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  • Paulo Jorge Pereira

"Jamaica Inn", de Daphne du Maurier

Ganhou fama mundial e ascendeu ao estrelato com diversas obras que foram adaptadas ao cinema, três delas com a mestria de Alfred Hitchcock associada, como sucede com a obra de que aqui se apresenta um excerto no original em inglês: "Jamaica Inn". Mas Daphne du Maurier tinha ascendência notável e não escapou a acusações de plágio por duas vezes.



Vinha do avô, George du Maurier, que publicou livros como "Trilby" ou "Peter Ibbetson", a paixão pela escrita, mas o pai, Gerald, também estava relacionado com o mundo das Artes, uma vez que fora um ator alvo de enorme reconhecimento. Com semelhantes antecedentes, Daphne ainda era adolescente e já ia dando os primeiros passos na aventura de escrever, sobretudo poesia e contos. Mas queria mais e ambicionava chegar muito longe e, para que esse caminho pudesse fazer sentido, Daphne du Maurier, nascida em Londres, a 13 de maio de 1907, com 18 anos rumou a Paris. A viagem, a permanência na cidade e toda a aprendizagem que ali conseguiu fazer foram determinantes para o seu trabalho literário. Estreou-se a publicar em 1931 com "The Loving Spirit", outro momento decisivo da sua vida, pois, além dos elogios generalizados, suscitou a atenção de um jovem oficial do Exército britânico, que combatera na I Guerra Mundial e seria comandante na II Guerra Mundial (é considerado o principal impulsionador do ramo aéreo das Forças Armadas britânicas): Frederick Arthur Montague Browning, mais tarde nomeado Cavaleiro pela rainha Isabel II, interessou-se pela escritora, aproximaram-se e a relação que estabeleceram acabou em casamento (seriam pais de Flavia, Christian e Tessa).

No Hampshire, Daphne du Maurier definiu o quartel-general da sua vida nas décadas seguintes, espaço privilegiado para a escrita dos seus romances. De 1932 é "I'll Never be Young Again", seguindo-se "Julius" (1933) e "Jamaica Inn" (em Portugal conhecido como "A Pousada da Jamaica"), de que aqui se apresenta um trecho e que chegou ao grande ecrã em 1939, com realização de Alfred Hitchcock e interpretações de Charles Laughton e Maureen O'Hara (mais recente, de abril de 2014, é a minissérie da BBC). A chegada ao Cinema garantiu-lhe maior popularidade e um entusiasmo crescente com a escrita - o livro seguinte, "Rebecca" (1938), também chegou à 7.ª Arte, em 1940, outra vez com Hitchcock a dirigir, sendo protagonistas Laurence Olivier, Joan Fontaine e George Sanders (agora é também uma película da Netflix, com Armie Hammer, Lily James e Kristin Scott Thomas). Foi o filme que o produtor David O. Selznick lançou como sucessor do estrondoso sucesso que, no ano anterior, conseguira "E Tudo o Vento Levou", e "Rebecca" venceria Óscares para melhor filme e melhor fotografia. Mas a obra ficou para sempre ensombrada pelas suspeitas de plágio de um livro publicado no Brasil em 1934: "A Sucessora", de Carolina Nabuco, no final dos anos 70 tornado telenovela da Globo com Susana Vieira, Rubens de Falco e Natália Timberg (que ganhou há cerca de três anos uma nova versão). Nabuco, que relata nas suas memórias ter sido procurada por uma equipa jurídica da United Artists, oferecendo-lhe uma verba para ter a sua assinatura num documento a concordar na coincidência de semelhanças entre os livros (algo que rejeitou), ponderou mesmo processar Daphne, mas acabou por não o fazer, embora considerasse até morrer, em 1981, com 91 anos, que houvera de facto plágio.

Apesar destas sombras, o trajeto literário de Daphne prosseguiu: "A Enseada do Francês" (1941), "Hungry Hill" (1943), "The King's General" (1946), "Os Parasitas" (1949), "A Prima Raquel" (1951). Neste começo dos anos 50, escreve e publica em 1952 outra obra que será alvo de adaptação cinematográfica pela mestria de Hitchcock ("Os Pássaros" é um filme de 1963, cujo elenco é liderado por Tippi Hedren, contando ainda com Jessica Tandy e Rod Taylor). Mas repetiram-se as acusações de plágio, desta vez por parte de Frank Baker, inglês que escrevera uma obra com o mesmo nome e enredo semelhante em 1936. Tal como no caso anterior, o editor desse livro, Peter Davies, conversara com Daphne du Maurier, que faria trabalhos de tradução, sobre o assunto e a obra nascera. Também Baker esteve tentado a avançar com um processo judicial, mas não o fez.

Seguem-se "Mary Anne" (1954), "The Scapegoat" (1957), "Castle Dor" (escrito em parceria com Sir Arthur Quiller-Couch, 1962), "The Flight of the Falcon" (1965). Este é o ano do mais duro golpe na vida da escritora, uma vez que morre o marido e o seu desgosto é profundo. De tal forma que toma a decisão de mudar de casa, deixa Menabilly e passa a viver em Kilmarth, mansão medieval na Cornualha que servirá de inspiração para as duas derradeiras obras.

e "House on the Strand" (1969). Mas o Cinema continua atento à sua obra e "Aquele Inverno em Veneza", que publica em 1971, torna-se filme de Nicolas Roeg em 1973 sob o título "Don't Look Now" e tendo Julie Christie e Donald Sutherland nos principais papéis. De 1972 são os últimos livros publicado pela autora: "Vanishing Cornwall" e "Rule Britannia".


Penguin


"Last night I dreamt I went to Manderley again": a frase, que serve de abertura ao romance "Rebecca", tornou-se uma das mais famosas da história da Literatura.

Daphne du Maurier morreu enquanto dormia, a 19 de abril de 1989, com 81 anos. "Não posso dizer que gosto mesmo de pessoas e é por isso que inventei as minhas", costumava dizer a famosa escritora.

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