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  • Paulo Jorge Pereira

"O Fiel Jardineiro", de John le Carré

O mais célebre escritor de livros de espionagem assina com pseudónimo, teve vários livros adaptados ao cinema e à televisão, publicou contos e uma autobiografia, morrendo de pneumonia em dezembro de 2020 aos 89 anos: aqui fica um excerto de um dos exemplos que chegaram ao grande ecrã - "O Fiel Jardineiro", do imortal John le Carré.



"Era o mais longe possível que conseguia estar de Londres de um modo razoável. Aqui as pessoas estão-se borrifando para as celebridades", explicou John le Carré, ou melhor, David John Moore Cornwell, ao programa "60 Minutes" da CBS norte-americana, em setembro de 2017, quando a televisão visitou a sua casa na Cornualha, a seis horas de carro da capital britânica. Dezenas de metros abaixo dos penhascos próximos está o rumorejar constante do mar mesmo ali ao lado. O argumento momentâneo era o lançamento do seu 24.º livro, "A Legacy of Spies" ou "Um Legado de Espiões", mas havia muito mais para abordar sobre a vida do escritor de romances de espionagem que fora, ele próprio, espião ao serviço do MI5 e do MI6.

Nascido na britânica localidade portuária de Poole, a 19 de outubro de 1931, David John ficou, tal como o irmão mais velho, Tony, ao cuidado do pai, Ronnie, um especialista em vigarices, a partir dos cinco anos, altura em que a mãe, Olive, os deixou - só voltariam a cruzar-se quando ele chegou aos 21 anos (o futuro escritor teve ainda um meio-irmão, Rupert, e a meia-irmã Charlotte). O pai convivia de perto com celebridades e gente da Mafia, passando de tempos de ostentação para outros de fuga e mesmo alguns anos na prisão - quando morreu, em 1975, o filho pagou a cerimónia, mas não compareceu no funeral. "Foi uma terrível confusão, mas, ao mesmo tempo, de um modo um tanto estranho, foi um privilégio viver aquela realidade e aprendi muito", confessou no "60 Minutes". "Sobretudo questões acerca do espetro variado do comportamento humano, de como baixar expectativas numa certa medida e aumentá-las noutra. E também sobre os perigos do charme que ele exerceu de forma impiedosa com grande sucesso e sobre a insegurança do mundo e de como tudo é transitório", admitiu.

Apesar desta vida pessoal acidentada, o futuro escritor nunca deixou de ser bem-sucedido na escola, chegando a estudar em Berna, na Suíça. No começo dos anos 50 foi logo funcionário do Exército inglês estacionado na Áustria, colaborando nos interrogatórios àqueles que fugiam do Leste para Ocidente. Voltou a solo inglês em 1952 e disfarçou o seu papel de discreto funcionário do MI5 (procurava identificar gente ligada à extrema-esquerda que tivesse informações sobre agentes soviéticos) com as funções de estudante no Lincoln College de Oxford. A falência do pai em 1954 levou-o a trabalhar, durante algum tempo, como professor em Somerset, mas regressou a Oxford, casou-se com Alison Ann Veronica Sharp (teriam três filhos: Simon, Stephen e Timothy, divorciando-se em 1971) e, em 1956, completou estudos superiores em Línguas e Literatura Modernas. Tornou-se docente de Francês e Alemão em Eton até 1958, altura em que foi recrutado, de modo oficial, para o serviço de espionagem de Sua Majestade. "Tinha aquilo de que precisavam, nomeadamente o conhecimento da criminalidade que tivera à minha volta e, provavelmente, também tinha dentro de mim", lembrou na entrevista-documentário da CBS. Instalava escutas telefónicas, conduzia interrogatórios, coordenava agentes e chegou a participar em operações de invasão e busca no domicílio.

Trabalhou em Londres durante os primeiros tempos, sendo mais tarde transferido para o MI6, serviço de espionagem no exterior, desenvolvendo a sua atividade na embaixada britânica em Berlim Ocidental, numa fase em que a Guerra Fria estava no auge e era construído o Muro. Foi nesse período que escreveu "O Espião que Veio do Frio". "Lembro-me de o escrever com rapidez, mas de, no começo, não fazer a mínima ideia para onde ia", contou. "Penso que todos os escritores têm algo deste género nas suas vidas uma vez, mas nunca mais me aconteceu", explicou, sobre a velocidade com que o escreveu. Seria um enorme sucesso junto do público, passando 34 semanas no topo dos livros mais vendidos.

Ninguém, exceto os serviços secretos, conheciam a verdadeira identidade do autor, que, em 1961, quando publicara "Chamada para a Morte" e o pseudónimo de John le Carré entrou no domínio público, ainda estava nos serviços secretos. Aliás, os dois livros seguintes foram escritos também sob a pele de espião e o pseudónimo, como contou muitos anos mais tarde, era uma obrigatoriedade, pois só desse modo os serviços secretos aprovariam a publicação dos livros.

A sua ligação foi exposta num jornal e, apesar de negar nas primeiras vezes, tornou-se de tal forma inevitável reconhecer que até os serviços secretos passaram a comentar por todo o lado que Cornwell e Le Carré eram uma e a mesma pessoa. Resolveu prosseguir. Tinha muito para contar, uma imaginação delirante e um talento inesgotável para descrever muito do que era, afinal, realidade entre serviços secretos. A Guerra Fria começou por ser o seu tema principal. "Um Crime Quase Perfeito" é de 1962, mas só a partir do ano seguinte, com "O Espião que Veio do Frio", o autor ganhou evidência, até porque Martin Ritt realizou, em 1965, um filme homónimo, tendo Richard Burton, Clarie Bloom e Oskar Werner como principais intérpretes. No mesmo ano deste filme publica "Guerra de Espelhos" e, em 1968, sai "Algures na Alemanha". Pelo meio, por puro divertimento, apresenta contos em páginas de jornais: "Dare I Weep, Dare I Mourne", no Saturday Evening Post, de 28 de janeiro de 1967; "What Ritual is Being Observed Tonight", na mesma publicação, a 2 de novembro de 1968; no mesmo ano, em várias publicações, "The Writer and The Horse" e, muito mais tarde (2009), "The King Who Never Spoke".

A década de 70 vai consagrá-lo com caráter universal, pois é a da publicação da chamada trilogia de Smiley em que o célebre agente George Smiley conquista audiência: depois de uma aventura ainda não relacionada com esta trilogia ("O Amante Ingénuo e Sentimental", de 1971), surge "A Toupeira", celebrizado com o título original de "Tinker, Tailor, Soldier, Spy" (1974) - será série televisiva da BBC em 1979 (e Alec Guinness faz de Smiley) e, em 2011, um filme com Colin Firth, Gary Oldman, John Hurt, Benedict Cumberbatch, Kathy Burke, Tom Hardy e Stephen Graham. Le Carré reconheceu, mais tarde, que a figura do traidor nesta aventura se inspirou em Kim Philby, o célebre agente duplo que trabalhou para o Ocidente e para Moscovo em simultâneo, revelando a identidade de muitos espiões ocidentais, entre os quais precisamente o próprio Le Carré. "O Ilustre Colegial" (1977) é o caso seguinte e "A Gente de Smiley" fecha a trilogia em 1979 e ganha estatuto de série televisiva na BBC em 1982, outra vez com Alec Guinness.

Estava assegurado um lugar na posteridade para o seu nome e o seu trabalho, era um escritor que vendia milhões, e as décadas seguintes ajudaram a aprofundar-lhe a fama. De 1983 é "A Rapariga do Tambor", outra obra adaptada ao grande ecrã (1984), com realização de George Roy Hill e Diane Keaton e Klaus Kinski como destaques. Em 1986 publica "Um Espião Perfeito" e volta a merecer escolha para uma televisão no ano seguinte. De 1989 é "A Casa da Rússia", mais um caso de adaptação cinematográfica com o "improvável" par Michelle Pfeiffer-Sean Connery em 1990, num filme de Fred Schepisi. Os tempos começam a mudar, o fim da Guerra Fri, o desmembramento da União Soviética, as alterações de política dos norte-americanos passam a figurar nas obras de John le Carré, mas também se multiplicam os exemplos de outro tipo de histórias suas: em 1991 sai "The Good Soldier" e, anos mais tarde, publicará "The United States has Gone Mad" (2003), assim como uma perspetiva sobre o agente duplo Kim Philby com o título "Afteword" (2014).

Mas antes disso há tempo para mais espionagem: "O Peregrino Secreto" (1990), "A Paz Insuportável" (1991), "O Gerente da Noite" (1993), "O Nosso Jogo" (1995), "O Alfaiate do Panamá" (1996) - neste último caso, está de regresso ao cinema em 2001 com um filme de John Boorman que Pierce Brosnan protagoniza ao lado de Jamie Lee Curtis e Geoffrey Rush. "Single & Single" (1999) é a obra seguinte, mas logo está outra vez no grande ecrã com "O Fiel Jardineiro", livro de 2001 de que aqui se apresenta um excerto com presença cinematográfica em 2005 pela mão do realizador brasileiro Fernando Meirelles, sendo Ralph Fiennes e Rachel Weisz os protagonistas. "Amigos até ao Fim" é de 2003, seguindo-se "O Canto da Missão" (2006) e "A Most Wanted Man" (2008), última adaptação ao grande ecrã de uma obra sua, desta vez com Philip Seymour Hoffman, Willem Dafoe, Rachel McAdams e Robin Wright. E não deixa de alargar a lista de obras notáveis: "Um Traidor dos Nossos" (2010), "Uma Verdade Incómoda" (2013), "Um Legado de Espiões" (2017), no qual recupera a figura do agente George Smiley, coloca "o presente a interrogar o passado e se o que fizemos em nome da liberdade valeu a pena", e, por fim, "Agente em Campo" (2019). De 2016 é a última adaptação de um livro seu para televisão: neste caso tratou-se da obra "O Gerente da Noite" para BBC e AMC, com a realização de Susanne Bier, Hugh Laurie e Tom Hiddleston no elenco.

"Sou um contador de histórias que quer sempre manter o leitor interessado e fazê-lo sentir vontade de virar a página, mas não me preocupo com a posteridade, nem sequer se sou escritor de qualidade, popular ou autor de thrillers", descreveu-se no trabalho da CBS.


Publicações Dom Quixote/Tradução de Helena Ramos e Artur Ramos


No meio de tantas histórias de espionagem que contou, John le Carré também teve tempo para publicar a autobiografia: chama-se "The Pigeon Tunnel: Stories from my Life" e saiu em 2016.

Há espaço entre David e John, pergunta o jornalista da CBS ao escritor no começo da entrevista. "Sim, sem dúvida", responde o homem de letras. "David tenta ser um bom pai, um tipo normal, apesar das dificuldades e das inúmeras falhas; John dissipa-se no éter, é o homem da imaginação, posso passear com ele e deixá-lo à solta junto aos penhascos, porque ele aproveita bem o tempo e povoa os espaços em branco com o seu espírito criativo". Conforme mostrou nesse "60 Minutes" de 2017, não escrevia em computador, era a segunda mulher, Valérie Jane Eustace (casaram-se em 1972 e tiveram um filho, Nick Harkaway, que também se dedica à escrita) quem cuidava da datilografia, usando a sua experiência numa editora, depois do trabalho do escritor num escritório à parte da mansão onde viviam.

O jornalista pergunta-lhe por que razão recusou prémios literários e honrarias do Estado como ser declarado cavaleiro pela rainha. Resposta de Le Carré: "No meu próprio país, sou tão suspeito para o universo literário que não quero essas distinções e muito menos pretendo ser Commander of the British Empire ou qualquer outra coisa do género. Considero que isso causa vómitos. Não quero pertencer à lista de homenageados pelo Estado e, desse modo, estar conforme com o Estado. E, sobretudo, não quero usar a armadura", concluiu com um sorriso. "A minha Inglaterra seria a que encontrava o seu lugar na União Europeia e não a chauvinista que procurou fugir assim que apareceu uma oportunidade", afirmou, criticando ainda Trump e Putin. Sobre este último disse mesmo ao "60 Minutes" que "espiões ingleses a trabalhar com dados da Rússia diriam que estamos quase tão mal como na Guerra Fria. Putin vê tudo como conspirações e o seu domínio sobre os russos é de tal forma que voltou aos antigos sistemas que lhe são familiares. Voltámos ao ponto em que estávamos na Guerra Fria com o extra de que Putin pretende concretizar a missão de acabar com as democracias decentes onde quer que as encontre".

Traduzido em mais de quatro dezenas de línguas, em 2019 publica "Agente em Campo", o último episódio do seu espírito criativo. Uma pneumonia insinua-se como um espião, atraiçoa-lhe a saúde e acaba por matá-lo a 12 de dezembro de 2020. Mas o seu site continua ativo e pode ser consultado aqui.

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