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  • Paulo Jorge Pereira

Teresa Guerreiro lê "A Verdadeira Mão", de Ana Hatherly

Não foi apenas na poesia que Ana Hatherly se destacou - o seu vasto trabalho estende-se às artes visuais (pintura, desenho, cinema) e à docência universitária. Aqui, com outro exemplo do projeto "Leituras contra a Pandemia", surge o poema "A Verdadeira Mão", do livro "O Pavão Negro".



O poema que hoje é aqui lido pela Professora Teresa Guerreiro integra a obra intitulada "O Pavão Negro". Mas, mais do que tudo o resto, era à música que Ana Hatherly pretendia dedicar-se. Contudo, "um problema de saúde" não lho permitiu, conforme confessou em entrevista a Ana Sousa Dias na RTP em 2004, no programa "Por Outro Lado". "Tentei ser cantora lírica. Quando estava numa fase relativamente adiantada fui para a Alemanha para me especializar em música barroca. Ia recomendada, fui ter com um maestro muito conhecido que já morreu, ele pediu-me que cantasse alguma coisa, eu cantei e ele disse: 'Tem tudo menos corpo.' Eu era muito magrinha, era soprano muito agudo, mas ele disse que não tinha estrutura para aguentar. Insisti e, ao fim de alguns meses nas aulas particulares, fui direta para o sanatório na Suíça com perfuração num pulmão", recordou.

A música voltava-lhe as costas, mas as artes não o fariam. Hatherly passou um ano no sanatório numa estância de esqui, local com ressonâncias na Literatura: da janela do seu quarto via a casa onde vivera a contista neozelandesa Katherine Mansfield e era a terra onde Paul Célan passara férias. Vendo-a desolada por não ter possibilidades de fazer carreira musical, o médico que a tratara ofereceu-lhe uma Parker de tinta permanente e alento para que não deixasse de tentar outras vias nas artes. "A criatividade é como um prego num saco - encontra sempre saída para a ponta. Se tem alguma capacidade criadora, experimente escrever. É bem mais descansado do que cantar", disse-lhe. Aceitou o conselho do psicólogo e a Cultura ficou a ganhar.

Ana Hatherly nascera no Porto, a 8 de maio de 1929. Perdeu os pais ainda muito jovem e ficou entregue aos cuidados da avó materna, "uma pessoa extraordinária e muito católica". Admite que a avó lhe contava muitas histórias e que, quando escreveu a obra "351 Tisanas", "poemas em prosa ou semi-fábulas, talvez ela tenha ressuscitado um pouco nesse meu método de contar". Outra influência da avó foi a sua paixão pelo cinema, as frequentes visitas ao Rivoli e o facto de o seu filme favorito ser "O Homem Invisível". "Povoou a minha infância de terror numa casa antiga em que o chão rangia e as portas chiavam", lembrou a rir na conversa com a jornalista. Recebeu uma educação "muito severa, num ambiente tradicional", que incluía presença regular na Capela das Almas, na rua de Santa Catarina. Desses contactos com o barroco resultou a sua paixão pelo estilo em que iria especializar-se quando se tratou de fazer investigação universitária. Depois do abalo que foi a perda de uma carreira musical, em 1958 publicou o primeiro livro, "Um Ritmo Perdido", ao qual se seguiram "As Aparências" e "A Dama e o Cavaleiro". "Com os primeiros três livros não acreditei muito que fosse algo capaz de compensar por aquela perda que considerava irreparável", contou a Ana Sousa Dias. Na década de 60 adere ao movimento da Poesia Experimental com António Aragão, Herberto Helder, Melo e Castro, Salette Tavares, entre outros, tornando-se uma figura da vanguarda literária até aos anos 80. "Encontrei aí a minha saída para a revolta, raiva e indignação que sentia com coisas que se tinham passado na minha vida e estavam a passar-se no país", lembrou na entrevista citada. Entretanto, trabalhava também na representação visual da escrita, em pintura e desenho, fazendo diversas exposições em Portugal e fora do país. Durante décadas vai estudar a caligrafia chinesa, mostrando que "a escrita ocidental é tão bela como a oriental" e que era necessário "as pessoas deixarem de ler para poderem ver". No fundo, mostrou "a escrita e não o escrito, a representação visual e não a semântica", conforme apresentou em "Mapas da Imaginação e da Memória".

Licenciada em Filologia Germânica, oferece a si própria um curso de cinema na London Film School com especialização em Animação. Passa por Lisboa a caminho do Egipto na véspera do 25 de Abril e fica, só muito mais tarde cumprindo o projeto de visitar o país africano. Graças à oferta de uma câmara Super 8 por parte de uma amiga italiana, sai à rua para imortalizar em filme os cartazes e as pinturas que pululavam por Lisboa no período após a Revolução. "Filmava e arrancava algumas das coisas para fazer depois um trabalho de montagem que está no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian [nove painéis com o título "Descolagens"], mas fui muitas vezes agredida porque as pessoas pensavam que eu era contra aquilo que estava nos cartazes", recordou. Em 1976, o filme que dali resultou, intitulado "Revolução", é exibido na Bienal de Veneza. De súbito viu-se sem dinheiro, teve de vender a casa e tudo o que tinha para sobreviver até dispor de trabalho. Entre 1977 e 1979 inova na RTP, apresentando em direto o programa "Obrigatório Não Ver", sempre à meia-noite.

Em 1980 candidata-se a um lugar de professora nos Estados Unidos, recebendo um convite da Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde aproveitaria para se doutorar em Literaturas Hispânicas. Era assistente, ensinava Português e, com o salário de professora, pagava os 10 mil dólares correspondentes às propinas. Faz algumas traduções, sobretudo de poesia, de que é exemplo parte da obra de Rilke. E continua a escrever - num intervalo de 30 anos, publica quase três dezenas de livros de entre poesia e prosa, recebendo diversos prémios. No ramo do ensino, passa também pela Escola Superior de Cinema e no AR.CO lisboeta. Mais tarde chega a integrar a direção da Associação Portuguesa de Escritores e ajuda a criar o PEN Clube, passando mesmo pela sua presidência. Professora catedrática no departamento de Literatura Portuguesa da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova, ali ajudou a criar e presidiu ao Instituto de Estudos Portugueses.

Morreu a 5 de agosto de 2015 com 86 anos.


Moraes Editores


A obra literária de Ana Hatherly foi assunto aqui em estreia a 31 de maio de 2020 quando Inês Henriques leu um excerto de "351 Tisanas". A 23 de janeiro de 2022, Agostinho Costa Sousa apresentou "Esta Gente/Essa Gente".

A Professora Teresa Guerreiro regressa a este espaço depois do exemplo do projeto "Leituras contra a Pandemia" que aqui deixou no Especial Centenário de José Saramago, a 16 de novembro, da leitura do passado dia 2: "Havia", de Joana Bértholo, mas também do poema "E Ao Anoitecer", de Al Berto, aqui lido no dia 11.

Como se explica no arquivo dedicado ao referido plano, trata-se de um conjunto de "histórias e poemas lidos e ditos por alunos, professores, pais/encarregados de educação, escritores e amigos das bibliotecas escolares do Agrupamento de Escolas n.º 3 de Elvas durante os confinamentos devido à pandemia de covid-19 (2019/20 e 2020/21)".

Segundo refere a própria Professora Teresa Guerreiro, "os projetos nasceram da necessidade de, em contexto de pandemia e confinamento, levar até à comunidade escolar textos, prosa e poemas, literários, como forma de vencer a tristeza e o afastamento". E descreve as fases diferentes: "Teve dois momentos: o primeiro, 'Histórias contra a pandemia'; e o segundo, 'Um Poema por Dia para Combater a Pandemia'. Além das minhas leituras, participaram alunos, professores, encarregados de educação, amigos e alguns escritores, no segundo momento. O Ministro da Educação, João Costa, também participou."

A primeira leitura deste projeto apresentada no blog pertenceu a Cláudia Marçal e foi divulgada no passado dia 1 de novembro - "Então, Queres ser Escritor?", de Charles Bukowski. Uma outra leitura de Cláudia Marçal também já por aqui passou a 26 de novembro: "Erva Daninha", de Jorge de Sousa Braga.

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