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  • Paulo Jorge Pereira

"Perguntem a Sarah Gross", de João Pinto Coelho

Primeiro livro do vencedor do Prémio Leya em 2017, "Perguntem a Sarah Gross" é de 2014 e apresenta a prosa de João Pinto Coelho às voltas com temáticas da II Guerra Mundial e do Holocausto, que lhe despertam interesse há mais de três décadas, assente num rigoroso trabalho de investigação. Para que ficção e realidade não se distanciem demasiado.



Nascido em Londres no ano de 1967, João Pinto Coelho foi estudante de Belas-Artes, licenciou-se em Arquitetura, passou parte da sua vida em Nova Iorque e trabalhou inclusive num teatro, mas sem apelo de vocação para as artes dramáticas. De regresso a Portugal, depois de viver e trabalhar mais na capital, transferiu-se para uma aldeia no norte e vai desenvolvendo a atividade da escrita. Interessado pelas temáticas do Holocausto, dos campos de concentração e extermínio - em 2009 e 2011 fez parte de iniciativas do Conselho da Europa em Auschwitz, acompanhou investigadores sobre o assunto, idealizou e colocou em prática o "Auschwitz in First Person/A Letter to Meir Berkovich", projeto de união entre portugueses e polacos mais jovens - e da II Guerra Mundial há mais de três décadas, sobre as quais tem falado em encontros com estudantes pelo país fora, João Pinto Coelho estreou-se na vida literária em 2014 com o livro "Perguntem a Sarah Gross" que foi finalista do Prémio LeYa, abordava precisamente aqueles temas e do qual aqui se apresenta um excerto. "Comecei a interessar-me de maneira mais permanente há décadas quando li um livro nos tempos da faculdade", contou-me quando o entrevistei em dezembro de 2017 para o semanário Contacto do Luxemburgo. "Há sempre uma semente para estas coisas e esse livro, 'Os Carrascos Voluntários de Hitler', impressionou-me de um modo particular. A partir daí, sucedeu o que acontece a muita gente que se interessa pelo Holocausto e vai à procura de respostas, não as encontra, ou encontra poucas, mas acumula perguntas cruciais, e isso manteve este fascínio ao longo de todos estes anos", disse.

O segundo livro tornou a dedicar-se ao Holocausto e, desta vez, conquistou mesmo o Prémio LeYa em 2017 (além disso, chegou a finalista do Prémio Fernando Namora e a semifinalista do Oceanos). "Os Loucos da Rua Mazur" tem por base o massacre da comunidade judaica na cidade polaca de Jedwabne em plena II Guerra Mundial e causou polémica porque não ignorava a perseguição feita pelos próprios polacos a judeus e, por isso, João Pinto Coelho acabou por ser atacado quer pela imprensa local, quer pelo embaixador em Lisboa. Mas o escritor não se desviou um milímetro da verdade do seu trabalho e da sua investigação, reafirmando tudo aquilo que escrevera e dissera sobre o assunto.

Na entrevista de dezembro de 2017, a controvérsia ainda estava no auge, mas o escritor não se furtou a analisar o sucedido e explicou como tudo se processara. "Esperava reações, mas surpreendeu-me a da imprensa, sobretudo pela forma e pela distorção. Fui acusado de atacar a Polónia e os polacos. Foi desproporcionado e fiquei surpreendido com o impacto das minhas declarações", indicou. "Mas, pensando um pouco melhor, no fundo talvez não seja tão surpreendente, porque os nacionalismos se alimentam deste tipo de polémica e sobretudo na Polónia em que, desde o século XIX, parte da população se vê como alvo de ataques externos. Também é preciso perceber a história da Polónia, um país muito massacrado ao longo dos séculos, mas o nacionalismo tende a utilizar estas polémicas para se alimentar e transformar isto num ataque ao país", contou.

Sobre o comportamento do diplomata polaco em Lisboa, o autor deu uma resposta mais abrangente e profunda: "A reação do embaixador foi muito mais equilibrada, mas há ventos maléficos a soprar na Europa toda, não só na de Leste. E a Polónia não é exceção, os sinais estão lá, são evidentes. A própria associação de comunidades judaicas da Polónia enviou uma carta em agosto – ou seja, era difícil ser mais recente – ao presidente do partido que está no poder, a alertar para o discurso anti-semita que se observa nesta altura e dizendo expressamente que não se sentia em segurança. Isto causa desconforto, é impossível negá-lo. E foi isso que eu disse, mas foi mal recebido."

Pinto Coelho admitia nessa altura que a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos eram outros sinais preocupantes: "O fenómeno está a alastrar e é global com os populismos e os nacionalismos exacerbados, encontrando-se em lugares onde não estávamos habituados a lidar com isso. Isso assusta, ganhou-se uma surpreendente legitimidade nos discursos nacionalistas e extremistas. Aliás, a Europa, tal como foi idealizada enquanto projeto, está a ser posta em causa. Receio que encontremos problemas para o projeto europeu precisamente na abertura a Leste, pois não sei se esses países estavam tão preparados para o integrar, incluindo por motivos que têm a ver com o processo de reconhecimento das fronteiras", reconheceu.

Depois desse processo escreveu "Um Tempo a Fingir", de que aqui já apresentei um excerto a 16 de março e onde as suas temáticas favoritas voltam a ser o centro do romance. E, também por força do interesse e do trabalho que tem desenvolvido acerca do Holocausto, mostrou-se muito interventivo numa recente polémica com declarações do jornalista/escritor José Rodrigues dos Santos a propósito do Holocausto, dos judeus e dos campos de extermínio nazis.


D. Quixote


"Aprendemos, mas facilmente nos esquecemos", considera João Pinto Coelho, mesmo quando o tema é o Holocausto.

Quando lhe perguntei se seria exagerado considerar que a Humanidade não aprende com os erros, a resposta de João Pinto Coelho foi bem elucidativa: "Nada exagerado, aliás, escrevo isso neste romance a certa altura. Não aprendemos com a História, temos uma enorme facilidade em esquecer. Costumo dar um exemplo metafórico que tem a ver com a primeira visita que fiz a Auschwitz: estudei durante muitos anos o Holocausto e Auschwitz, mas só lá fui em 2009. Lembro-me da viagem de autocarro entre Cracóvia e o campo, cerca de 60 km, e lembro-me de, na parte final do percurso, estar com o coração na boca. Porque tinham sido muitos anos a ler sobre o assunto e, pela primeira vez, ia estar lá. E, de facto, a chegada causou-me um impacto brutal – passar debaixo daquele letreiro onde se lê "Arbeit macht Frei" ["O trabalho liberta"], passar pelos campos, pelo crematório, a câmara de gás. Acontece que fiquei a trabalhar no campo. Dormia num hotel próximo, com vista para os barracões de tijolo, mas entrava lá de manhã cedo, antes de os turistas chegarem, e saía à noite, já toda a gente fora embora. Fiz isso durante muitos dias seguidos. E foi extraordinário que, ao fim do segundo ou terceiro dia, passeava sozinho por entre os barracões e já não me lembrava do sítio onde estava, pensava mesmo na minha vida de todos os dias. Ora, isto é uma metáfora para a facilidade que temos em esquecer-nos de Auschwitz e da História. Isso é perturbador. Aprendemos, mas facilmente nos esquecemos."

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