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  • Paulo Jorge Pereira

Rita França Ferreira lê "A Contadora de Filmes", de Hernan Rivera Letelier

Criadora do projeto desculpasparaler.com e forte impulsionadora de iniciativas de debate com personalidades da Cultura nesta fase de pandemia, Rita França Ferreira apresenta passagens do livro "A Contadora de Filmes", escrito pelo chileno Hernan Rivera Letelier. Um livro que valoriza devidamente a arte de bem contar histórias, tão desprezada nos tempos em que as tecnologias assumem o comando por toda a parte.



Tendo convivência desde que nasceu com os ambientes mineiros e das estações salitreiras no norte do território chileno, numa localidade chamada Algorta, Hernan Rivera Letelier não escapou a essa influência profunda quando a escrita se tornou o seu ofício. Nascido a 11 de julho de 1950, o futuro escritor mudou-se com a família (os pais e quatro irmãos) para Antofagasta. Porém, a tragédia assinalou esta alteração, uma vez que a mãe acabou por morrer apenas 15 dias depois da chegada à nova morada. Perante este panorama desolador, o pai decidiu que voltariam à origem, mas o jovem Hernan quis ficar a viver na cidade. Para sobreviver iria vender jornais e ter algumas das melhores experiências da sua vida em salas escuras com ecrãs brilhantes a seguir avidamente vários filmes por dia. Mas estes tempos não podiam durar para sempre e, depois de três anos a morar em Antofagasta, Hernan Rivera voltou à região dos pais, trabalhou para uma estação salitreira como distribuidor de mensagens e acabou por entrar numa oficina até aos 18 anos. Seguiu-se outra das fases que guarda com mais enlevo, traduzida nos três anos dedicados a viajar, conhecendo Chile, Peru, Argentina, Bolívia e Equador. O que viu, as sensações que guardou, as injustiças e sofrimentos que testemunhou, todos os ambientes percorridos lhe disseram que teria de ser escritor. Mas também as necessidades extremas às quais se submeteu: foi mesmo para matar a fome que se candidatou a um concurso de rádio com um poema - ganhou e não mais se afastou da escrita e dos livros.

A poesia e os romances já o atraíam. Em 1974 casara-se com María Soledad Pérez (o casal tem cinco filhos), adotando um ritmo mais adequado ao que pretendia fazer da sua vida. Estreou-se a publicar com "Poemas e Pomadas" (1987), edição de autor com apenas meio milhar de exemplares. De 1990 seria o regresso à publicação, então com "Cuentos Breves e Cuescos de Brevas". No entanto, só com o romance "A Rainha Isabel Dançava Rancheras" lhe foi possível ganhar evidência, leitores, popularidade e começar a ser distinguido com diferentes galardões, além de uma adaptação de parte da obra ao género dramático. Corria o ano de 1994 e, desde então, o autor publicou dezenas de obras, incluindo "Fatamorgana de Amor con Banda de Música" (1998), que foi adaptado ao cinema. Mas a lista engloba cerca de duas dezenas de exemplos como "Os Comboios Vão para o Purgatório" (2000), "A Contadora de Filmes" (2009, de que aqui se apresenta uma parte), "A Arte da Ressurreição" (2010), "O Escritor de Epitáfios" (2011) ou, mais próximo de nós, em 2018, "O Homem que Olhava para o Céu".



Editorial Presença/Tradução de Regina Louro


Letelier foi candidato a deputado nas eleições realizadas em 2005, obteve cerca de 22 mil votos, correspondentes a perto de 19%, mas falhou a eleição.

"Sigo muitos blogues de pessoas que gostam de ler como eu. Contudo, são destinados a quem já gosta de ler. Sinto que faltava um espaço que sugerisse e falasse de livros para quem quer recomeçar a ler ou para quem não lê. E isto tem de ser feito de uma forma clara, descodificada, simplificada. Também foco o gosto de leitura que recuperamos quando somos pais. Tornamo-nos os contadores de histórias e os livros dos nossos filhos", explica Rita França Ferreira, a criadora do site desculpasparaler.com. "Estou certa de que esta abordagem vai trazer boas conversas à mesa, vai unir famílias pela leitura, vai por em comum conhecimento e, sobretudo, vai permitir viajar através de um livro. Seja ele em papel, áudio ou ebook", reconhece a consultora de comunicação. Desculpasparaler.com estava à espera de uma oportunidade e ela surgiu online no dia 25 de Abril. Destinado sobretudo a pessoas que não leem ou leem pouco, apresenta inúmeras sugestões de leitura, "pessoas comuns que partilham as obras que passam pelas respetivas mesas de cabeceira".

Mas há muito mais em jogo neste projeto: "Entrevistas a pessoas comuns, portuguesas e estrangeiras, visitas a bibliotecas de radiologistas, advogados, investigadores, professores; a descoberta de dicas para se falar e escrever mais e melhor; ouvir histórias pela voz dos adolescentes. Entre outras desculpas para ler." Quanto às razões que levaram à concretização da ideia na quarentena é muito simples: porque "houve coragem e tempo. Com a quarentena, houve tempo para tirar da gaveta este projeto, aprimorá-lo e pô-lo ao serviço dos outros", salienta Rita França Ferreira, cujo objetivo primordial é "contribuir para o aumento dos hábitos de leitura em Portugal. Não é um site. É uma desculpa para ler".

Eis como a própria Rita França Ferreira se descreve: "Conhecida por França Ferreira. Sou mãe da M. Diz que sou a melhor mãe do mundo, apesar de não ter jeito para vídeos no tik tok. Sempre quis ter uma profissão ligada aos livros, na altura dizia que queria ser escritora ou ter uma livraria. Em pequena, estava rendida às coleções "'Os Sete' e 'Colégio das Quatro Torres' e lembro-me da avidez de leitura quando me deparei com 'O Conde de Monte Cristo', do Alexandre Dumas. Depois do jornalismo, das multinacionais e do marketing research, hoje sou consultora de marketing e criadora de conteúdos, apaixonada por marcas e por boas histórias. Fundei a Caracol nas Entrelinhas, que escreve histórias para marcas com palavras, e palavras para marcas com história", sintetiza.

Rita França Ferreira começou por ler aqui um excerto do livro "A Maldição do Marquês", de Tiago Rebelo, a 9 de novembro; mais recente, do passado dia 30 de abril, é a apresentação de um trecho da obra "O Vício dos Livros", cujo autor é Afonso Cruz. A seguir a este, a 2 de maio, a criadora do desculpasparaler.com apresentou passagens de um livro de Adília Lopes, "Estar em Casa".

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