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  • Paulo Jorge Pereira

"Tudo o que Tenho Levo Comigo", de Herta Müller

O pai esteve na II Guerra Mundial ao serviço das Waffen SS e a mãe, com apenas 17 anos, seria deportada para um gulag na antiga União Soviética, ali ficando durante cinco anos. Herta Müller nasceria a 17 de agosto de 1953, na cidade romena de Nitzkydorf, onde vivia uma minoria de alemães. Hoje aqui regressa a sua obra.



Não houve facilidades para Herta, cujo pai passou a ser condutor de camiões no pós-guerra. A jovem iria dedicar-se ao estudo de Literatura germânica e romena na Universidade de Timisoara, aqui conhecendo e integrando o Aktionsgruppe Banat, círculo de escritores que se batiam contra a ditadura de Ceausescu. Concluídos os estudos, no final dos anos 70 foi tradutora numa fábrica de maquinaria, mas seria afastada porque rejeitou a colaboração como informadora da Securitate, polícia secreta do regime que continuaria a persegui-la mesmo depois do despedimento. Tornou-se professora num infantário e deu explicações de alemão, mas, perante as constantes ameaças de que era alvo preferencial, Müller fugiu em 1987 para a República Federal Alemã, acompanhada pelo marido, o também escritor Richard Wagner. De 1982 é o seu primeiro livro, intitulado "Niederungen" e cuja primeira edição, ainda na Roménia, foi objeto da censura, tendo sido publicado o livro na íntegra em 1984 na Alemanha. "Drückender Tango" foi a obra seguinte, percebendo-se que os temas fortes da sua escrita gravitavam em torno do que era viver oprimida em ditadura, rodeada de corrupção e intolerância, mas também do exílio. Ao Frankfurter Allgemeine Zeitung, a escritora haveria de confessar que "a experiência mais esmagadora fora a de viver sob regime ditatorial na Roménia", acrescentando: "E viver apenas a algumas centenas de quilómetros na Alemanha não significa apagar pura e simplesmente essa experiência. Trouxe comigo o passado quando saí e recordo que as ditaduras continuam a ser um tema de conversa na Alemanha". Vive em Berlim e já foi professora convidada em inúmeras universidades europeias.

As memórias do que vivera na Roménia nunca se apagaram. Em 1999, considerando tratar-se de "um dever", escreveu "Hertzier" (traduzido como "A Terra das Ameixas Verdes"), história de cinco jovens que sofrem sob o regime de Nicolae Ceausescu, uma homenagem expressa "aos amigos que foram assassinados pela ditadura". Quando lhe foi atribuído o Nobel da Literatura, Peter Englund, secretário permanente da Academia sueca até 2015, deixou-lhe elogios. "Por um lado, trata-se de uma escritora excelente que utiliza linguagem verdadeiramente fantástica; por outro, é notável como consegue transmitir através da escrita aquilo que é viver sob um regime ditatorial; aquilo que é pertencer a uma minoria num outro país e ainda como é ser um exilado", defendeu. Em entrevista ao site da organização do Prémio Nobel, Müller afirmou que sempre escreveu para si própria e aprofundou: "Para clarificar as questões para mim mesma e compreender aquilo que de facto se passava. Venho de uma localidade muito pequena, depois seguiu-se a cidade e houve sempre descontinuidades, eu era da minoria alemã e não pertencia a lado nenhum. Depois até com a minoria alemã tive conflitos porque consideravam que, logo no meu primeiro livro, eu traíra a minha origem. Tudo porque me referi ao envolvimento no Nacional Socialismo e sobre o estilo de vida arcaico e o etnocentrismo naquela localidade. Não me perdoaram, porque queriam literatura sobre a pátria e sentiram que os comprometia. Fui excluída dali, tal como me excluíram da sociedade romena por motivos políticos. E, mais tarde, quando cheguei à Alemanha, olhavam-me como romena, isto é, fui sempre vista como um corpo estranho onde quer que estivesse", disse.

Embora a sua língua materna seja o alemão, Herta Müller também aprendeu a expressar-se em romeno e contou na entrevista como era influenciada a sua escrita em função do domínio de ambas as línguas. "Só aprendi romeno já tarde, aos 15 anos, e fi-lo porque gostava do idioma. É uma língua muito sensual, poética, carregada de imagens e muito rica em metáforas. Tem muitas diferenças por comparação com o alemão e, no fundo, acabo por conseguir um olhar diferente acerca das mesmas coisas. É como se a linguagem tivesse olhos diferentes", comparou.


Companhia das Letras/Tradução de Carola Saavedra


"Se me excluem por causa de quem sou e daquilo que penso, então que seja assim. Não posso andar a dar saltos mortais ou a fingir que sou uma pessoa diferente daquilo que sou apenas em nome da inclusão. Além disso, não iria funcionar: a partir do momento em que não pertencemos a algum lado, acabou", disse em entrevista ao site do Prémio Nobel.

Em Portugal estão editadas seis obras da Nobel da Literatura de 2009: "O Homem é um Grande Faisão sobre a Terra" (1993), pela Cotovia; "A Terra das Ameixas Verdes" (2009), com chancela da Difel; "Tudo o que eu Tenho Trago Comigo" (2010, pela D. Quixote, cuja edição brasileira é lida no vídeo aqui apresentado); "O Rei faz Vénia e Mata" (2011, Texto Editores); "Hoje Preferia não me ter Encontrado" (2011) e "Já Então a Raposa era o Caçador" (2012), ambos da D. Quixote.

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