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  • Paulo Jorge Pereira

Maria João Martins lê "O Delfim", de José Cardoso Pires"

"O Delfim", uma das obras mais marcantes de José Cardoso Pires e da Literatura portuguesa, publicado em 1968, é a proposta de Maria João Martins. O escritor, Prémio Pessoa em 1997, considerou que no livro "está em causa a agonia de um Portugal tradicionalista, incapaz de se moldar aos valores contemporâneos. Um Portugal híbrido".



Professora universitária de Literatura portuguesa, crítica e ensaísta, Maria Lúcia Lepecki defendeu que esta é uma obra "para ler devagar". O autor teve a coragem de abordar temas como a homossexualidade, o incesto, o racismo ou a traição em "O Delfim", um dos grandes livros da Literatura portuguesa. Corria o ano de 1968 quando foi publicado e a obra, escrita entre 1963 e 1967, é um retrato perfeito daquele tempo asfixiante da ditadura. Fintou a censura, os "burocratas da repressão", como lhes chama o historiador Fernando Rosas, tendo inclusive direito a traduções e elogios da crítica internacional. Em 2001 seria adaptado ao cinema com realização de Fernando Lopes, argumento de Vasco Pulido Valente e um elenco onde se destacavam Alexandra Lencastre, Rogério Samora e Miguel Guilherme. Mas, antes desta adaptação, já outras obras do autor tinham versão cinematográfica: "A Rapariga dos Fósforos", realizado em 1978 por Luís Galvão Teles; "Casino Oceano" (1983), de Lauro António; "Ritual dos Pequenos Vampiros" (1984), realizado por Eduardo Geada e "Balada da Praia dos Cães" (estreado em 1987), com realização de José Fonseca e Costa.

José Augusto Neves Cardoso Pires nasceu a 2 de outubro de 1925 em São João do Peso, localidade do concelho de Vila de Rei (Castelo Branco). Na capital irá viver em São Jorge de Arroios durante a juventude, estudando no Liceu de Camões, onde conhece docentes notáveis como Rómulo de Carvalho (imortalizado na Literatura sob o pseudónimo de António Gedeão) e Delfim Santos, mas sente-se chocado ao ver colegas com a farda da Mocidade Portuguesa, saudando professores à moda fascista de braço estendido. Nunca esquecerá os pides que viviam bem perto da sua casa, um deles dono de uma barbearia. Mais tarde, quando passou a viver perto da igreja de São João de Brito, continuou a ter bem perto um pide, então dono de uma cervejaria, conforme lembrou na entrevista a Artur Portela publicada no livro "Cardoso Pires por Cardoso Pires".

Como estudante universitário é aluno de Matemática na Faculdade de Ciências, mas interessa-se mais pela ação política e por frequentar cafés, bilhares, bailes, casas clandestinas onde joga às cartas e conhece a face oculta de uma Lisboa que considera "amedrontada, à espera de ser atirada para a guerra". Passa pela Marinha Mercante, publica o conto "Salão de Vintém" na antologia "Bloco" e cumpre o serviço militar entre Vendas Novas e a Figueira da Foz. Depois é agente de vendas, correspondente de inglês e intérprete numa companhia de aviação. Quando publica "Os Caminheiros e outros Contos", nomes grandes da Literatura portuguesa, como Manuel da Fonseca, Aquilino Ribeiro, Eugénio de Andrade e Carlos de Oliveira, deixam-lhe elogios, tal como parte da crítica, com relevo para João Gaspar Simões. De vez em quando entra em reuniões literárias com Mário Cesariny, Alexandre O'Neill e outros em cafés lisboetas. De 1949 é a sua entrada na Eva, revista feminina em que irá trabalhar, cria com apoio de Victor Palla a coleção "Os Livros das Três Abelhas e publica as traduções de "Morte de um Caixeiro-Viajante" (Arthur Miller) e "O Pão da Mentira" (Horace McCoy). Mas a Censura está sempre à espreita no Portugal salazarista e a publicação de "Histórias de Amor", em 1952, leva-o a ser detido pela PIDE, depois da apreensão do livro considerado "imoral": como lembrou a Artur Portela, "descrevia a prisão de uma estudante antifascista". Contou ainda que não foi interrogado, mas esteve três dias impedido de dormir pelos agentes da repressão. Dois anos mais tarde, numa fase em que era responsável pelas Edições Fólio, publicando obras de escritores como Samuel Beckett, William Faulkner ou Vladimir Maiakovski, vê a primeira tradução de uma obra sua, no caso "Os Caminheiros", ser editada em Londres sob o título "The Outsiders". O mês de julho assinala o seu casamento e será pai de duas filhas ainda na década de 50: Ana e Rita.

É intensa a sua intervenção política como militante do Partido Comunista e a ditadura encontra meios para o manter vigiado e sob constrangimentos económicos, mas Cardoso Pires não cede um milímetro e, em 1958, estreia-se nos romances com "O Anjo Ancorado". No ano seguinte está à frente da revista Almanaque ao lado de José Cutileiro, Alexandre O'Neill, Luís Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, João Abel Manta, Vasco Pulido Valente e Sebastião Rodrigues. Com a sombra da PIDE sempre por perto e inúmeras detenções de intelectuais, viaja para Londres, Paris e para o Rio de Janeiro, onde se torna amigo de Portinari, Clarice Lispector, Nara Leão, Scliar e Ruben Braga. Sob pseudónimo assina trabalhos na revista "Senhor", dirigida por Nahum Siroski. Volta em 1960, publica "Cartilha do Marialva" e a peça "O Render dos Heróis", retoma a revista Almanaque, extinta pelo regime em maio de 1961, e integra a direção da Sociedade Portuguesa de Autores. No universo dos jornais começa por ser cronista no Diário Popular, cria o suplemento de letras, artes e espetáculos no Jornal do Fundão, sob coordenação de Vítor Silva Tavares. Entretanto, escreve contos ("Jogos de Azar") e o romance "O Hóspede de Job". Mais tarde, em 1968, publica "O Delfim". Ainda com Silva Tavares cuida do Suplemento Literário do Diário de Lisboa e d'A Mosca (suplemento humorístico) até receber um convite para ser docente de Literatura Portuguesa e Brasileira no King's College londrino, papel que irá interpretar entre 1969 e 1971. É em Londres que publica o ensaio "Técnica do Golpe de Censura" com a intenção de "denunciar a prática e os mecanismos que a definiam". No ano de 1970, escreve "O Dinossauro Excelentíssimo", retrato mordaz de Salazar e da ditadura e publicado em 1972 com uma controvérsia pelo meio que lembrou na entrevista a Artur Portela Filho: na então designada Assembleia Nacional, "o professor Miller Guerra teve a coragem de afirmar que não havia liberdade em Portugal. Foi uma sessão histórica, um berro de heresia! O deputado ultrafascista Cazal Ribeiro correu para Miller Guerra a espumar de raiva e para o desmentir citou como prova o infame Dinossauro Excelentíssimo que acabava de ser posto à venda em toda a parte. E, pronto, a partir daí a Censura ficou de mãos atadas". Mesmo assim, não se livrou da censura de "alguns particulares" que andaram a fazer campanhas de "intimidação para que o livro fosse retirado das montras".

Depois da Revolução é convidado para diretor-adjunto do Diário de Lisboa e não esquecerá como foram esses tempos: "Cada hora era vivida em conturbação traumatizante. No período mais aceso do pós-25 de Abril, trabalhava dez horas por dia e passava o tempo a apagar os fogos cruzados das fações políticas da redação", contou a Artur Portela Filho. Durante algum tempo, é um dos vereadores em Lisboa. Em 1976 realiza-se o designado "Julgamento do Diário de Lisboa", estreia de um processo à liberdade de expressão depois do 25 de Abril. Ruella Ramos e Cardoso Pires, responsáveis pelo jornal, são chamados a responder "pela denúncia de abusos e violências praticados pela polícia de segurança". Jorge Sampaio e José Carlos de Vasconcelos são os advogados de defesa e, entre as testemunhas, estão Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Namora, José Gomes Ferreira, Ruy Luís Gomes, Jacinto Baptista e José Palla e Carmo. O resultado favorável torna-se determinante para a independência do trabalho jornalístico face ao poder político. Sem deixar de publicar contos, ensaios e teatro, regressa entre 1978 e 79 ao King's College

Em 1980 compra casa na Costa de Caparica "para escrever de frente para o mar", publicando em Espanha, no México e parcialmente no Diário de Lisboa uma reportagem acerca do Vietname. Dois anos depois publica "Balada da Praia dos Cães" que lhe garante o Grande Prémio para Romance da Associação Portuguesa de Escritores. Trata-se da história ficcionada de um crime que, de facto, aconteceu durante a ditadura, no começo dos anos 60 e, na adaptação ao cinema, no inesquecível filme de José Fonseca e Costa lançado em 1987, Raul Solnado será o protagonista num registo muito diferente do habitual no seu brilhante trajeto artístico.

De 1987 é "Alexandra Alpha", livro preferido e ao qual dedica um carinho especial, revelando incompreensão por grande parte da crítica não o ter percebido, além de referir que compreende que tenha causado "incomodidade em muita gente". E esclarece, na tal conversa com Artur Portela: "Porque é, ou pretende ser, uma dissertação conflituosa sobre a identificação a vários níveis, inclusive ao nível da linguagem (...) E, claro, todos esses relacionamentos estão demasiado próximos da experiência que vivemos nos dias de hoje para que um certo número de leitores não se sinta incomodado", aponta. O romance é premiado no Brasil pela Associação de Críticos, seguindo-se os contos d'"A República dos Corvos". O escritor não perde a ligação à imprensa, vai escrevendo crónicas no Diário de Lisboa, n'O Jornal, no Público (uma parte estará na obra "A Cavalo no Diabo"). Em 1991 é agraciado com o Prémio Internacional União Latina e no ano seguinte recebe o Astrolábio de Ouro do Prémio Internacional Último Novecento em Itália.

Por duas vezes driblou a morte: em 1994, devido a grave acidente de viação e, no ano seguinte, depois de um AVC que o levou ao internamento nas urgências de Santa Maria a 12 de janeiro. Seria acompanhado pelo neurocirurgião João Lobo Antunes de quem se tornou amigo - já tinha profundos laços de amizade por um dos irmãos, o escritor António Lobo Antunes - e cuja experiência iria relatar no livro "De Profundis, Valsa Lenta" (com uma carta, em lugar do prefácio, escrita pelo próprio médico). Apesar da perda de memória e da luta pela vida, foi capaz de recuperar e o relato, publicado em maio de 1997, está escrito com frieza e a habitual escrita depurada, sem qualquer tipo de autocomiseração, recebendo os Prémios D. Dinis e da Associação Internacional de Críticos Literários. Publica "Lisboa, Livro de Bordo" e foi distinguido com o Prémio Pessoa em 1997.

Julho de 1998. José Cardoso Pires sofre outro problema de saúde e entra em coma. A 26 de outubro, cai o pano sobre a peça da vida do grande escritor. "A primeira regra para escrever é conhecer a gramática. A segunda é esquecê-la (...) A gramática, o conhecimento, vem primeiro, o conhecimento é o princípio da liberdade, sem ele não há transgressão", afirmara. E também que "só se escreve porque se gosta da vida".


Edições D. Quixote

"Cada livro é uma busca da minha identificação com o país e comigo próprio", afirmou Cardoso Pires em entrevista a Artur Portela.

Maria João Martins é jornalista, escritora e professora convidada da Universidade Carlos III de Madrid, onde leciona a disciplina de História Social da Moda. É autora de várias obras na área da História e de dois romances: "Escola de Validos" e "Como o Ar que Respiras".

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