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  • Paulo Jorge Pereira

Maria Giulia Pinheiro lê "Rostos", de Maya Angelou

A escritora e educadora Maria Giulia Pinheiro escolhe o poema "Rostos", que faz parte da obra de Maya Angelou, também ela escritora, atriz, defensora dos direitos das mulheres e ativista do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos.



Maya Angelou era o pseudónimo de Marguerite Annie Johnson, nascida em Saint Louis (Missouri), a 4 de abril de 1928. O casamento dos pais era turbulento e, quando tinha apenas três anos, o pai saiu de casa, enviando Maya e o irmão, Bailey, um ano mais velho, sozinhos, de comboio, numa viagem de Los Angeles rumo ao Arkansas (2.500 km) para casa da avó paterna, Annie Henderson, dona de uma espécie de armazém. "Só a bondade dos funcionários dos caminhos de ferro nos permitiu ser alimentados e mudar para outro comboio na altura certa. E, por fim, lá chegámos", contou mais tarde a escritora. Numa súbita passagem por casa quatro anos depois, o pai devolveu os filhos à guarda materna em Saint Louis. Violada por um conhecido da mãe quando ainda não completara oito anos, Maya contou o que acontecera ao irmão, este revelou o sucedido ao resto da família. O corpo do autor da violação foi encontrado dias depois: fora espancado até à morte. Sentindo-se culpada, Angelou ficou traumatizada e passaria quase cinco anos sem falar. "Pensei que fora a minha voz que o matara", confessou muitos anos depois. "Matei-o porque disse o seu nome. E pensei que nunca mais voltaria a falar, porque a minha voz mataria qualquer um", acrescentou. Os dois irmãos voltaram a ser entregues aos cuidados da avó paterna e uma professora e amiga da família, Bertha Flowers, seria determinante para que Maya recuperasse a fala. Conforme contou mais tarde a escritora, Flowers seria ainda decisiva para o desenvolvimento do seu interesse pela Literatura, apresentando-a a obras de escritores como Shakespeare, Poe, Dickens, entre outros. "Descobri que adorava poesia e comecei a memorizar o que lia", explicou em entrevistas. Como não falava, escreveu num papel "I love poetry" e entregou-o à professora. Mas esta disse-lhe que não acreditava, que só seria possível Maya amar a poesia se esta passasse pelos seus lábios quando a lesse em voz alta. E foi esse desafio que ajudou a libertá-la para voltar a falar.

Já adolescentes, Maya e o irmão voltaram a viver com a mãe, agora em Oakland, no Estado da Califórnia. Num tempo em que o ódio racial e a discriminação imperavam nos Estados Unidos, tinha 16 anos quando se tornou a primeira mulher a conduzir um elétrico em São Francisco - muitos anos mais tarde, voltaria a ser pioneira, então como primeira mulher negra argumentista e realizadora em Hollywood. Com 17 anos, acabada de sair da escola, foi mãe de um rapaz (Guy Johnson), casando-se em 1951 com o grego Tosh Angelos que, além de eletricista e marinheiro, tinha ligações à música. Maya Angelou interessou-se pelo universo da dança e teve aulas, chegando a formar um dueto para atuações com Alvin Ailey, um dos bailarinos e coreógrafos que conhecera. Viveu com o marido e o filho durante um ano em Nova Iorque para estudar danças africanas, mas regressaram a São Francisco e, em 1954, colocaram ponto final no casamento.

A futura escritora cantava e dançava calypso em clubes noturnos, mas ainda como Marguerite Johnson ou apenas Rita. Foi nesta fase que lhe sugeriram a mudança para Maya Angelou, pseudónimo que manteria e sob o qual já se apresentou na digressão europeia do espetáculo "Porgy and Bess". Aproveitou para aprender idiomas de vários dos países visitados e, em 1957, gravou "Miss Calypso", seu disco de estreia. De 1959 é o seu encontro com o escritor John Oliver Killens que, face ao seu interesse pela escrita, a aconselhou a mudar-se para Nova Iorque. Assim fez e, em tertúlias que se prolongavam noite dentro em apartamentos do Harlem, descobriu escritores afro-americanos como Paule Marshall, Rosa Guy, Julian Mayfield ou John Henrik Clarke. Em 1960 conhece Martin Luther King, ouve-o discursar, torna-se ativista pelo movimento de direitos civis e desenvolve diversas iniciativas neste âmbito, além de passar a apoiar Fidel Castro e ser também ativista contra o colonialismo e contra o apartheid na África do Sul. No ano seguinte estreia-se como atriz de teatro na peça "The Blacks", de Jean Genet, ao lado de James Earl Jones ou Louis Gossett. Conhece e inicia um relacionamento com Vusumzi Make, um membro da luta pela liberdade na África do Sul, mudando-se com ele e o filho para o Cairo, onde trabalha num jornal. A relação terminou em 1962, Angelou foi viver para Accra, no Gana, com o filho, e um acidente deste levou-a a acompanhar a recuperação e ficar até 1965, período em que realizou trabalho como administradora universitária, jornalista de imprensa e da rádio e atriz de teatro. Foi também nesta fase que conheceu Malcolm X durante uma visita deste a Accra, acabando por ajudá-lo, no regresso aos Estados Unidos, a criar outro movimento de apoio aos direitos civis. Mas o assassínio de Malcolm X em 1965 interrompeu o trabalho e Angelou juntou-se ao irmão no Hawai, reatando a sua carreira como cantora, mas por pouco tempo. No fundo, ia cumprir aquilo que Billie Holiday lhe dissera um dia: "Serás famosa, mas não por cantares." Voltou para Los Angeles e dedicou-se à escrita. Aqui seria testemunha dos distúrbios em Watts ao longo de seis dias, uma forma de protesto contra a violência policial exercida sobre um casal de afro-americanos. Antes de regressar a Nova Iorque, em 1967, escreveu e atuou em peças, reencontrando o escritor e amigo próximo James Baldwin.

Nunca deixava a atividade como lutadora pela causa dos direitos civis e, em 1968, Martin Luther King pediu-lhe para o ajudasse durante um mês na organização de uma marcha contra a pobreza, recolhendo donativos junto de pregadores nas igrejas afro-americanas antes dessa iniciativa. Concordou, dizendo que voltaria depois do seu aniversário, a 4 de abril. Estava em casa a cozinhar quando o telefone tocou e uma amiga lhe perguntou se ouvira notícias. Perante a resposta negativa, a amiga pediu-lhe que não atendesse mais o telefone até que chegasse junto dela. Pouco depois, Maya Angelou sofreu novo golpe duríssimo ao ouvir da amiga que Luther King fora assassinado naquele 4 de abril, na varanda de um hotel em Memphis. Durante anos, deixaria de celebrar o aniversário e ficaria amiga próxima da viúva de Luther King, tal como ficara da mulher de Malcolm X. Mas, após a morte de King, só a amizade de James Baldwin e o empenhamento profundo no trabalho evitaram que a sua depressão tivesse um final trágico. Escreveu, foi produtora e narradora do documentário "Blacks, Blues, Black!", história em dez episódios sobre a indelével ligação entre os afro-americanos e o género musical blues. Também de 1968 é o desafio que lhe lançou Robert Loomis, editor na Random House, para um primeiro livro (mas dizendo-lhe, como aconselhara Baldwin, que ela não seria capaz de escrevê-lo): assim seria publicada, em 1969, "I Know Why the Caged Bird Sings".



É a autobiografia até aos 17 anos, primeira dos sete volumes que iria publicar, sempre com títulos diferentes, e revelou-a nos EUA e no plano internacional. O livro em que fala sobre a violação de que foi alvo na infância vendeu quatro milhões de cópias, foi traduzido para quase duas dezenas de línguas, ajudou a dar voz às mulheres afro-americanas e, em 1979, teve mesmo adaptação a telefilme. Publicou poesia em 1971 com "Just Give me a Cool Drink of Water 'fore I Diiie" e continuou a ser única em 1972 quando se tornou a primeira mulher afro-americana a ter um argumento transformado em filme (também foi autora da banda sonora): "Georgia, Georgia" foi filmado e produzido na Suécia. No plano íntimo, Paul du Feu passou a ser seu marido em 1973, viveram em São Francisco e os múltiplos talentos de Maya Angelou descolaram para diferentes destinos criativos - escreveu e publicou muito (artigos, contos, poesia, como "Oh Pray my Wings Are Gonna Fit me Well" ou "And Still I Rise" - que deu título a um dos documentários sobre a sua vida -, mais livros autobiográficos - em 1974, "Gather Together in my Name", sobre a sua vida entre 1944 e 48, em que revela ter passado pelo mundo da prostituição); em 1976, "Singin' and Swingin' and Gettin' Merry Christmas", dedicado ao período de 1949 a 55) e argumentos para televisão, documentários, compôs música para a cantora Roberta Flack e bandas sonoras de filmes), foi atriz num filme e na série "Raízes" (Roots), uma abordagem à escravatura que, em 1977, teve audiências históricas. Em simultâneo, ia colecionando distinções e prémios.








Em 1981 terminou o casamento com Paul du Feu, mas não a intensidade do seu trabalho. Publicou "The Heart of a Woman", livro autobiográfico para o intervalo de tempo entre 1957 e 62.



De regresso ao sul dos Estados Unidos, entrou como docente no ensino superior, na Wake Forest University, em Winston-Salem, no Estado da Carolina do Norte, missão que só deixou em 2011. "Shaker, Why Don't you Sing?" e "Poems" acrescentaram-se às suas publicações de poesia. "All God's Children Need Traveling Shoes", de 1986, analisou a sua vida entre 1962 e 65.



Foi escrevendo e publicando poesia e, sete anos mais tarde, outro momento histórico: Maya Angelou declamou o poema "On the Pulse of the Morning" na tomada de posse de Bill Clinton como Presidente dos EUA - desde Robert Frost na tomada de posse de John F. Kennedy, em 1961, que um poeta não assumia aquela tarefa (ganharia um Grammy com a gravação desse poema). O ano de 1994 assinalou a publicação da sua poesia reunida com "The Complete Collected Poems of Maya Angelou", mas até 2013 ainda iria publicar mais de uma dezena de exemplos de poesia. Em 1996 realizou o filme "Down in the Delta" e o duo Ashford & Simpson contou com a sua contribuição para o disco "Been Found". Continuou a diversificar atividades, a assumir posições públicas pelos direitos civis, contra o racismo e pelos direitos das mulheres. Em 2002 apresentou o penúltimo episódio autobiográfico, intitulado "A Song Flung up to Heaven", sobre o período de vida entre 1965 e 68.



Voltou a ter presença política quando apoiou a nomeação de Hillary Clinton para candidata do Partido Democrata às presidenciais de 2008, mas, quando Barack Obama se tornou o nomeado, passou a ser apoiante de uma candidatura que levaria à histórica eleição do primeiro afro-americano como Presidente. Prosseguiu as suas palestras pelo mundo, apoiou projetos escolares para alunos desfavorecidos, foi publicando poesia, um livro de cozinha e a obra "Carta à Minha Filha", dedicada às diferentes gerações de mulheres que viram em si um exemplo a seguir. "Não há nada na minha vida de que não goste. É uma luta? Claro que sim! Mas é por isso mesmo que se chama vida. Quando vejo crueldade, e não vejo muitas vezes, tento fazer alguma coisa sobre isso e não fico sentada no escuro a amaldiçoá-lo. Tento acender uma luz", sintetizou.

De 2013, quando já tinha 85 anos, é "Mom & Me & Mom", o último livro autobiográfico e em que aborda a relação com a mãe pela primeira vez.




"Aprendi com ela a ganhar coragem. E ensinou-mo sendo ela própria corajosa", confessou em entrevista nesse ano a Alison Beard da Harvard Business Review. A mesma oportunidade em que, uma vez que conhecera Luther King, Malcolm X, Bill Clinton ou Barack Obama, foi questionada sobre aquilo que era essencial para se ser líder. "Um líder vê grandeza nos outros. Não é possível ser grande coisa como líder quando alguém pensa apenas em si próprio. Só os iguais fazem amigos. Um homem ou uma mulher que vê as outras pessoas como um todo e lhes presta respeito e direitos iguais obtém os seus próprios aliados." A enfermeira que zelava pela sua saúde encontrou-a morta na manhã de 28 de maio de 2014. Soube-se mais tarde que deixara um projeto inacabado: estava a escrever um novo livro.


Tradução de Lubi Prates/Nosotros Editorial


"A profissão mais exigente que tive foi escrever poesia. Quando me aproximo daquilo que pretendo dizer, sinto-me na Lua. Mesmo que sejam só seis linhas, abro o champanhe. Mas, até lá, meu Deus, essas linhas incomodam-me como uma melga a zunir junto ao ouvido", contou Angelou em 2013 numa entrevista à Harvard Business Review.

Maria Giulia Pinheiro é poeta, dramaturga, argumentista, pesquisadora e educadora. Autora de "Da Poeta ao Inevitável", pela Editora Patuá (2013), "Alteridade", pelo Selo do Burro (2016), "Avessamento"(2017) e "30 para 30" (2020), ambos pela Editora Urutau, além de dramaturga dos espetáculos "Mais um Hamlet", "Alteridade", "Bruta Flor do Querer" e "A Palavra Mais Bonita". Neste último caso, é uma forma de homenagear o pai - vítima de Esclerose Lateral Amiotrófica - que perdeu a fala um ano antes de morrer. Conforme Maria Giulia Pinheiro escreve no seu site, trata-se de recolher "as palavras mais bonitas das pessoas presentes na plateia", criando em seguida "poesias a partir delas". Este "show-lírico conta ainda com uma série de poemas já escritos, com palavras enviadas por Facebook e circula pela comunidade lusófona". Outros trabalhos podem ser vistos no site da escritora.

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