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  • Paulo Jorge Pereira

Especial 10 de Junho com "Portugal", de Alexandre O'Neill

Genial poeta que brincou com as palavras como se fossem feitas de propósito para ele, genial publicitário que criou frases simples tornadas inesquecíveis, antifascista convicto, Alexandre O'Neill dedicou ao país um olhar arguto, mordaz e invulgarmente conhecedor das fraquezas e forças que o caracterizam. Muitas vezes o retratou das mais variadas formas na sua escrita - no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, nada melhor do que ouvir a maravilhosa poesia de O'Neill.



"Não posso considerar-me, como tanta gente me considera, um poeta satírico. Escrevo poemas como quem pratica esconjuros - é para me livrar, não para satirizar à distância": estas frases, ditas pelo próprio Alexandre O'Neill em imagens de arquivo da RTP que foram recuperadas para o programa "Palavras Vivas", de Mário Viegas, exibido a 16 de março de 1991, sintetizam o trabalho poético do genial autor que utilizava as palavras como se estas fossem truques mágicos. Em 1982, a propósito da publicação da sua obra em "Poesias Completas", O'Neill conversou com o jornalista e escritor Fernando Assis Pacheco e a entrevista - "feita com duas máquinas de escrever: o repórter do JL batia a pergunta, tirava a folha, estendia-a ao entrevistado, este batia a resposta, perguntava 'está bem?', o repórter respondia 'está, claro', e assim por diante -, publicada no Jornal de Letras, descrevia a relação que o poeta tinha com o país: "Sempre sofri Portugal, tanto no sentido de não o suportar (como todos nós, aliás), como no sentido de o amar-sem-esperança (como disse um parnasiano qualquer: amar sem esperança é o verdadeiro amor…). Eu tive a grande alegria de ver poemas meus completamente desatualizados depois do 25 de Abril. Mas afinal não estavam nada desatualizados, não. Como se pode ver. Quer dizer – o que é um péssimo sinal relativamente à minha capacidade para vaticinar – que a realidade fez de mim, novamente, um poeta atual. Até no fantasma do tempo a que você se refere. Espero que isto um dia acabe e eu fique bem desatualizado e para todo o sempre." Mas não, O'Neill continua muito atual e, dado o país que (ainda) temos, não é de prever que alguma vez se desatualize...

Com ascendência irlandesa, Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu em Lisboa a 19 de dezembro de 1924. Completa os seus estudos e entra na Escola Náutica (curso de pilotagem), mas, por influência da miopia, é-lhe recusada a cédula marítima após o primeiro ano. Em 1948, ao lado de nomes como Mário Cesariny, José-Augusto França, António Pedro e Vespeira funda o Grupo Surrealista de Lisboa, do qual se afasta no começo dos anos 50. Ao longo do tempo irá desenvolver diferentes atividades além da escrita, trabalhando em áreas como a dos seguros, Previdência, publicidade e nas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Ficariam famosas frases como as que criou para o Instituto de Socorros a Náufragos ("Há mar e mar, Há ir e voltar") ou "Bosh é Brom" que acabaria por ser "Bosh é Bom". Sobre o seu trabalho publicitário, que lhe rendia o dinheiro não conseguido com as vendas dos livros, também falou na citada entrevista a Assis Pacheco em 1982: "Ser copywriter é uma atividade engraçada pelo lado da invenção de slogans, por exemplo. Só é chata quando o cliente não percebe as nossas intenções e acha que está tudo mal", explicou. E contou como era a convivência de linguagens diferentes: "O jeito para o jogo de palavras, trocadilhos, etc., vive comigo há muito tempo e tem-me prejudicado razoavelmente na poesia, embora agora já esteja melhorzinho." Além disso, fez referência a um episódio dos tempos da ditadura: "Descobri a publicidade através do cinema publicitário. Propus uma vez a alguém (por brincadeira, claro) que oferecesse um slogan ao Metropolitano de Lisboa. O slogan era: 'Vá de metro, Satanás!' Esta brincadeira ia-me custando o emprego."

Pelo meio, estreara-se a publicar com o livro "Tempo de Fantasmas" (1951), usando uma linguagem que irá ser imagem de marca: rica em jogos de palavras e no sentido de humor, mas também carregada de metáforas e palavras inventadas pelo próprio O'Neill. Contestatário da ditadura salazarista, é preso pela PIDE durante mais de um mês em 1953. Casa-se em 1957 com Noémia Delgado, de quem terá o primeiro filho, Alexandre, dois anos depois. "No Reino da Dinamarca" data de 1958, seguindo-se "Abandono Vigiado" (1960), "Poemas com Endereço" (1962) e "Feira Cabisbaixa" (1965). Em 1966, a tradução de um livro de poemas seu é publicada em Turim sob o título "Portogallo mio remorso". No ano seguinte, as letras das canções no filme policial "Sete Balas para Selma", realizado por António de Macedo, são escritas pelo poeta. Convive com Miguel Torga, Vasco Graça Moura, Pedro Tamen, Alberto Pimenta, Eugénio de Andrade, entre outros. Publica "De Ombro na Ombreira" (1969), prosa com "As Andorinhas não têm Restaurante" (1970), Amália Rodrigues canta o seu poema "Gaivota" com música de Alan Oulman (também em 1970), divorcia-se em 1971 de Noémia e no mesmo ano casa-se pela segunda vez, neste caso com Teresa Patrício Gouveia, de quem terá o segundo filho, Afonso, em 1976. Mas a união não se prolonga por mais de dois anos. De 1972 é "Entre a Cortina e a Vidraça". Deixa gravado um disco: "Alexandre O'Neill diz Poemas de sua Autoria".

Continua a escrever e a publicar, apesar de um problema cardíaco que o obriga a passar pelo hospital de Santa Maria. No diálogo com Assis Pacheco, de 1982, aborda o assunto com a habitual ironia: "Quando se está com panne cardíaca o universo mingua e um sujeito 'desliga'. Passa para a categoria de 'bom doente' para ver se salva o canastro, mas não tem propriamente medo. Só tem medo que se enganem nos remédios e lhe enfiem os que são para algum vizinho… De resto, nada mais, a não ser que, quando se volta a casa, se sente tudo fora do sítio e não se acredita que o canastro volte à normalidade. Nem com um jornal na mão se pode andar. Nem se pode caminhar contra o vento." O corpo deixara um aviso. Seguem-se "A Saca de Orelhas" (1979), crónicas em "Uma Coisa em Forma de Assim" (1980), "As Horas já de Números Vestidas" (1981), "Dezanove Poemas" (1983), "Poesias Completas, 1951-1983" (1984), "O Princípio da Utopia" (1986).


O poema "Portugal" fez parte do livro "Feira Cabisbaixa" (1965). Neste caso foi lido a partir da obra "Poesias Completas 1951-1986", editado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda

"Há palavras que nos beijam/Como se tivessem boca/Palavras de amor, de esperança/De imenso amor, de esperança louca/ Palavras nuas que beijas/Quando a noite perde o rosto/Palavras que se recusam/Aos muros do teu desgosto/ De repente coloridas/Entre palavras sem cor/Esperadas, inesperadas/Como a poesia ou o amor (O nome de quem se ama/Letra a letra revelado/No mármore distraído/No papel abandonado)/ Palavras que nos transportam/Aonde a noite é mais forte/Ao silêncio dos amantes/Abraçados contra a morte": o poema "Há Palavras que nos Beijam" está no livro "Reino da Dinamarca" e tornou-se um fado de Mariza.

De súbito, a 21 de agosto de 1986, o poeta morreu. Murchou o riso, a rosa, o rumo. E o verão tornou-se frio, escuro e sem graça. A título póstumo ainda chega a antologia "Tomai lá do O'Neill", mas a imaginação ficou para sempre viúva.

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