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  • Paulo Jorge Pereira

Inês Henriques lê "A Disciplina do Amor", de Lygia Fagundes Telles

Considerada uma das mais marcantes escritoras do século XX, a brasileira Lygia Fagundes Telles é autora de uma vasta e multipremiada obra. Prémio Camões em 2005, os seus livros são de uma atualidade por vezes assustadora, conforme sucede com "A Disciplina do Amor", aqui apresentado por Inês Henriques.



"Eu descobri que este é o meu melhor livro", confessou a própria escritora numa entrevista ao Estadão, falando a propósito da reedição da obra "A Disciplina do Amor". Nascida em São Paulo a 19 de abril de 1923, filha do advogado, procurador e promotor público Durval de Azevedo Fagundes e da pianista Maria do Rosário (conhecida como Zazita), Lygia viveu parte da infância em localidades do interior do estado - Apiaí, Assis, Iatinga e Sertãozinho -, mas entre os oito e os 13 anos esteve no Rio de Janeiro com a mãe, uma vez que os pais passaram a viver separados, embora não se divorciassem. Em 1936 voltaram para São Paulo onde a futura escritora completaria os estudos. Amiga dos escritores Carlos Drummond de Andrade e Érico Veríssimo, foi encorajada a alimentar a paixão pela escrita e publicou aos 15 anos o seu primeiro livro, "Porão e Sobrado", com apoio do pai. Procurou integrar-se na cena literária e publicou em jornais ao mesmo tempo que continuava a estudar. Ao entrar na Faculdade, em 1941, numa altura em que já escrevia contos e afirmava cada vez mais a vontade de dedicar-se à escrita, uma profissão associada aos homens, enfrenta preconceitos por estar em minoria num universo masculino, como contou à Revista Brasileira de Psicanálise: "Éramos cinco ou seis mocinhas na turma de quase duzentos rapazes e que nos perguntavam com irónico espanto: 'O que vocês vieram fazer aqui? Casar?' No mesmo tom bem-humorado respondi: 'Casar também.'", lembrou. E acrescentou: "A solução era assumir a luta, sair da condição de mulher-goiabada, a mulher caseira, antiga 'rainha do lar' que sabe fazer a melhor goiabada no tacho de cobre", explicou, recordando como a mãe e as tias foram também vítimas dos preconceitos das suas épocas. Iria licenciar-se em Direito, além de passar pela Escola Superior de Educação Física da Universidade de São Paulo.

Romances e contos, contos e romances - Lygia Fagundes ia escrevendo e alternando entre os dois géneros, embora considerasse o conto "uma forma arrebatadora de sedução", no qual é imperioso "seduzir o leitor em tempo mínimo". Em 1947, já depois de publicar o segundo livro, "Praia Viva", casou-se com Gofredo Teles Júnior, que fora seu professor universitário, mudando-se para o Rio de Janeiro, onde a escritora colaborou com o jornal "A Manhã", depois de trabalhar para a Secretaria de Agricultura. Entre os anos 40 e o começo dos 70, período em que foi mãe e se separou de Gofredo, iria escrever e publicar meia dúzia de livros de contos e três romances, destacando-se neste caso "Ciranda de Pedra" (1954) e os contos de "Antes do Baile Verde" (1970) - "Ciranda de Pedra" seria telenovela no começo dos anos 80 e com uma nova produção em 2008. Ganhou prémios e notoriedade logo a partir de 1960, enquanto exercia advocacia no Instituto de Providência em São Paulo. Com o divórcio proibido, Lygia juntou-se em 1963 a Paulo Teles Sales Gomes (historiador, professor, crítico de cinema, ensaísta e ativista político com quem viveria até à sua morte em 1977), de imediato levando a uma onda de escândalo em seu redor. Ainda nesse ano, Lygia começaria também o romance "As Meninas", em que se aborda a opressão imposta pela ditadura militar no Brasil (e que só terá publicação em 1973), sendo distinguido com vários galardões. A escritora e o companheiro permaneceram indiferentes à polémica que se criara por estarem juntos e, em 1968, escreveram "Capitu" para o grande ecrã, inspirando-se na obra "Dom Casmurro", de Machado de Assis.

Não deixa de escrever contos e, em 1976, integra o grupo que dá a cara em Brasília pelo "Manifesto dos Intelectuais", documento de contestação e denúncia da dureza da repressão e censura exercidas pela ditadura. Perde Paulo Teles devido a ataque cardíaco e assume a direção da Cinemateca Brasileira que ele ajudara a fundar. Continua a escrever e a colecionar distinções: "Seminário dos Ratos", "A Disciplina do Amor" e "As Horas Nuas" são apenas alguns exemplos. Em 1985 é escolhida para a Academia Brasileira de Letras, entrando nas décadas seguintes com mais obras e galardões: "A Noite Escura e Mais Eu" (1995), "Invenção e Memória" (2000), "Durante Aquele Estranho Chá" (2002) e "Conspiração de Nuvens" (2007). Face à dimensão e importância do seu trabalho literário, Lygia é agraciada com o Prémio Camões em 2005. Quatro anos mais tarde, a editora Companhia das Letras procede à reedição das obras completas de Lygia Fagundes Telles, as quais estão traduzidas em inúmeros idiomas. Hoje, aos 97 anos, Lygia é uma das autoras vivas com mais prestígio dentro e fora do universo lusófono.

Companhia das Letras

"O escritor pode ser louco, mas não enlouquece o leitor, ao contrário, pode até desviá-lo da loucura. O escritor pode ser corrompido, mas não corrompe. Pode ser solitário e triste e ainda assim vai alimentar o sonho daquele que está na solidão", escreve Lygia Fagundes Telles em "A Disciplina do Amor".

Inês Henriques participa pela segunda vez aqui no blog, depois da leitura de um excerto de "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector, no passado dia 27 de abril.

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