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  • Paulo Jorge Pereira

João Rasteiro lê "Contos de Cães e Maus Lobos", de Valter Hugo Mãe

A proposta de João Rasteiro é o conto "O Menino de Água", um dos que compõem a obra "Contos de Cães e Maus Lobos", livro de Valter Hugo Mãe publicado em 2015.



Mia Couto bem adverte no prefácio que "Contos de Cães e Maus Lobos" é uma obra que traduz um "reencantamento de infância", um livro que é uma verdadeira "máquina de fazer sentir", representa "o questionar das nossas certezas mais fundas, uma visita à profundeza das almas". Valter Hugo Mãe, no entanto, deixa um alerta no final do livro: "Não sei escrever para crianças." Porém, quem leu os 11 contos que estavam para trás, percebe que não são apenas as crianças que vão apreciar a sua escrita.

"Por vezes, tive a sensação de assistir a um novo parto da Língua Portuguesa", afirmou o próprio José Saramago depois de ler "O Remorso de Baltazar Serapião", a obra que valeu a Valter Hugo Mãe, em 2007, o galardão com o nome do vencedor do Prémio Nobel. Até esse momento inesquecível, o escritor fizera um longo caminho que começou a 25 de setembro de 1971, quando nasceu em Angola, na Vila Henrique de Carvalho, agora designada Saurimo. Acompanhou a família na vinda para Portugal e a infância foi vivida em Paços de Ferreira até à mudança para Vila do Conde, passando a habitar nas Caxinas. Fez o percurso escolar até à Universidade, licenciando-se em Direito e, mais tarde, obtendo pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea no Porto. A paixão pela escrita começa a ser alimentada através da poesia e, em 1996, publica "Silencioso Corpo de Fuga", seguindo-se "O Sol Pôs-se Calmo sem me Acordar", "Entorno a Casa Sobre a Cabeça" e "Egon Schielle auto-retrato de dupla encarnação". Entretanto, colabora na criação da Quasi edições, na qual são publicados livros de personalidades como Caetano Veloso, Mário Soares, Adriana Calcanhotto, Cruzeiro Seixas, Manoel de Barros, António Ramos Rosa, Adolfo Luxúria Canibal ou Ferreira Gullar. Participa na direção da revista Apeadeiro (2001/04) e, em 2006, cria a editora Objeto Cardíaco. Não deixara de escrever e publicar poesia, mas também entrara noutros territórios como o do romance - primeiro, em 2004, com "O Nosso Reino", depois com o tal livro premiado, "O Remorso de Baltazar Serapião".

Com talentos diversificados, salienta-se também nos desenhos, que terão direito a exposições, e ainda na área da música, cantando na banda Governo, cuja estreia se regista em 2008 no Teatro do Campo Alegre. Poesia e romances continuam e, a partir de 2009, entra num outro campo da escrita, apostando na literatura infantil. "A Máquina de Fazer Espanhóis" é um romance de 2010, ano em que também publica "Contabilidade" (poesia) e "As Mais Belas Coisas do Mundo" (infantil). "O Filho de Mil Homens" (2011) é o romance que antecede a sua inclusão como finalista do Prémio Oceanos com "A Desumanização" em 2015, ano em que publica "Contos de Cães e Maus Lobos". As obras mais recentes são "Homens Imprudentemente Poéticos" (2016), "Publicação da Mortalidade" (2018), "O Paraíso São os Outros" e "Serei Sempre o Teu Abrigo" (ambos de 2020).

Em 2017, contou à revista Notícias Magazine "aquilo que de mais precioso" aprendera na vida: "Não importa o que ela nos faça, o importante é mantermo-nos de boa-fé e propensos à alegria." Na mesma entrevista, admite que "os livros são uma forma de fazer as pazes com a vida" e dois casos são citados: "A Máquina de Fazer Espanhóis" (morte do pai) e "O Filho de Mil Homens) (o facto de não ter filhos).


Porto Editora

Nas notas finais da obra, Valter Hugo Mãe dedica o conto "O Menino de Água" a "todas as pessoas que acreditam que as crianças não se podem perder pela tragédia do mundo que os adultos criam".

Nascido em Coimbra no ano de 1965, João Rasteiro é licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela FLUC/Universidade de Coimbra. Vogal da Direção do Pen Clube Português, integra o Conselho Editorial da revista “DEVIR - Revista Ibero-americana de Cultura” e é coordenador na revista “Folhas - letras & outros ofícios”. Com poemas já publicados em Portugal, Brasil, Itália, França, Espanha, Finlândia, Hungria, República Checa, Moçambique, México, Estados Unidos, Argentina, Colômbia e Chile, tem somado diversas distinções como, por exemplo, o Prémio Literário Manuel António Pina (2010). De 2012 é a sua inclusão entre os 20 finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura (poesia). Tem 18 livros já publicados (Portugal, Brasil e Espanha): o primeiro, "A Respiração das Vértebras," é de 2001, e o mais recente, “Levedura”, de 2019. Com vários contos publicados, escreveu também letras para a ‘Canção (fado) de Coimbra’. Em 2009 e 2018 organizou antologias de poesia portuguesa: "Poesia Portuguesa Hoje" (Arquitrave, Colômbia) e "Aquí, en Esta Babilonia" (Amargord, Espanha). Vai publicar ainda este ano a obra “OFÍCIO Poesia: 2000-2020”. Vive e trabalha (Casa da Escrita/CMC) na cidade de Coimbra.

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