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  • Paulo Jorge Pereira

Ana Zorrinho interpreta um poema de Manuel da Fonseca

É com a interpretação de um poema do seu conterrâneo Manuel da Fonseca que Ana Zorrinho regressa hoje aqui ao blog.



A dureza a que foram submetidos os alentejanos, sobretudo durante os tempos sombrios da ditadura, está no coração da obra de Manuel Lopes Ferreira Fonseca, cujo nome literário se tornou apenas Manuel da Fonseca. Nascido em Santiago do Cacém a 15 de outubro de 1911, a sua formação escolar passaria por Lisboa e por Belas-Artes ainda antes de se dedicar à escrita. Na capital teve oportunidadce de integrar grupos de tertúlias com diversos artistas, entre os quais o escritor José Cardoso Pires. Iria afirmar-se como personalidade marcante do Neorrealismo, integrando também o Novo Cancioneiro. Filiado no Partido Comunista e com uma obra de cariz vincadamente crítico da sociedade abafada pelo peso da ditadura, bateu-se com coragem contra Salazar. Isso valeu-lhe ser preso pela PIDE e passar por mais problemas quando a Sociedade Portuguesa de Escritores, a que presidia, galardoou o autor angolano José Luandino Vieira com o Grande Prémio de Novelística para o seu "Luuanda" - a resposta da ditadura foi rápida, centrando-se no encerramento imediato da entidade e na colocação, na cadeia de Caxias, de alguns dos seus elementos, entre os quais o próprio escritor. Devido à sua frequente participação na vida política, incluindo na candidaturas à Presidência da República de Norton de Mato ou Humberto Delgado, foi vivendo sob intensa vigilância da PIDE, mas, após a Revolução dos Cravos, tornou-se um autor (ainda) mais admirado, tendo sido premiado em diferentes ocasiões. A partir do dealbar dos anos 40, Manuel da Fonseca foi presença assídua como colaborador de uma variada gama de órgãos de informação, entre jornais e revistas.

Morreria em Lisboa, a 11 de março de 1993.

Em termos literários, Manuel da Fonseca começou com poesia, em 1940, publicando "Rosa dos Ventos", mas neste género apresentaria ainda "Planície", "Poemas Dispersos", "Poemas Completos", "Obra Poética" e "O Largo". Como contista publicou "Aldeia Nova" (1942), seguindo-se "O Retrato", "O Fogo e as Cinzas", "Um Anjo no Trapézio" e "Tempo de Solidão". Quanto a romances, "Cerromaior" (1943) foi o primeiro e seria passado ao cinema, enquanto "Seara de Vento" surgiu em 1958.

Hoje, a sua conterrânea Ana Zorrinho apresenta aqui uma dramatização de um dos poemas do autor.


Foi pela poesia que Manuel da Fonseca começou o percurso literário, numa fase em que se iniciava a década de 40.

"Histórias de um Tempo Só", o belo e poderoso livro de contos escrito por Ana Zorrinho e com maravilhosas ilustrações de Raquel Ventura, foi tema central do blog a 17 de julho de 2020. Uma semana mais tarde, no dia 24, um precioso projeto com direção artística da escritora, a Oficina do Teatro, apresentou a sua leitura em conjunto de "Lágrima de Preta", inesquecível poema de António Gedeão, tão apropriado para os tempos que correm, marcados pelo recrudescimento do racismo. É caso para dizer que, com a escritora Ana Zorrinho, ficamos sempre a ganhar. A começar pela aprendizagem que nos proporciona. E, já agora, pela forma inesquecível como lê e dramatiza os textos - por exemplo, guardem bem na memória aquela última frase do trecho do livro de Mia Couto, "Venenos de Deus, Remédios do Diabo", que aqui leu a 11 de agosto de 2020.

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