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  • Paulo Jorge Pereira

"Afirma Pereira", de Antonio Tabucchi

Um livro que também não escapou ao cinema, "Afirma Pereira", do multipremiado autor italiano Antonio Tabucchi, que se apaixonou pela Literatura portuguesa e por Portugal, é a proposta de leitura para hoje.



Foi por causa de Fernando Pessoa e da sua obra que Antonio Tabucchi começou por ficar extasiado com Portugal. Nascido em Pisa, a 24 de setembro de 1943, em plena II Guerra Mundial, Antonio Tabucchi seria criado pelos avós maternos na aldeia de Vecchiano. Com os estudos universitários iria tornar-se viajante frequente um pouco por toda a Europa e, em França, foi surpreendido pelo poema "Tabacaria", de Álvaro de Campos, desenvolvendo um interesse especial pela obra pessoana, da qual seria tradutor, e por Portugal. Atreveu-se a uma aventura até solo português num Fiat 500 e conheceu logo o poeta Alexandre O'Neill, com quem construiu sólida amizade. Estudaria Literatura Portuguesa na Universidade de Siena e apresentaria mesmo a tese "O Surrealismo em Portugal" para se licenciar em 1969. Foi investigador na Escola Normal de Pisa e docente de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Bolonha, casando-se com a professora portuguesa Maria de Lancastre, descendente de aristocratas, com quem teve um filho (Miguel) e uma filha (Teresa).

"Piazza d'Italia", escrito em 1973 e com publicação dois anos mais tarde, foi a sua primeira proposta literária entre as cerca de três dezenas que publicou. Já era docente da Universidade de Génova quando publicou a obra seguinte, "Il Piccolo Naviglio" (1978), antecedendo "Il Gioco del Rovescio e Altri Racconti" (1981) e "Donna di Porto Pim" (1983). Prosseguiu a sua carreira como escritor e professor ao mesmo tempo que ganhava admiração em Portugal ao ponto de ser condecorado, em 1989, pelo Presidente da República, Mário Soares, devido aos serviços prestados à Cultura do país (pouco depois seria também distinguido em França). Em 1992 estreia-se a publicar em português com o livro "Requiem" e, dois anos mais tarde, escreve "Afirma Pereira", pelo qual irá receber vários prémios.

Embora "Noturno Indiano" fosse adaptado ao grande ecrã primeiro, em 1989, por Alain Corneau, "Afirma Pereira", de que aqui se apresenta a leitura de um excerto, é a sua obra mais conhecida e teve também adaptação cinematográfica em 1995: foi realizado por Roberto Faenza e o elenco, liderado por Marcello Mastroianni, contou ainda com nomes como Daniel Auteil, Nicoletta Braschi, Nicolau Breyner, Joaquim de Almeida, entre outros. Ouvido pela reportagem do jornal Folha de São Paulo, que veio à capital portuguesa acompanhar a rodagem, Tabucchi admitiu que "não poderia haver melhor Pereira do que Mastroianni", ainda que "talvez o Pereira do livro fosse um pouco mais gordo, mas ambos, além de introspetivos, têm uma certa ironia e melancolia para com a vida". Na altura, a história de um jornalista que, aos 70 anos, ganha consciência política no Portugal do final dos anos 30, já asfixiado pela ditadura de Salazar, era apontada como um alerta para as ameaças que se adivinhavam, mas, pelo rumo que a Europa e o Mundo seguiram, de pouco valeu. E mesmo uma parte de Portugal nada aprendeu com a mensagem transmitida pela película.

Não deixa a sua carreira de professor universitário, passando metade do ano em Itália a ensinar Literatura Portuguesa na Universidade de Siena e os restantes seis meses em Portugal. Continua a escrever e a publicar: "A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro" (1997) ou "La Gastrite di Platone" (1998). Chega a ser candidato ao Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda (2004) e escreve mais: "Racconti" (2005), "L'Oca al Passo" (2006), "O Tempo Envelhece Depressa" (2009), "Viaggi e Altri Viaggi" (2010), "Racconti con Figure" (2011).


Público (Coleção Mil Folhas)/Tradução de José Lima


Durante as filmagens de "Afirma Pereira" em Lisboa, Marcello Mastroianni confessou ao jornal Folha de São Paulo: "Estou velho e estou gordo, mas rejuvenesço quando faço cinema." Foi uma das suas últimas presenças no grande ecrã - morreria a 19 de dezembro de 1996.

Vítima de cancro, Antonio Tabucchi morreu aos 68 anos, no hospital da Cruz Vermelha em Lisboa, a 25 de março de 2012.

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