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  • Paulo Jorge Pereira

"Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão", de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho, autor de obras como "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde", "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina" ou "Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto", é a proposta de leitura para hoje com um trecho do livro "Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão".



Advogado e autor de romances, contos, peças de teatro e argumentos cinematográficos, Mário Costa Martins de Carvalho nasceu em Lisboa, na Maternidade Alfredo da Costa, no dia 25 de setembro de 1944. No entanto, os pais viviam na localidade de Alvalade do Sado, uma vila do Alentejo. Viveria em Setúbal até aos três anos e, a partir daí, na lisboeta Ajuda. "Aprendi a ler em casa, foi a minha mãe que me ensinou, pela cartilha do João de Deus", contou em entrevista ao programa Ler +, Ler Melhor, da RTP.

Era ainda estudante no Liceu Camões e já a relação com o universo literário o espreitava - teve o escritor Mário Dionísio como professor, além de ser da mesma turma de nomes como os de Eduardo Prado Coelho ou João Aguiar. Sempre empenhado no combate à ditadura, participou nas greves de estudantes no começo dos anos 60 e, visado como antifascista ligado ao Partido Comunista, seria preso pela PIDE em 1971, numa fase em que cumpria o serviço militar. Encarcerado nas prisões de Caxias e Peniche, Mário de Carvalho foi submetido à tortura do sono. "Era um preço que se pagava", sustentou na entrevista referida. "Foi o preço da minha resistência como foi para outros e como já tinha sido para o meu pai", contou.

Já era licenciado em Direito quando escapou de Portugal em 1973 rumo ao exílio, primeiro em França e, mais tarde, na Suécia, só regressando após o 25 de Abril.

Seguiu-se período de intenso entusiasmo e atividade na vida política portuguesa, além do exercício da sua profissão de advogado, mas em 1981, após encorajamento de Fernando Guerreiro, surgiria o lançamento do seu primeiro livro: "Contos da Sétima Esfera", sob edição do também escritor João de Melo.

Incentivado por críticas positivas, Mário de Carvalho continuou o percurso: "Casos do Beco das Sardinheiras" e "O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana" (ambos de 1982 e este último o primeiro a ser premiado), "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho" (1983) ou "Fabulário" (1984). Deste ano é a sua entrada no elenco diretivo da Associação Portuguesa de Escritores (APE), primeiro com David Mourão-Ferreira como presidente, depois sob a liderança de Óscar Lopes. Ao mesmo tempo ia publicando as suas obras: "Contos Soltos" e "A Paixão do Conde de Fróis" (os dois de 1986, tal como "E se Tivesse a Bondade de me Dizer Porquê?", este numa cooperação com Clara Pinto Correia). Já depois da saída da APE, o autor apresenta "OS Alferes" (1989) antes de "Quatrocentos Mil Sestércios" seguido de "O Conde Jano", novelas de 1991 e outros exemplos de prémios. Também de 1991 é a peça "Água em Pena de Pato".

Mas o momento da maior consagração aparece em 1994 quando "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde" acumula vários galardões, entre os quais o Prémio de Romance e Novela da APE/ILB. "Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto" (1995) teve direito a leitura de um excerto por aqui a 26 de julho. Após interregno de quatro anos, o escritor volta a publicar: primeiro, "Apuros de um pessimista em Fuga"; depois, "Se Perguntarem por Mim, Não Estou" seguido de "Haja Harmonia", os quais lhe garantem o Grande Prémio APE na categoria teatral. "Contos Vagabundos" (2000) aparecem antes de novos prémios por "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina" (2003), sendo ainda deste ano a sua estreia no mundo da literatura para os mais jovens: "O Homem que Engoliu a Lua".

De então para cá, além da docência em Escolas Superiores (de Teatro e Cinema, mas também de Comunicação Social), nunca deixou de publicar, voltando a ser premiado pelo livro "A Sala Magenta" (2008). Seguiram-se "A Arte de Morrer Longe" (2010), "O Homem do Turbante Verde" e "Quando o Diabo Reza" (os dois de 2011), "Não Há Vozes, Não Há Prantos" e "O Varandim" seguido de "Ocaso em Carvangel" (de 2012), "A Liberdade de Pátio" (2013), "Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão" (2014), que hoje aqui marca presença, "Novelas Extravagantes" (2015), "Rondas das Mil Belas em Frol" (2016), "Cronovelemas" (2017) e "Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos" (2018).

Admite que a variação de géneros lhe permite contornar o cansaço e o aborrecimento de um só registo e, por isso, tenta ir intercalando entre romances, contos ou teatro. "A matriz de tudo aquilo que escrevi está num livro muito compacto, O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana, que não é um livro fácil", reconheceu na entrevista acima mencionada. "Não sei se as pessoas continuarão a ler livros, provavelmente o futuro está nos eBooks, mas também é verdade que a morte do livro e da narração já foi anunciada muitas vezes. Mesmo que o livro em papel desapareça, talvez não desapareçam o gosto pelas histórias e pelas grandes narrações", vaticinou.


Coleção Público Mil Folhas


Mário de Carvalho admite que variar géneros na escrita lhe possibilita contornar o cansaço e o aborrecimento de um único registo.

Ao longo dos anos, Mário de Carvalho tem colecionado distinções. Pai das escritoras Ana Margarida de Carvalho, também premiada com vários galardões, e de Rita Taborda Duarte, publicou mais de 30 livros, sendo "O que Eu Ouvi na Barrica das Maçãs" (2019) e "Epítome de Pecados e Tentações" (2020) os mais recentes.

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