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Especial Feira do Livro: Agostinho Costa Sousa lĂȘ "As Palavras Andantes", de Eduardo Galeano

  • Paulo Jorge Pereira
  • Sep 11, 2021
  • 4 min read

Eduardo Galeano classificou "As Palavras Andantes" como "histĂłrias de espantos e encantos que quero escrever, as vozes que recolhi pelos caminhos, e os meus sonhos de andar acordado, realidades deliradas, delĂ­rios realizados, palavras andantes que encontrei - ou fui por elas encontrado". Hoje Ă© um trecho dessa obra que aqui se apresenta como proposta de leitura apresentada por Agostinho Costa Sousa.



Filho mais velho dos trĂȘs do casal formado por Licia Esther Galeano Muñoz e Eduardo Hughes Roosen, Eduardo Hughes Galeano nasceu em Montevideu, capital do Uruguai, a 3 de setembro de 1940. Pensou que viria a ser padre, quis ser jogador de futebol, mas acabou por ser jornalista e escritor com uma obra que tem mais de quatro dezenas de livros. Antes disto, porĂ©m, desempenharia diversas funçÔes como, por exemplo, pintar letreiros, entregar mensagens, datilografar ou trabalhar num banco. No princĂ­pio dos anos 60 começaria a trabalhar como jornalista, foi editor dos jornais Marcha e Época. A sua estreia a publicar um livro registou-se em 1963 com a obra "Los DĂ­as Siguientes", continuou a escrever e, em 1971, publicou um dos seus livros mais famosos: "As Veias Abertas da AmĂ©rica Latina".

Muitos anos mais tarde, num encontro que manteve com Barack Obama, na altura Presidente dos Estados Unidos, o chefe de Estado venezuelano, Hugo Chåvez, entregou-lhe precisamente este livro. A obra foi escrita por Galeano nos anos 70, tornando-se um clåssico cuja temåtica essencial são as formas de exploração da América Latina por parte do designado "imperialismo económico". "A obra pretende mostrar que não hå riqueza que seja inocente, toda a riqueza nasce de alguma pobreza. A maldição da América Latina foi a sua riqueza. A riqueza do subsolo determinou a humilhação da população", explicou o próprio autor em entrevista ao programa "Entrelinhas", no ùmbito da Fliporto, a festa literåria de Porto de Galinhas, em Pernambuco. "Depois fui incorporando mundos no meu mundo e a escrita foi evoluindo", acrescentou.

Em 1973, seguindo a triste tendĂȘncia que se verificava na AmĂ©rica do Sul, o Uruguai passou a ser governado por uma ditadura (assim ficaria atĂ© 1985), depois de os militares darem apoio ao Presidente civil, Juan MarĂ­a Bordaberry, para que este dissolvesse o poder legislativo. Galeano foi preso e teria de se exilar em Espanha quando soube que o seu nome integrava a lista de pessoas a abater pelo designado "EsquadrĂŁo da Morte". Continuando a escrever mesmo fora do seu paĂ­s, Galeano regressaria em 1985 jĂĄ com democracia.

"O Livro dos Abraços", de que aqui se apresenta um trecho, Ă© uma coleção de pequenas histĂłrias "numa linguagem que pretende ser nua", em que tenta "dizer mais com menos" e procura "contar a grande histĂłria universal atravĂ©s da micro-histĂłria" como afirmou na entrevista citada, durante a Fliporto. Na ocasiĂŁo, lembrava um falso provĂ©rbio chinĂȘs que o compatriota escritor Juan Carlos Onetti lhe dissera: "As Ășnicas palavras que merecem existir sĂŁo as palavras melhores do que o silĂȘncio." E reforçava que "O Livro dos Abraços", publicado em 1989, era "um exemplo muito claro dessa intenção de sĂ­ntese entre tudo o que foi e o oceano, ou seja, as guerra da alma, guerras entre a liberdade e o medo, sĂŁo quase iguais Ă s guerras da rua".

Antes, entre 1982 e 1986, escrevera a trilogia "Memória do Fogo", composta por "Os Nascimentos", "As Caras e as Måscaras" e "O Século do Vento", uma "espécie de continuação em profundidade" do livro "As Veias Abertas da América Latina", mas "escrito numa linguagem diferente e tentando abraçar outros espaços da vida humana que não estão compreendidos na economia política, porque esta não é a verdade da vida, a vida vai além dela".

Nunca perdeu a enorme paixĂŁo que sentia por futebol e, em 1995, apresentou outro dos livros que deixaram marcas nos leitores: "Futebol ao Sol e Ă  Sombra". "O sol seria a arte, porque o futebol, quando Ă© bem jogado, Ă© uma dança com a bola, e a legitimidade da paixĂŁo popular que o futebol gera - todos os bebĂ©s do Uruguai nascem a gritar 'Goooooolo!'", responderia nessa conversa com Manuel da Costa Pinto no Ăąmbito da Fliporto. "A sombra Ă© o futebol como negĂłcio e como catapulta polĂ­tica, utilizada para ganhar prestĂ­gio polĂ­tico e como fonte de bons negĂłcios, porque, de todas as indĂșstrias do espetĂĄculo, o futebol Ă© a mais importante, a que mais dinheiro dĂĄ e que mais prestĂ­gio outorga. Essa Ă© a parte escura do futebol", concluiu.

Escreveria ainda mais meia dĂșzia de livros entre 1997 e 2012 - pelo meio, adoeceu gravemente em 2007 (cancro num pulmĂŁo), mas foi operado e conseguiu recuperar. No ano seguinte, rejubilou com a vitĂłria de Barack Obama nas eleiçÔes presidenciais dos Estados Unidos, considerando que estava na hora de o paĂ­s "se libertar da sua pesada herança racista" - nĂŁo era possĂ­vel, entĂŁo, prever a eleição de alguĂ©m como Trump.

O Ășltimo livro publicado seria "Os Filhos dos Dias". O cancro no pulmĂŁo voltou a atacĂĄ-lo em 2015 e, a 13 de abril, Eduardo Galeano morreria durante o internamento num hospital de Montevideu.

O trabalho de Eduardo Galeano jå aqui fora abordado com a leitura de um trecho da obra "O Livro dos Abraços", a 4 de agosto de 2020, pela voz de Ana Cecília Reis, e também quando apresentei um pouco do livro "As Veias Abertas da América Latina", a 16 de dezembro.


Editora Antígona/Tradução de Helena Pitta


"Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte recua dez passos. Por mais que eu caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar", escreve Galeano.

Agostinho Costa Sousa reside em Espinho e socorre-se da frase de AntĂłn Tchekhov: "A medicina Ă© a minha mulher legĂ­tima, a literatura Ă© ilegĂ­tima" para se apresentar. "A Arquitetura Ă© a minha mulher legĂ­tima, a Leitura Ă© uma das ilegĂ­timas", refere. Estreou-se a ler por aqui a 9 de maio com "A Neve Caindo sobre os Cedros", de David Guterson, seguindo-se "As Cidades InvisĂ­veis", de Italo Calvino, a 16 do mesmo mĂȘs, mas tambĂ©m leituras de obras de Manuel de Lima e Alexandra Lucas Coelho a 31 de maio. "HistĂłrias para Uma Noite de Calmaria", de Tonino Guerra, foi a sua escolha no dia 4 de junho. No passado dia 25, a sua escolha recaiu em "Veneno e Sombra e Adeus", de Javier MarĂ­as. JĂĄ esta semana, o regresso processou-se com "As Velas Ardem AtĂ© ao Fim", de SĂĄndor MĂĄrai.

 
 
 

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