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  • Paulo Jorge Pereira

Joaquim Semeano lê "Mulheres de Cinza", de Mia Couto

Primeira parte de uma trilogia intitulada "As Areias do Imperador", o livro "Mulheres de Cinza", do escritor moçambicano Mia Couto, é a escolha de Joaquim Semeano, escritor que foi premiado em 2011 pelo seu livro de literatura infantil "Era uma Vez um Nariz".



A trilogia "As Areias do Imperador" inspira-se em figuras e acontecimentos reais para recuperar histórias dos últimos tempos de Ngungunhane (ou Gungunhana para os portugueses), derradeiro imperador a governar metade de Moçambique no designado Estado de Gaza. Foi derrotado e capturado em 1895 por um destacamento sob liderança de Mouzinho de Albuquerque e deportado para os Açores, onde morreu em 1906. Embora tenha sido feita em 1985 a transladação para Moçambique, na história que conta Mia Couto recorre à metáfora de que afinal o que lá chegou foi areia. Como explicou em entrevista ao Diário de Notícias, quando apresentou "Mulheres de Cinza" em Óbidos a meio de outubro de 2015, "há leituras diversas e sem unanimidade dessa situação. Não faço a defesa do que realmente veio dentro da urna, parece que seriam ossadas de outra pessoa, porque o valor disso é só simbólico. Para mim, o importante é o lado metafórico de que o que volta já não é senão a própria terra".



"O que nos deram foi um passado, um passado como uma roupa que devemos usar, que devemos vestir... Esse passado é uma construção, é uma ficção autorizada - o que poderia não ser mau se fosse sedutor, se fosse plural, se desse conta daquilo que nós somos como gente tão diversa", refere Mia Couto num depoimento público difundido pela Companhia das Letras. "Mas o que acontece é que esse passado é feito com uma única versão: a versão dos que mandam, dos que mandaram, dos que têm poder, e que eliminaram, que fizeram esquecer outras versões, outras cores, outros passados", diz. E o que pretende o escritor com a obra? "O que eu quero neste livro é colocar, numa mesma cama, num mesmo leito, esses diversos tempos, de maneira que ali possa caber o tempo plural e diverso que devemos ter. Por que razão é isso importante? Porque acho que o facto de aceitarmos que temos em paralelo e ao mesmo nível essas versões diferentes do passado, isso nos encoraja a ter um presente que é outro, nos encoraja a sonhar com o futuro que tem de ser realmente muito outro", acrescenta.

"Depois deste "Mulheres de Cinza", o escritor dá continuidade ao tema em "A Espada e a Azagaia" e encerra na obra "O Bebedor de Horizontes", altura em que os presos são conduzidos ao exílio.





Mia Couto já teve excertos de outras obras suas lidos aqui no blog: primeiro foi "Terra Sonâmbula", a 14 de abril; depois foi a vez de "O Universo num Grão de Areia", a 28 desse mês.


Editorial Caminho


"A diferença entre a Guerra e a Paz é a seguinte: na Guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na Paz os pobres são os primeiros a morrer. Para nós, mulheres, há ainda uma outra diferença: na Guerra, passamos a ser violadas por quem não conhecemos", escreve Mia Couto em "Mulheres de Cinza".

Joaquim Semeano foi jornalista durante 30 anos, primeiro no jornal Record e depois na revista Super Interessante. Escritor, venceu em 2011 o prémio literário Maria Rosa Colaço, com o livro infantil "Era Uma Vez Um Nariz". Atualmente é formador de escrita criativa, com colaborações na escola Escrever Escrever e na Universidade Popular de Almada.

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