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  • Paulo Jorge Pereira

"O Silêncio dos Livros", de George Steiner

Considerado uma autoridade em crítica literária e um dos intelectuais e ensaístas mais respeitados dos tempos modernos, George Steiner morreu no ano passado, a 3 de fevereiro. A escolha para leitura de hoje recai sobre um excerto da obra "O Silêncio dos Livros", tão a propósito nos tempos que vivemos.



Nascido em França, na cidade de Paris, a 23 de abril de 1929, Francis George Steiner iria tornar-se um dos principais críticos literários da história contemporânea, granjeando respeito generalizado como personalidade intelectual ímpar. Era filho de judeus - Else e Frederick - e tinha uma irmã mais velha (Ruth). Cinco anos antes do nascimento de George, o pai mudou a família de Viena para Paris, porque o antissemitismo na capital austríaca já representava uma ameaça. Mais tarde, quando o rapaz tinha apenas 11 anos, a família fugiu da capital francesa, cerca de um mês antes da ocupação nazi: o pai estava em Nova Iorque e mandou-os chamar, depois de receber a informação de que a barbárie hitleriana estava a caminho de ocupar todo o território francês. Conforme contou em 2017 à jornalista Luciana Leiderfarb, do Expresso, foi no derradeiro barco que saiu do porto de Génova rumo a Nova Iorque que seguiu com a mãe e muitos outros que escaparam às garras do Mal. Assim salvaram a vida do Holocausto e Steiner pôde encetar um brilhante percurso universitário. Licenciado pela Universidade de Chicago, iria obter um mestrado em Harvard (e receber aqui o galardão Bell em Literatura Americana), doutorando-se em Oxford e aqui conseguindo outro prémio: o Chancellor's Essay. A partir de 1944 assegurou a nacionalidade norte-americana, mas a maior parte da sua atividade profissional e da sua vida pessoal aconteceria no Velho Continente. Em 2017 explicou à repórter do Expresso como tomara a decisão de ficar, depois de visitar o pai em Nova Iorque: "Só tu podes decidir", disse-lhe o pai. "Mas, se deixares a Europa, Hitler terá ganho", aconselhou-o.

Dominava quatro idiomas: francês, alemão, inglês e italiano. Ao longo dos anos construiu uma carreira como docente e como crítico ao mesmo tempo que escrevia e publicava, não apenas livros, mas também artigos para diferentes órgãos de comunicação. Por exemplo, integrou a revista The Economist como elemento da área editorial de 1952 a 1956; entre 1967 e 1997 escreveu mais de centena e meia de artigos para a revista New Yorker (seriam reunidas em livro e publicadas em julho de 2017), mas também publicou no Times Literary Suplement e no diário The Guardian. Enquanto professor, as suas ideias foram difundidas por variadas instituições onde ensinou: Cambridge, Stanford, Yale, Genebra ou Innsbruck.

Depois da sua morte, a 3 de fevereiro do ano passado, foi divulgada uma entrevista que dera, em conversas ao longo de anos, com o ensaísta italiano Nuccio Ordine, com a condição de que o texto fosse apenas tornado público após o seu desaparecimento. Aí desenvolve, conforme publicaram jornais como o diário espanhol El País ou o italiano Corriere della Sera, considerações sobre uma série de temas, respondendo designadamente à questão dos erros que apontava a si próprio. "Escrevi um pequeno livro, 'Errata', no qual falo dos erros que cometi", reagiu então. "Não consegui captar alguns fenómenos essenciais da modernidade. A minha educação clássica, o meu temperamento e a minha carreira académica não me permitiram compreender completamente a importância de certos grandes movimentos modernos", recriminou-se.

E deixou exemplos: "Não entendi, que o cinema, como nova forma de expressão, poderia revelar talentos criativos e novas visões melhor do que outras formas mais antigas, como a literatura e o teatro. Não compreendi o movimento contra a razão, o grande irracionalismo da desconstrução e, em alguns aspetos, do pós-estruturalismo. Deveria ter percebido que o movimento feminista, que apoiei em Cambridge com grande convicção ao reconhecer a importância do papel da mulher, mais tarde assumiria, na luta para ocupar um lugar dominante em nossa cultura, uma função política e humana extraordinária", admitiu.

Por outro lado, deixou ainda uma reflexão crítica sobre o papel que representou e algo que gostaria de ter feito, mas, segundo reconheceu, não encontrou coragem para fazer: "Crítico, leitor, erudito, professor, são profissões que amo profundamente e que vale a pena exercer bem. Mas é completamente diferente da grande aventura da 'criação', da poesia, de produzir novas formas. E, provavelmente, é melhor fracassar na tentativa de criar do que ter algum sucesso no papel de 'parasita', como gosto de definir o crítico que vive de costas para a literatura", disse.

"É claro que os críticos (já enfatizei isso várias vezes) também têm uma função importante; tentei lançar, às vezes com sucesso, alguns trabalhos e defendi os autores que acreditava merecerem o meu apoio. Mas não é a mesma coisa. A distância entre aqueles que criam literatura e aqueles que a comentam é enorme; uma distância ontológica (para usar uma palavra pomposa), uma distância do ser", defendeu, na entrevista divulgada pelos jornais europeus.

Nessa entrevista falou ainda de outros temas como, por exemplo, sobre a amizade e o amor. "Talvez a amizade seja mais valiosa que o amor. Defendo esta tese porque a amizade não tem nada do egoísmo do desejo carnal", disse. Quanto ao amor, "teve muitíssima importância, talvez demasiada. Em primeiro lugar, a felicidade que o casamento me deu e que não posso explicar com palavras, racionalmente. E depois um ou dois encontros que foram decisivos na minha vida. Acredito que, potencialmente, as mulheres têm uma sensibilidade superior à dos homens", acentuou.

Publicou livros como "Tolstoi ou Dostoievski" (1959), "A Morte da Tragédia" (1961), "Anno Domini" (1964), "Linguagem e Silêncio" (1967), "A Poesia do Pensamento" (1970), "No Castelo do Barba Azul" (1971), "Nostalgia do Absoluto" (1974), "Depois de Babel" (1975), "Sobre a Dificuldade e Outros Ensaios" e "Martin Heidegger" (ambos de 1978), "O Transporte para San Cristóbal de A.H." (1981), "Antígonas" (1984), "Presenças Reais" (1989), "Provas e Três Parábolas" (1992), "Paixão Intacta" (1996), "Errata: Revisões de Uma Vida" (1997), "Gramáticas da Criação" (2001), "As Lições dos Mestres" (2003), "A Ideia de Europa" (2004), "O Silêncio dos Livros", de que aqui se apresenta um trecho (2006), "Os Livros que Não Escrevi" e "Os Logocratas" (os dois de 2008).


Editora Gradiva/Tradução de Margarida Sérvulo Correia


"O Silêncio dos Livros" inclui um outro pequeno ensaio, intitulado "Esse Vício Ainda Impune", de Michel Crépu, do qual se retira uma espécie de resposta ao texto de Steiner.

Muito crítico de Donald Trump e do Brexit, confessou na entrevista ao Expresso que, quando o filho lhe telefonou a dizer que o ex-ocupante da Casa Branca fora eleito, pensou tratar-se de uma piada de mau gosto. E, na mesma entrevista, sustentou: " A América é maior do que Trump. Mas Inglaterra não é maior do que o Brexit."

George Steiner foi casado com Zara Shakow Steiner durante 65 anos e tiveram dois filhos: David, docente no Hopkins Institute e nascido em 1958, e Deborah, professora na Columbia University, dois anos mais nova do que o irmão. Aos 91 anos, Zara morreu dez dias depois do marido, a 13 de fevereiro de 2020.

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