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  • Paulo Jorge Pereira

"Rapariga, Mulher, Outra", de Bernardine Evaristo

Updated: Feb 13

Partir de uma frustração - a ausência de mulheres negras na literatura britânica - para escrever um livro que, de tão bem escrito, acaba a conquistar o Booker Prize (e a ser livro e autora do ano nos British Book Awards): assim se tornou o percurso de "Rapariga, Mulher, Outra", escrito por Bernardine Evaristo, de que aqui se apresenta um trecho.



Na entrevista que concedeu ao diário The Guardian, a autora não deixou dúvidas: "Quis colocar presença na ausência." Tão simples quanto isto. E, no entanto, tão elaborado, tão delicado e tão complicado de concretizar. Frustrada por encontrar tão poucas mulheres negras na literatura britânica, Bernardine Evaristo escolheu a ação e não o lamento - criou uma história com uma dúzia de personagens que se interligam em percursos e histórias de mais jovens até alguém com mais de 90 anos. Um livro com mulheres e sobre mulheres que, numa linguagem com tanto de impiedosa como de bem-humorada, fala das suas vidas feitas de sofrimentos, triunfos, frustrações, conquistas, alegrias, tristezas, discriminações e olhares diferentes, sem excluir passagens que se valem da própria experiência de vida da autora. Uma escrita simples, atraente, adulta, que deixa para o final uma surpresa e distinguida com o Booker Prize (mas também como livro e autora do ano nos British Book Awards), mas, numa decisão que recebeu fortes críticas, não por inteiro: Evaristo, primeira mulher negra a vencer desde 1969, partilhou o galardão e os 57 mil euros em dinheiro com a canadiana Margaret Atwood, a conhecida autora de "The Handmaid's Tail".

Uma de oito irmãos, nascida em Londres no ano de 1959, Bernardine Evaristo teve pai nigeriano, Julius Taiwo Obayomi, e mãe inglesa, Jacqueline Mary Evaristo, crescendo no sudeste da capital. Conforme recordou na entrevista ao Guardian, "era a única menina negra na escola em Woolwich". Queixou-se de o pai nada lhe contar sobre o facto de ser africano e da herança que isso implicava, veio também a saber da ascendência brasileira, irlandesa e alemã que lhe corria no sangue. "Descobri quando já estava na casa dos 20 que havia negros na ocupação que o Império Romano fez do futuro mundo britânico e acabei por escrever sobre isso no meu livro 'The Emperor's Babe', história de uma menina negra na Londres romana", contou.

Iria construir um caminho como atriz e escritora não só de romances, mas também de poesia e teatro. Foi uma das fundadoras do Teatro de Mulheres Negras, nos anos 80, em Londres, escreveu peças, participou em residências literárias e ganhou os primeiros traços de reconhecimento quando publicou uma novela em verso, "Lara", em 1997, embora a primeira obra seja de poesia e se intitule "Island of Abraham" (1993). Seguiram-se o já citado "The Emperor's Babe" (2001) e "Soul Tourists" (2005) antes de editar, com Maggie Gee, "NW15: The Anthology of New Writing" (2007), e de "Blonde Roots" (2009).

Também escritora de dramas radiofónicos como "Hello Mum", a autora foi recebendo galardões e publicou ainda "Mr. Loverman" (2014) antes de chegar o grande momento de sucesso com "Girl, Woman, Other". Pelo meio, desde 1994 que ensina escrita criativa e tem defendido causas como o feminismo, o multiculturalismo, a luta contra a opressão das minorias.


Editora Elsinore/Tradução de Miguel Romeira


"O trabalho de um escritor é criar as histórias e personagens que precisam de ser contadas e não esperar que outros as contem", opinou Evaristo na entrevista ao diário The Guardian em abril do ano passado.

Confessa admirar Toni Morrison, a norte-americana que venceu o Nobel da Literatura em 1993, mas também o poeta Derek Walcott. E ainda Diana Evans e Ali Smith.

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