Alexandra Jacob lĂȘ "O Meu Soneto", de Florbela Espanca
- Paulo Jorge Pereira
- Mar 24, 2024
- 3 min read
Aqui se recupera a leitura jĂĄ apresentada a 6 de agosto de 2020: Alexandra Jacob recorre Ă obra de Florbela Espanca e lĂȘ "O Meu Soneto" como sugestĂŁo.
Tinha apenas oito anos e jĂĄ escrevia poesia. Flor Bela de Alma da Conceição Espanca nasceu em Vila Viçosa, a 8 de dezembro de 1894. Era filha ilegĂtima e o pai sĂł a reconheceu depois de ela se suicidar com apenas 36 anos - para trĂĄs ficava uma curta vida recheada de peripĂ©cias de sofrimento como trĂȘs casamentos, dois divĂłrcios ou a morte violenta do irmĂŁo, Apeles DemĂłstenes da Rocha Espanca, num acidente de aviação em 1927. Apesar de viver pouco tempo, a escritora deixou marcas profundas na sociedade, nĂŁo apenas atravĂ©s dos seus livros, mas tambĂ©m por causa do seu espĂrito de ser humano livre e sem receios de se mostrar pioneira. Por exemplo, seria uma das primeiras mulheres no curso liceal em Portugal. Ăvida leitora, estudou Letras em Ăvora e foi uma de 14 mulheres, entre 347 alunos, a matricular-se no curso de Direito da Universidade de Lisboa.
Antes, em 1913, casara-se com Alberto de Jesus Silva Moutinho, de quem fora colega na escola. Desenvolve as primeiras tentativas de publicar o seu trabalho literĂĄrio em 1916 e trabalha como jornalista (Modas & Bordados, um suplemento do jornal O SĂ©culo, mas tambĂ©m NotĂcias de Ăvora e A Voz PĂșblica). Entretanto, o casamento nĂŁo estava de acordo com o que sonhara e Florbela sofre mesmo um aborto que lhe causa danos. Começa o afastamento do marido, publica "Livro de MĂĄgoas", obra de estreia em 1919, e passa a viver com AntĂłnio JosĂ© Marques GuimarĂŁes, oficial da GNR, a partir de 1920. Do ano seguinte Ă© a sua saĂda da Faculdade, o primeiro divĂłrcio, o casamento com Marques GuimarĂŁes, a passagem para o Porto e, quando o marido se torna chefe de gabinete do ministro do ExĂ©rcito, o regresso Ă capital.
A qualidade do seu trabalho poĂ©tico desperta atençÔes e a revista Seara Nova publica-lhe um soneto em 1922. No ano seguinte, com os custos suportados pelo pai, sai a segunda obra com a sua assinatura: "Livro de SĂłror Saudade". Ensina PortuguĂȘs para obter algum dinheiro e divorcia-se pela segunda vez em 1925, casando-se com MĂĄrio Pereira Lage, um mĂ©dico com quem jĂĄ vivia desde o ano anterior. Instalam-se no Porto, Florbela mantĂ©m colaboraçÔes com jornais, embora sinta enormes dificuldades para publicar novos livros. Faz traduçÔes para duas editoras (Civilização e Figueirinhas), mas a sua vida regista novo abalo terrĂvel com a morte do irmĂŁo, a 6 de junho de 1927. Dedica-lhe um livro de contos, "As MĂĄscaras do Destino", que sĂł irĂĄ sair um ano apĂłs a sua morte. Agravam-se os sintomas de neurose que jĂĄ a apoquentavam e, em 1928, faz a primeira tentativa de suicĂdio que nĂŁo produz resultados. Escreve "DiĂĄrio do Ăltimo Ano", que se junta a "Charneca em Flor", ambos sem editora para publicação. EstĂĄ muito Ă frente do seu tempo na linguagem de tom erĂłtico que utiliza em vĂĄrios poemas e nas atitudes de emancipação feminina. MantĂ©m as colaboraçÔes com diferentes publicaçÔes - O Primeiro de Janeiro, revista Civilização e Portugal Feminino sĂŁo apenas exemplos - mas, pouco antes da saĂda de "Charneca em Flor", repete por duas vezes a tentativa de se suicidar. Ă-lhe diagnosticado um edema pulmonar e Florbela decide que terĂĄ ĂȘxito na tentativa seguinte de suicĂdio: acontece no dia do seu aniversĂĄrio, a 8 de dezembro de 1930, com uma overdose de barbitĂșricos. Mais prosa, poesia e vĂĄrias coletĂąneas seriam publicadas depois da sua morte.
A sua vida inspirou um filme de Vicente do Ă com Dalila do Carmo, Ivo Canelas, Albano JerĂłnimo, Anabela Teixeira e AntĂłnio Fonseca, lançado em 2012 e que passou na RTP como minissĂ©rie. Antes, em 1978, jĂĄ a RTP apresentara um programa sobre o seu percurso na sĂ©rie "As Palavras Herdadas". A poesia de Florbela Espanca estĂĄ tambĂ©m disseminada pela mĂșsica de nomes como Trovante, Mariza, Nicole Borguer ou Fagner.
Florbela Espanca foi tema de leitura aqui no blog logo a 2 de abril de 2020 com a leitura de "Ser Poeta", incluĂdo no livro "Charneca em Flor".
Editora Martin Claret
"Se passar do dia dos meus anos morrerei de velha", terĂĄ Florbela afirmado a uma amiga prĂłxima, pouco antes de se suicidar.
Eis como Alexandra Jacob resume o seu percurso de vida: "O ano 74, Outubro, cheguei, engatinhei e em passinhos caminho até hoje. Piracicabana, bacharel em Direito, estou com amigos em trabalhos no Salão de Arte Contemporùnea da cidade. Curadora, compositora, eis o que hå para saber, o amor às letras me trouxe aqui."
