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  • Paulo Jorge Pereira

Marisa Fernandes lê "Assim Falou Zaratustra", de Friedrich Nietzsche

Um filósofo marcado pelo brilhantismo das reflexões e uma obra difícil são as escolhas de Marisa Fernandes para a leitura de vários excertos: Friedrich Nietzsche e "Assim Falou Zaratustra".



"Assim Falou Zaratustra - Um Livro para Todos e para Ninguém" (no original, "Also sprach Zarathustra: Ein Buch für Alle und Keinen") foi escrito por Friedrich Wilhelm Nietzsche e publicado em 1883. Nascido em Röcken, no então reino da Prússia (anterior à unificação alemã realizada por Bismarck em 1871), a 15 de outubro de 1844, e, apesar das origens luteranas, iria afastar-se da religião. Depois da infância e da adolescência, começou por estudar Filologia Clássica e Teologia Evangélica na Universidade de Bona, mas, influenciado pela mudança do seu professor favorito, Friedrich Wilhelm Ritschl, acompanhou-o na transferência para a instituição universitária de Leipzig, aqui tomando contacto com os caminhos que iriam levar ao brilhantismo das suas reflexões filosóficas. A leitura de Schopenhauer acabou por ser determinante para o estabelecimento do seu pensamento posterior e, aos 24 anos, já era professor de Filologia na Universidade de Basileia. Nunca deixou de aprofundar os seus estudos, fazendo-o sobretudo no terreno filosófico dos pré-socráticos, além de desempenhar papéis como crítico cultural, poeta e compositor. Estabelece amizades com Jacob Burckhardt, professor de História da Arte, e com o compositor Richard Wagner - de quem se afastou algum tempo depois devido ao antissemitismo de Wagner - antes de participar na guerra franco-prussiana (1870), algo que lhe deixará marcas profundas para sempre. A partir de 1872 vai escrevendo e publicando as suas obras, mas problemas de saúde obrigam-no a interromper a atividade de docente, seguindo-se a procura de um lugar onde pudesse recuperar e escrever de forma tranquila. Passa por Veneza, Génova, Turim, Nice - onde inicia a escrita de "Assim Falou Zaratustra" - e Sils-Maria, cruza-se num triângulo amoroso com Lou-Andreas Salomé e Paul Rée de que resulta a recusa de Lou ao seu pedido de casamento. Apesar do desaire amoroso, não cessa de escrever, de um modo que chega a ser quase febril e obsessivo. Define conceitos como eterno retorno, vontade de poder, as frases "Deus está morto. Deus continua morto. E fomos nós que o matámos"ou Übermensch (traduzido como Além-Homem, Além-Humano e, mais frequentemente, Super-Homem). Era difícil suportar semelhante pressão e Nietzsche acabou por sofrer as consequências em 1889 com um acesso de loucura na cidade de Turim - conta-se que viu um camponês agredir o cavalo com o chicote, foi abraçar-se ao cavalo, desmaiou, ficou estatelado no chão e, após ser transportado para casa, permaneceu vários dias sem proferir palavras ou sons - que não mais lhe permitirá escrever ou sequer escapar à necessidade de cuidados por parte de outros.

A mãe foi a primeira a zelar pela sua saúde, numa fase em que o filósofo era sujeito a constantes observações no manicómio em Jena, mas morreu em 1897. Nietzsche ficou então em Weimar nas mãos da irmã, Elizabeth Förster-Nietzsche, casada com o antissemita e nacionalista Bernhard Förster, ligação à qual se opusera o irmão logo na altura do noivado. Numa carta que lhe enviou, Nietzsche foi claro: "Cometeste uma enorme estupidez! A tua ligação a um chefe antissemita revela um desconhecimento do meu modo de vida que me enche de ira e melancolia. É uma questão de honra para mim estar absolutamente limpo e ser inequívoco em relação ao antissemitismo, ou seja, em oposição, como acontece na minha escrita." Diversos historiadores e analistas concluíram que as futuras conotações nazis de parte da obra e de conceitos do filósofo terão origem nas manobras da irmã para que fossem distorcidas e adaptadas aos ideais de Adolf Hitler de quem era apoiante - quando Elizabeth Förster-Nietzsche morreu, em 1935, Hitler e alguns dos seus próximos marcaram presença no funeral. Por outro lado, os nazis acabariam por recorrer à obra do filósofo como forma de suporte credível para os seus ideais odiosos. Incapaz de recuperar da loucura que o afetava, Nietzsche morreria a 25 de agosto de 1900.

Além do livro aqui apresentado, a obra do filósofo inclui, por exemplo, "A Origem da Tragédia" (1872), "Humano, Demasiado Humano" (1878), "Aurora" (1881), "A Gaia Ciência" (1882), "Para além do Bem e do Mal" (1886), "A Vontade de Poder" (1886, mas apenas editado em 1906), "A Genealogia da Moral" (1887), "Ecce Homo" e "O Anticristo" (ambos de 1888).


Tradução de M. de Campos/Publicações Europa-América


"Quem combate monstruosidades deve acautelar-se para não se tornar também um monstro. E quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo também olha para dentro de quem o vê", escreveu Nietzsche em "Para Além do Bem e do Mal".

Marisa Fernandes é doutora em Estudos Estratégicos pela Universidade de Lisboa, mestre e licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa. Investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, do Centro de Investigação e Desenvolvimento do Instituto Universitário Militar e do Centro de Investigação da Escola Naval, também já se estreou como autora com a obra "Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as Duas Guerras Mundiais do Século XX", publicado em 2016 pelo Instituto Universitário Militar/Fronteira do Caos. Por outro lado, acredita que "ler é viajar" e, por isso mesmo, mantém um blog de livros, "Viagens Literárias", onde partilha impressões sobre alguns dos livros que vai lendo e que pode ser visto aqui.

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