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  • Paulo Jorge Pereira

"O Paciente Inglês", de Michael Ondaatje

Foi a obra que mudou a vida do escritor Michael Ondaatje, nascido no Sri Lanka: "O Paciente Inglês", que muitos conhecem da aclamada adaptação cinematográfica distinguida com nove Óscares em 1996 e teve interpretações de Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Willem Dafoe, Juliette Binoche e Colin Firth, é a proposta de hoje. Mas sob a forma de livro que recebeu, em igualdade, o Booker Prize de 1992.



Uma história de paixão transformada em tragédia pela guerra, um homem descoberto no deserto com graves queimaduras cujo passado está envolto em mistério e o relato que nos vai sendo feito para descobrirmos, afinal, toda a verdade: "O Paciente Inglês", escrito por Michael Ondaatje, encantou milhões pelo mundo fora em meados dos anos 90. Havia, claro, muitos que já conheciam o livro, distinguido com o Booker Prize de 1992, em igualdade com "Sacred Hunger", de Barry Unsworth. Mas o filme que arrebatou Hollywood e juntou nove Óscares, em 1996, despertou ainda maiores apetites pela obra literária e multiplicou o interesse, acabando por catapultá-lo para uma fama que teve momentos de incómodo. No grande ecrã, a obra viveu principalmente das interpretações do par Ralph Fiennes-Kristin Scott Thomas, bem acompanhados por Juliette Binoche e Willem Dafoe, com a realização de Anthony Minghella (recebeu uma das nove estatuetas, escrevendo o argumento e realizando ainda outros filmes notáveis, como "O Talentoso Mr. Ripley" ou "Cold Mountain", além de participar na escrita e produzir "O Leitor", antes de morrer em 2008).

Mas a origem de todo este entusiasmo vem do trabalho literário de um homem que nasceu no Sri Lanka a 12 de setembro de 1943, foi viver para Inglaterra (1954), viajando sozinho de barco para ir ter com a mãe, Doris, que se divorciara do pai, Mervyn, cinco anos antes. "Quando desembarquei, ouvi uma voz de mulher que parecia estar com medo de se enganar a gritar o meu nome. Virei-me e não vi alguém que eu conhecesse. Foi então que uma mulher disse o meu nome, colocou-me a mão num dos meus ombros e, ao ver o seu rosto, soube que era o rosto da minha mãe", recordou em entrevista ao jornal The Guardian em 2011. A mãe iria trabalhar em hotéis até à morte para pagar a educação dos quatro filhos, enquanto o pai morreria alcoólico em Colombo, capital do Sri Lanka.

Estudou em Dulwich, um colégio privado inglês, mas, como o irmão Christopher se fixara no Canadá, Michael seguiu caminho idêntico em 1962. Com formação superior em Toronto e na Queen's University de Ontário, Ondaatje conheceria o seu caminho através dos conselhos de um professor com quem se cruzou na Bishop's University do Quebeque, Arthur Motyer. "Dava aulas de teatro e poesia e, ao ver-me em dificuldades para decorar até os papéis mais curtos, convidou-me a escrever mais e a atuar menos", contou Ondaatje à imprensa canadiana por ocasião da morte de Motyer em 2011. Entretanto, ainda antes de completar 20 anos, Michael casou-se com a canadiana Kim e teriam dois filhos, mas o divórcio não tardaria...

O futuro escritor de sucesso começou por levar mais a sério um papel como docente na York University em 1971, dois anos após a primeira aventura poética em livro ("The Man with Seven Toes"), mas não iria resistir ao apelo de uma conjugação de universos: da poesia, dos contos, da ficção e da não-ficção, em resumo, da Literatura. Voltou a publicar poesia com "The Dainty Monsters" (1974). Mas, depois, apostou na prosa com "Coming Through Slaughter" (1976). São dos anos 80 os seus primeiros trabalhos com algum êxito: "The Collected Works of Billy the Kid: Left Handed Poems" (1981), que foi elogiado e premiado, e "The Cinnamon Peeler: Selected Poems (1989). Pelo meio, uma espécie de livro de memórias saiu em 1983 sob o título "Running in the Family" e um romance: "In the Skin of a Lion" (1987). Quando regressou à prosa, escreveu o livro que lhe assegurou o sucesso e de que aqui se apresenta um excerto, "O Paciente Inglês" (1992).

Iriam decorrer oito anos até voltar a publicar: o livro chamou-se "Anil's Ghost" e contava a história de uma antropóloga no Sri Lanka a investigar crimes de guerra em nome de uma organização internacional de defesa dos Direitos Humanos. Seguiram-se "Divisadero" (2007), "The Cat's Table" (2011) e "Warlight" (2018). Deste último ano é a votação que escolheu "O Paciente Inglês" como o melhor livro vencedor do Booker Prize, por ocasião dos 50 anos do prémio, num inquérito a que se chamou o Golden Booker Prize. "Não acredito nem por um segundo que este é o melhor livro da lista, em especial quando nessa lista está um trabalho de VS Naipaul, um dos grandes mestres do nosso tempo, ou uma obra grandiosa como 'Wolf Hall [de Hilary Mantel]", confessou o autor nessa altura ao diário The Guardian. "Suspeito e sei, mais do que qualquer outra pessoa, que 'O Paciente Inglês' ainda é um livro nebuloso e com erros de ritmo", acrescentou.


Edições D. Quixote/Tradução de Ana Luísa Faria


Em 2018, o livro de Ondaatje foi votado como o melhor livro no Golden Booker Prize, iniciativa que visava assinalar os 50 anos do galardão, ou seja, o Booker dos Bookers. Nas edições anteriores do inquérito, realizadas nos 25 e nos 40 anos do prémio, ganhou o mesmo livro: "Os Filhos da Meia-Noite", de Salman Rushdie.

Ondaatje vive em Toronto com a mulher Linda Spalding e juntos editam o jornal literário Brick.

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