A Bíblia dos Pobres"). De 1971 é "A Brusca", o seu primeiro livro de contos, mas outros se seguirão como "A Torre" (1988) ou "Dominga" (1999). Tem intervenção política como mandatária da candidatura presidencial de Freitas do Amaral em 1986 e vai participando em diversas publicações, sendo diretora do jornal "O Primeiro de Janeiro" entre 1986 e 1987. Mais tarde (1990/93), dirige o Teatro Nacional D. Maria II e integra a Alta Autoridade para a Comunicação Social.

A proximidade do cinema é conhecida, relacionando-se com a amizade pelo realizador Manoel de Oliveira. No começo dos anos 80, este dá início à adaptação de diversas obras da escritora para o grande ecrã - "Fanny Owen" é a primeira no filme "Francisca" (1981), seguindo-se outras seis: "Vale Abraão" (1993); "O Convento", baseado no romance "As Terras do Risco", em 1995; "Party", da peça "Party: Garden-Party dos Açores", no ano seguinte; "Inquietude", inspirado pelo conto "A Mãe de um Rio", em 1998; "O Princípio da Incerteza", em 2002; e "Espelho Mágico", tendo "A Alma dos Ricos" como ponto de partida, em 2005. João Botelho adaptaria, em 2008, "A Corte do Norte". Pelo meio, em 1995, Filipe La Féria adapta "As Fúrias" ao teatro. Ao longo do percurso como escritora recebe inúmeras distinções, salientando-se não apenas o Prémio Camões (2004), mas também o Prémio PEN Clube (1981), o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB (1983), o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1992) ou o Prémio União Latina de Literaturas Românicas (1997).

A produção literária decorre sempre a um ritmo elevado até ao livro "A Ronda da Noite" (o póstumo "Deuses de Barro", publicado em 2018, foi escrito em 1942). Em 2006, sofre rude golpe que a deixa incapacitada e impedida de sair de casa: um AVC passa a limitar-lhe o simples ato de viver. Até que, há pouco mais de um ano, a 3 de junho, parou de pulsar o coração de Agustina. Com 96 anos, desaparecia uma das vozes mais destacadas da literatura portuguesa no século XX. "Nasci adulta, morrerei criança", escrevera em "Um Cão que Sonha".


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Quando lhe concede o Prémio Camões, em 2004, o júri considera que o trabalho literário de Agustina "traduz a criação de um universo romanesco de riqueza incomparável que é servido pelas suas excecionais qualidades de prosadora, assim contribuindo para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum".

É a segunda participação da multipremiada Anabela Borges aqui no blog, depois da estreia com a leitura de um dos seus contos, "Os Dias Pequenos", no passado dia 23 de maio.

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