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Fernando Soares lĂȘ "Uma Pequenina Luz", de Jorge de Sena

  • Paulo Jorge Pereira
  • May 29, 2021
  • 6 min read

Estão de volta a voz e a interpretação mågicas de Fernando Soares para um outro regresso, uma vez que jå aqui foi lido o que vamos "ouver": "Uma Pequenina Luz", de Jorge de Sena, jå apresentado em Paredes.



O exĂ­lio e a amargura foram algumas das marcas da vida de Jorge de Sena, por duas vezes forçado a mudar de paĂ­s devido a regimes ditatoriais: primeiro, quando trocou Portugal pelo Brasil em 1959, na sequĂȘncia do golpe revolucionĂĄrio falhado em que interveio contra a ditadura de Salazar; seis anos mais tarde, quando a ditadura jĂĄ causava danos ao Brasil, o escritor passou a viver nos Estados Unidos, onde acabaria por morrer a 4 de junho de 1978, na CalifĂłrnia, depois de ter ensinado nas Universidades de Wisconsin e Santa BĂĄrbara.

Para trĂĄs ficavam os traços vincados de um dos intelectuais mais brilhantes e vibrantes de Portugal no sĂ©culo XX. Jorge CĂąndido de Sena nasceu a 2 de novembro de 1919 em Lisboa e seria ensaĂ­sta, poeta, crĂ­tico, ficcionista, dramaturgo, docente universitĂĄrio, historiador e tradutor, tendo formação como engenheiro civil. Antes, passou pelo Liceu CamĂ”es, teve como marcante professor RĂłmulo de Carvalho, mais conhecido como poeta popular sob o pseudĂłnimo de AntĂłnio GedeĂŁo. A influĂȘncia paterna (Augusto Raposo de Sena fora comandante da marinha mercante) levou-o a entrar na Escola Naval com apenas 17 anos, mas a viagem inaugural no Navio-Escola Sagres levou-o a ser afastado pelo responsĂĄvel que o considerou fisicamente inapto para as exigĂȘncias da vida a bordo. Ainda tentou o curso de oficiais milicianos, mas tambĂ©m foi obrigado a afastar-se, desta vez por questĂ”es de saĂșde. ApĂłs um ano como universitĂĄrio na capital mudou-se para o Porto e aqui terminou os estudos superiores de Engenharia Civil em 1944. Nessa altura, jĂĄ acumulara poesia suficiente para publicação e atĂ© chegara a dar os primeiros passos na aventura de ver o seu trabalho literĂĄrio editado: escolheu o pseudĂłnimo de Teles de Abreu e teve direito a publicação na revista Cadernos de Poesia. Era tambĂ©m jĂĄ casado e seria pai dos nove filhos da professora e escritora Maria MĂ©cia de Freitas Lopes (MĂ©cia de Sena depois do casamento), irmĂŁ do crĂ­tico literĂĄrio Óscar Lopes.

De 1942 Ă© a sua estreia literĂĄria em livro com "Perseguição" e cinco anos depois começa a carreira profissional como engenheiro civil ao entrar na CĂąmara Municipal de Lisboa. PassarĂĄ ainda pela Direção-Geral dos Serviços de Urbanização e pela Junta AutĂłnoma das Estradas, papĂ©is que acumula com outras funçÔes na ĂĄrea editorial e com a publicação de diferentes livros em diversos gĂ©neros: "O Dogma da Trindade PoĂ©tica – Rimbaud" (1942), "Coroa da Terra" (1946), "PĂĄginas de Doutrina EstĂ©tica de Fernando Pessoa (neste caso como organizador, tambĂ©m em 1946), "Florbela Espanca" (1947), "Pedra Filosofal" (1950), "A Poesia de CamĂ”es" (1951), entre outros. Participa, por outro lado, em publicaçÔes como as revistas Mundo LiterĂĄrio (1946-1948), Litoral (1944-1945) e AtlĂąntico. Mas o ambiente claustrofĂłbico que se vive sob a ditadura Ă© demasiado opressivo para Jorge de Sena, a vigilĂąncia e perseguição da PIDE sĂŁo constantes e, no verĂŁo de 1959, aproveita o convite que lhe Ă© endereçado para participar num colĂłquio internacional no Brasil e viaja. IrĂĄ mesmo ficar, nĂŁo apenas face ao honroso convite para ser professor catedrĂĄtico em Assis, mas tambĂ©m porque, devido ao seu envolvimento num golpe revolucionĂĄrio abortado, seria quase certa a sua prisĂŁo pela PIDE caso regressasse a Lisboa.

Vai sempre vivendo e escrevendo no Estado de São Paulo, chega a ensinar em Araraquara, doutora-se na årea de Letras com "Os Sonetos de CamÔes e o Sonho Quinhentista Peninsular", recebe a nacionalidade brasileira, mas os tempos voltam a tornar-se muito delicados a partir do golpe militar que, em 1964, coloca o Brasil sob ditadura. Quando deixa o país e ruma aos Estados Unidos jå leva consigo parte substancial de "Sinais de Fogo" e um livro de contos: "Novas Andanças do Demónio".

É outra vez com um convite no bolso que muda de paĂ­s em outubro de 1965 e segue direto ao Estado de Wisconsin para corresponder ao apelo do ensino de LĂ­ngua Portuguesa naquela universidade. Dois anos mais tarde jĂĄ Ă© catedrĂĄtico no Departamento de Espanhol e PortuguĂȘs, sucedendo-se a instalação definitiva em Santa BĂĄrbara, na CalifĂłrnia, como catedrĂĄtico de Literatura Comparada. É aqui que recebe a notĂ­cia do fim da ditadura com a Revolução dos Cravos e, por momentos, sonha com o regresso para ficar no seu paĂ­s. Pura ilusĂŁo, como o tempo e a ausĂȘncia de convites do mundo universitĂĄrio portuguĂȘs se encarregarĂŁo de provar.

Ainda assim, a 20 de setembro de 1976 estå em Lisboa, de passagem para Itålia, onde vai participar num congresso literårio dedicado a um balanço sobre o século XX e farå uma das principais comunicaçÔes, relativas à poesia europeia desse período, e concede uma entrevista a Joaquim Furtado, então jornalista da RTP. Nela fala sobre o 25 de Abril, lembra o entusiasmo que se lhe seguiu, mas também o medo, destacando o facto de existir "uma simpatia geral pela Revolução" e alguns "antagonismos tradicionais". Definiu-se como "uma pessoa de extrema-esquerda sem filiação partidåria no sentido arcaico da palavra esquerda, portanto, extremíssima-esquerda de certeza que não. Filosoficamente sempre fui um marxista", sublinhou, apontando a necessidade de "uma certa estabilidade política" no país de então. Assinalava o facto de se terem cometido "erros de cålculo de todos os lados" e considerava ser "muito cedo para se prever o que pode acontecer numa normalidade constitucional". E, sobre o facto de não ter voltado para Portugal após o 25 de Abril, Jorge de Sena lembrou que estivera no país logo em julho, mas "sou catedråtico efetivo na Universidade da Califórnia, um lugar definido e concreto, sou uma pessoa sem meios de fortuna de espécie alguma, não tenho quintas no Ribatejo, não tenho fazendas em Trås-os-Montes, nem contas no banco, e tenho uma família enorme às minhas costas. Quer dizer, sou uma pessoa que não se muda facilmente de um lugar para o outro, ainda que o tenha feito por diversas vezes. Não vim pura e simplesmente porque ninguém me chamou; em segundo lugar porque tenho um lugar fixo e em terceiro porque nunca pediria a ninguém, embora tenha amigos em vårias situaçÔes políticas dos vårios governos que tem havido. Em julho de 74 esses meus amigos devem ter sentido que fiz questão de estar em Portugal e de não visitar nenhum deles - não porque não os quisesse ver, mas para que ficasse bem claro que não vinha a Portugal sacudir a årvore das patacas", afirmou.

Voltaria a Portugal por diversas vezes, mas sempre com regresso marcado aos Estados Unidos. Outros tĂ­tulos que publicou ainda em vida: na poesia, "Sobre Esta Praia" e o romance "O FĂ­sico Prodigioso" (ambos de 1977) ou, no ensaio, "DialĂ©ticas Aplicadas da Literatura" (1978). ApĂłs a morte do escritor, vĂ­tima de cancro aos 58 anos, MĂ©cia de Sena, sua viĂșva, seria fundamental para a divulgação da obra, intervindo de forma decisiva para publicaçÔes pĂłstumas. Em 1995, o realizador LuĂ­s Filipe Rocha adaptou "Sinais de Fogo" (livro que sĂł fora publicado em 1979) ao cinema, com um elenco que incluĂ­a, entre outros, Diogo Infante, Ruth Gabriel, Marcantonio Del Carlo, RogĂ©rio Samora ou Henrique Viana.

Continuando a viver nos Estados Unidos, MĂ©cia de Sena foi sempre alimentando a ideia da importĂąncia de divulgar cada vez mais o trabalho literĂĄrio do marido. Morreu aos 100 anos, a 29 de março do ano passado, em Los Angeles. Na altura da sua morte, o PĂșblico lembrou como MĂ©cia de Sena fora determinante para a organização e publicação de inĂșmeros manuscritos, incluindo as cartas de amor que trocara com o marido, sob o tĂ­tulo "Isto Tudo que nos Rodeia", mas tambĂ©m a numerosa correspondĂȘncia com escritores como Sophia de Mello Breyner, VergĂ­lio Ferreira, JosĂ© RĂ©gio, JoĂŁo Gaspar SimĂ”es, Eduardo Lourenço, AntĂłnio Ramos Rosa, Delfim Santos ou JosĂ©-Augusto França.


GuimarĂŁes Editores


"Uma Pequenina Luz" teve a primeira presença aqui no passado Dia Mundial da Poesia, a 21 de março, pela voz de Sara Loureiro. Hoje, Fernando Soares apresenta a leitura que fez em Paredes.

Com uma voz poderosa e enorme experiĂȘncia, o ator, escritor, encenador e diseur Fernando Soares continua a hipnotizar audiĂȘncias e a promover a leitura como poucos com experiĂȘncias diversificadas enquanto ator, em cinema, televisĂŁo, teatro, poesia, mas tambĂ©m com trabalho como encenador em contexto prisional, associativo, sĂ©nior, e nos projetos teatrais e de poesia em todos os graus de ensino. É, tambĂ©m, autor, professor e formador.

Aqui no blog estreou-se a 20 de março no Especial Alice Vieira Faz Anos com a leitura do poema "SĂŁo Um Perigo As Palavras". A 27 de abril regressou com a leitura de um excerto de um livro de crĂłnicas de JosĂ© Saramago, "Deste Mundo e do Outro". No 1.Âș de Maio, Fernando Soares apresentou um trecho da obra "Sombra SilĂȘncio", escrito por Carlos Poças FalcĂŁo. TrĂȘs dias depois apresentou uma leitura cujo autor preferiu nĂŁo identificar. No dia 10 trouxe o trabalho literĂĄrio de Nelson Ferraz. A 12 foi a vez de apresentar Joaquim Pessoa com "Dos PĂĄssaros e dos Homens". No dia 15 trouxe-nos "A Espantosa Realidade das Coisas", poema de Alberto Caeiro, um dos heterĂłnimos pessoanos. Voltou a 21 de maio com "Os Macacos", de Jacques Brel.

 
 
 

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