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Isabela Cristina lĂȘ "Vidas Secas", de Graciliano Ramos

  • Paulo Jorge Pereira
  • Aug 2, 2020
  • 4 min read

A professora Isabela Cristina escolhe um trecho de "Vidas Secas", uma das principais obras de Graciliano Ramos, como proposta de leitura para hoje.



Mais velho de 16 filhos do casal formado por SebastiĂŁo Ramos de Oliveira e Maria AmĂ©lia Ferro Ramos, Graciliano Ramos, um dos grandes romancistas brasileiros, nasceu a 27 de outubro de 1892 na localidade de Quebrangulo, no Estado brasileiro de Alagoas, em pleno sertĂŁo. Parte da infĂąncia foi passada entre as cidades de Viçosa, Palmeira dos Índios e BuĂ­que, ficando tambĂ©m esse perĂ­odo assinalado pelos maus-tratos de que foi vĂ­tima por parte do pai - no livro e memĂłrias que irĂĄ escrever alguns anos mais tarde, intitulado "InfĂąncia", deixa uma descrição dos pais: ele era "um homem sĂ©rio, de testa larga (...), dentes fortes, queixo rijo, fala tremenda"; ela era "uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza (...), olhos maus que em momentos de cĂłlera se inflamavam com um brilho de loucura". Em 1904 jĂĄ o pequeno Graciliano criava um jornal para crianças em Viçosa, intitulado DilĂșculo ao qual se seguiu o Echo Viçosense. Dois anos mais tarde estĂĄ, sob o pseudĂłnimo de Feliciano de Olivença, a publicar sonetos na revista O Malho, do Rio de Janeiro, na qual irĂĄ participar atĂ© 1915. Segue-se colaboração com o Jornal de Alagoas, em MaceiĂł, que irĂĄ durar atĂ© 1913 com recurso a diversos pseudĂłnimos como Soares de Almeida Cunha, Lambda ou Soeiro Lobato. Pelo meio, em 1911, desenvolve colaboração com o Correio de MaceiĂł.

É o barco a vapor ItassoĂȘ que o transporta rumo ao Rio de Janeiro em 1914. Ali serĂĄ revisor de provas de tipografia nos jornais Correio da ManhĂŁ, A Tarde ou O SĂ©culo. NĂŁo deixa, no entanto, colaboraçÔes com outras publicaçÔes e escreve, sob o pseudĂłnimo de Ramos de Oliveira, assinando apenas com as iniciais, no Jornal de Alagoas e no ParaĂ­ba do Sul. Quando regressa a Palmeira dos Índios, em 1915, Ă© por motivos funestos, uma vez que perde trĂȘs irmĂŁos e um sobrinho por ação da peste bubĂłnica. Mais tarde, casa-se com Maria Augusta Ramos. TerĂŁo quatro filhos, mas a mulher acaba por morrer de forma prematura em 1920.

SerĂĄ eleito prefeito em Palmeira dos Índios e, a partir de 1928, ano em que volta a casar-se, desta vez com HeloĂ­sa Medeiros, exerce as funçÔes durante dois anos. Depois de renunciar ao cargo, muda-se para MaceiĂł e Ă© indigitado diretor da Imprensa Oficial, regressando Ă s colaboraçÔes nos jornais com o pseudĂłnimo LĂșcio Guedes. A demissĂŁo das funçÔes exercidas liberta-o para se dedicar mais Ă  escrita, a fundar uma escola e, em 1933, publica o romance de estreia, cuja elaboração iniciara em 1925: "CaetĂ©s".

O livro "SĂŁo Bernardo" Ă© de 1934, ano que assinala tambĂ©m a morte do seu pai. No inĂ­cio de 1936, em plena ditadura de GetĂșlio Vargas e com o coronel Filinto MĂŒller como lĂ­der da temida polĂ­cia polĂ­tica, Ă© preso sem acusação formada por, como militante do partido, ter alegado envolvimento na tentativa de golpe comunista do ano anterior. Vai para o Recife de onde, ao lado de mais de uma centena de detidos, viaja de barco para o Rio de Janeiro e fica detido atĂ© janeiro de 1937. Escreve "AngĂșstia" e o texto "Baleia", do qual partirĂĄ a escrita do romance "Vidas Secas" que aqui Ă© apresentado pela voz de Isabela Azevedo. O romance "AngĂșstia" evidencia-se e recebe o prĂ©mio Lima Barreto, atribuĂ­do pela Revista AcadĂ©mica.

Quando Ă© colocado em liberdade, regressa ao trabalho nos jornais, agora no Rio de Janeiro, e "A Terra dos Meninos Pelados" assegura-lhe nova distinção, desta vez dedicada a literatura infantil e vinda do prĂłprio MinistĂ©rio da Educação. "Vidas Secas" Ă© publicado em 1938 (serĂĄ tambĂ©m um filme de Nelson Pereira dos Santos em 1963), pouco antes da sua nomeação para Inspetor Federal do ensino secundĂĄrio. Vigiado pela polĂ­cia polĂ­tica, em 1945 irĂĄ filiar-se no Partido Comunista Brasileiro, frequentando meios ligados Ă  organização. Antes disso, faz trabalhos de tradução "MemĂłrias de um Negro", de Booker T. Washington), publica crĂłnicas e, em 1942, chega nova distinção: desta vez Ă© o prĂ©mio Felipe de Oliveira com a justificação de que o merece pela obra publicada. Numa experiĂȘncia inovadora, participa na escrita do romance "BrandĂŁo Entre o Mar e o Amor" com escritores como Jorge Amado, Rachel de Queiroz, JosĂ© Lins do Rego e AnĂ­bal Machado. A mĂŁe morre em 1943 e Graciliano volta aos livros infantis com "HistĂłrias de Alexandre" (1944). Do ano seguinte sĂŁo "Dois Dedos" e "InfĂąncia" e em 1947 nascem "HistĂłrias Incompletas" e "InsĂłnia". Regressa Ă  tradução em 1950 com o livro "A Peste", de Albert Camus. Presidente da Associação Brasileira de Escritores a partir de 1951 - voltarĂĄ a ser eleito em 1962 -, publica "Sete HistĂłrias Verdadeiras".

Abril de 1952 marca uma sĂ©rie de viagens ao lado da mulher: Ă  entĂŁo ChecoslovĂĄquia, UniĂŁo SoviĂ©tica, França e Portugal. O regresso Ă© atribulado, porque a doença se revela e leva-o a procurar tratamento aos pulmĂ”es na Argentina. Apesar da intervenção cirĂșrgica de que Ă© alvo, o prognĂłstico mostra-se preocupante, pois os mĂ©dicos estĂŁo convictos de que nĂŁo viverĂĄ por muito mais tempo. O tempo darĂĄ razĂŁo aos clĂ­nicos - em janeiro de 1953, a debilidade do seu estado obriga a um internamento na Casa de SaĂșde e Maternidade SĂŁo VĂ­tor. Decorrem dois meses. Na madrugada de 20 de março, o cancro vence a batalha e mata o escritor. ApĂłs a sua morte sĂŁo publicados livros como "MemĂłrias do CĂĄrcere" (o autor nĂŁo chegou a escrever o derradeiro capĂ­tulo, mas a obra tambĂ©m foi adaptada ao cinema por Nelson Pereira dos Santos, em 1983), "Viagem" (1954), "Linhas Tortas", Viventes das Alagoas" e "Alexandre e Outros HerĂłis" (todos em 1962) ou "Cartas" (1980). Mais recentes sĂŁo "O Estribo de Prata" (1984), "Cartas de Amor Ă  HeloĂ­sa" (1992) e "Garranchos" (2012).


Editorial Record


Graciliano Ramos foi prefeito na localidade de Palmeira dos Índios, mas renunciou ao cargo dois anos depois de começar a exercĂȘ-lo.

Eis como se descreve a leitora de hoje: "Eu me chamo Isabela Cristina Rodrigues Azevedo, sou mulher negra, cristĂŁ e amante dos livros, filha de Natalina e Jorge.

Sou formada em Letras PortuguĂȘs/Literaturas pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e faço mestrado em Estudos LiterĂĄrios pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) com pesquisa na obra 'Vidas Secas', de Graciliano Ramos. Sou tambĂ©m professora concursada de LĂ­ngua Portuguesa do Ensino Fundamental."

 
 
 

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