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Gabriela Ruivo Trindade lĂȘ o poema "Pirata", de Sophia de Mello Breyner

  • Paulo Jorge Pereira
  • Jul 17, 2022
  • 9 min read

Vencedora do Prémio Leya em 2013, a obra "Uma Outra Voz" foi a estreia de Gabriela Ruivo Trindade. A autora vive em Londres desde 2004, é formada em Psicologia e hoje apresenta a sua proposta de leitura: o poema "Pirata", de Sophia de Mello Breyner.



A principal componente da obra de Sophia Ă© a poesia, mas a escritora nĂŁo se ficou por este gĂ©nero e tambĂ©m publicou livros com histĂłrias para crianças que, de inĂ­cio, contara aos filhos, depois as transformando para textos escritos. Sophia de Mello Breyner Andresen contou por diversas vezes em entrevistas como entrara no universo da literatura infantil. Tudo se iniciara quando os filhos estavam doentes com sarampo e era preciso que "estivessem quietos". Contava-lhes histĂłrias, mas depressa se irritou ao perceber que a linguagem utilizada nĂŁo era aquela que considerava mais adequada. Olhava-a como demasiado "sentimental", no fundo, algo que lidava com as crianças como se estas nĂŁo fossem capazes de entender a beleza de tudo o que Ă© simples e respeitador da inteligĂȘncia. Assim, passou a recorrer a histĂłrias relacionadas com os seus prĂłprios tempos e lugares de menina, algumas delas em parte contadas pela sua mĂŁe. A primeira foi "A Menina do Mar".

"A Menina do Mar" teve publicação logo em 1958, contando a história de um rapaz e de uma rapariga e da relação de amizade que entre eles se estabelece. O livro deu origem a uma peça musical do maestro Fernando Lopes-Graça em 1961, com a voz da atriz Eunice Muñoz na leitura da história, mas também a uma de Bernardo Sassetti com Beatriz Batarda e outra de Filipe Raposo num registo de jazz a partir do trabalho de Sassetti, além de também ter sido adaptado ao teatro num musical de Filipe La Féria. Em 2020, enquanto parte das celebraçÔes do centenårio do nascimento da escritora, "A Menina do Mar" esteve no Teatro Luís de CamÔes com uma adaptação musical em que a orquestra foi dirigida por Martim Sousa Tavares, maestro e neto de Sophia.O impulso inicial foi crescendo na mesma medida em que os filhos a estimularam a criar mais e mais com a sua curiosidade insaciåvel. Sophia contava aos filhos e depois procurava passå-las para o papel, respeitando com fidelidade aquilo que dissera em voz alta. E chegou a um ponto em que algumas das histórias tiveram tanto de contadas quanto de escritas.

"O Cavaleiro da Dinamarca", de que aqui se apresenta a leitura de um trecho, foi lançado em 1964 e teria reediçÔes em 2014 e 2017. Conta a histĂłria de um cavaleiro que vive com a famĂ­lia em solo dinamarquĂȘs, viaja rumo Ă  Terra Santa e regressa. Nesses percursos registam-se inĂșmeras peripĂ©cias e o final Ă© para guardar sempre na memĂłria.

No caso d'"O Rapaz de Bronze", o livro estĂĄ recheado de momentos maravilhosos que acontecem num jardim de sonho. Foi editado pela primeira vez em 1966 com ilustraçÔes de Fernando de Azevedo (as ediçÔes seguintes teriam ilustração de JĂșlio Resende) e estĂĄ repartido em quatro capĂ­tulos: As Flores, O GladĂ­olo, Florinda e A Festa. Antes deste jĂĄ estavam editadas outras histĂłrias suas para crianças: a jĂĄ referida "A Menina do Mar" e "A Fada Oriana" (ambos de 1958), "A Noite de Natal" (1964) e o mencionado "O Cavaleiro da Dinamarca" (1964). Mais tarde vieram "A Floresta" (1968), "O Tesouro" (1970) e "A Árvore" (1985).

Passada no Porto, entre a famosa casa do Campo Alegre e o jardim, mas tambĂ©m com frequentes idas Ă  praia da Granja, a infĂąncia de Sophia de Mello Breyner Andresen (nasceu a 6 de novembro de 1919) teve marcas de enorme felicidade numa famĂ­lia bem instalada no plano social. Os lugares, ambientes e sentimentos foram de tal forma intensos que nĂŁo deixariam de estar bem presentes na sua escrita desde os primeiros poemas, escritos no final da adolescĂȘncia. Em Lisboa, de 1936 a 1939 passou pelo curso de Filologia ClĂĄssica na Faculdade de Letras, assim nascendo a profunda admiração pela Antiguidade ClĂĄssica, em particular pelo universo do helenismo que haveria de cultivar nas vĂĄrias visitas Ă  GrĂ©cia. Fascinada pela escrita, a sua entrada nos meios intelectuais processou-se no dealbar dos anos 40 atravĂ©s da colaboração na Revista de Poesia, ao lado de personalidades da Cultura de quem seria amiga como Ruy Cinatti ou Jorge de Sena. Em 1944 edita "Poesia", o trabalho de estreia em livro. Dois anos mais tarde casa-se com Francisco de Sousa Tavares, advogado, jornalista e polĂ­tico ao lado de quem terĂĄ cinco filhos, ganhando a sua obra literĂĄria uma outra dimensĂŁo, mais centrada em questĂ”es de Ă­ndole social e de contestação ao regime de Salazar. AliĂĄs, esse reconhecimento ficarĂĄ expresso na dedicatĂłria dos "Contos Exemplares", em 1962, feita ao marido: "Para o Francisco, que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual". E, no exemplar que lhe ofereceu, deixou uma diferente, mais pormenorizada nos desafios enfrentados pelo casal face Ă  repressĂŁo e vigilĂąncia da PIDE e da censura: "Para o Francisco, com a memĂłria dos inumerĂĄveis combates que travamos juntos todos os dias contra a estupidez, a mentira e a mediocridade. Com a minha confiança em todas as coisas verdadeiras e claras, em todas as matĂ©rias de Esperança". Ele chamava-lhe "Xixa", ela tratava-o por "Tareco". DĂ©cadas depois, chegariam tempos muito diferentes desses na sua relação, uma vez que, na segunda metade dos anos 80, divorciaram-se e Francisco Sousa Tavares iria casar-se com AmĂ©lia Brugnini em 1989.

Mas logo na dĂ©cada de 50, Sophia jĂĄ revelava antagonismo face ao Estado Novo, sobretudo quando JoĂŁo Andresen, arquiteto e seu irmĂŁo, ganhou um concurso sobre um monumento ao Infante D. Henrique a que chamou "Mar Novo", mas o ditador rejeitou o resultado desse concurso. Sophia publicou entĂŁo (1958) um livro de poesia com o nome do projeto do irmĂŁo, deixando bem vincado o seu asco pela opressĂŁo - o poema "Este Ă© o Tempo" Ă© elucidativo: "Este Ă© o tempo/Da selva mais obscura/AtĂ© o ar azul se tornou grades/E a luz do sol se tornou impura/Esta Ă© a noite/Densa de chacais/Pesada de amargura/Este Ă© o tempo em que os homens renunciam" - e a sua revolta. AliĂĄs, em entrevista que data de 1982 e foi recordada pela RĂĄdio Renascença no ano passado, a propĂłsito do centenĂĄrio da escritora, Sophia referia-se atĂ© Ă s primeiras recordaçÔes do que considerava revolta. "Na minha infĂąncia havia uma certa misĂ©ria nĂŁo escondida que depois desapareceu. Foi arrumada nĂŁo se sabe para onde pelo Estado Novo. Essa grande misĂ©ria muito patente era uma interrogação enorme, um escĂąndalo no meio do mundo e da infĂąncia. Em determinada altura, e por influĂȘncia de pessoas com quem convivi, esse escĂąndalo foi-se estruturando e tomando forma mais definida. O que era sĂł uma indignação ou um espanto ou uma angĂșstia foi-se transformando numa escolha polĂ­tica. A partir de certo momento pensei ser necessĂĄria uma luta pela justiça que passava pela polĂ­tica. O que estĂĄ na base da minha opção polĂ­tica Ă© o nĂŁo aceitar o escĂąndalo. É o nĂŁo aceitar que haja pessoas inteiramente sacrificadas. O considerar que nĂŁo Ă© possĂ­vel passar por cima do cadĂĄver dos outros ou por cima de vidas diminuĂ­das e desumanizadas", afirmou.

Continuava a escrever, não só poesia, mas também contos que, ao longo dos anos, ia criando para os filhos e se tornariam histórias para todas as geraçÔes de crianças: "A Menina do Mar", "A Fada Oriana", "A Noite de Natal", "O Cavaleiro da Dinamarca", "O Rapaz de Bronze", "A Floresta" ou "A Árvore" são exemplos.

Mas o cerco da ditadura nĂŁo parava Ă  volta do casal. Apoiantes da candidatura de Humberto Delgado Ă  PresidĂȘncia, sofreriam represĂĄlias, traduzidas no despedimento de Francisco do seu trabalho como subinspetor do trabalho. Quando Sophia escreve "Livro Sexto", em 1962, o poema "O Velho Abutre" Ă© o retrato perfeito do ditador: "O velho abutre Ă© sĂĄbio e alisa as suas penas/A podridĂŁo lhe agrada e seus discursos/TĂȘm o dom de tornar as almas mais pequenas". A PIDE estĂĄ sempre atenta Ă s movimentaçÔes em casa de Sophia e Francisco, regista os nomes de visitantes que se opĂ”em ao regime, tira fotografias, escuta-lhes o telefone, segue-os sem trĂ©guas. Numa outra entrevista, esta de 1989, tambĂ©m citada pela RĂĄdio Renascença, Sophia recorda vĂĄrias situaçÔes. "Antes do 25 de Abril tive muitos problemas, sim. NĂŁo me censuraram os livros, mas censuraram-me entrevistas, por exemplo. E censuraram-me poemas nos jornais. Sim, cortaram-me poemas inteiros. Às vezes eu nem percebia muito bem porquĂȘ. Revistavam a casa. Censuravam-me as cartas dos amigos. E tive vĂĄrios amigos presos", descreve. Mesmo sem ser considerada subversiva pela polĂ­cia polĂ­tica, ainda foi convocada para ir Ă  sede da PIDE, na Rua AntĂłnio Maria Cardoso, mas desarmou os facĂ­noras, ripostando com inteligĂȘncia e elegĂąncia ao interrogatĂłrio (jĂĄ o marido seria preso em 1966 e em 1968, depois de o casal ter sido proibido de sair do paĂ­s). A escritora integra movimentos catĂłlicos contra o regime, assina a Carta dos 101 CatĂłlicos a contestar a guerra colonial, Salazar e os incentivos da Igreja ao seu regime, empenha-se no apoio aos presos polĂ­ticos e ajuda a criar a ComissĂŁo Nacional que lhes servirĂĄ o auxĂ­lio possĂ­vel.

Quando MĂĄrio Soares, amigo e grande referĂȘncia no plano polĂ­tico, volta de SĂŁo TomĂ© jĂĄ com Marcelo Caetano no poder, depois de ter sido preso pela PIDE e deportado por ordem de Salazar, convida o casal para a integração nas listas da ComissĂŁo Eleitoral de Unidade DemocrĂĄtica (CEUD). A escritora seria candidata pelo cĂ­rculo do Porto em 1969. Reivindica eleiçÔes livres, algo que sĂł acontecerĂĄ depois do 25 de Abril, sobre o qual Ă© avisada pelo telefonema de um amigo a meio da madrugada. Dois dias depois escreve o poema dedicado Ă  Revolução, sendo esta um dos momentos mais alegres da sua vida e aqueles dias vividos "em estado de mĂĄxima levitação" como confessou a Eduardo Prado Coelho (em 1997 citaria Rimbaud, acentuando mesmo que, alĂ©m do sentido polĂ­tico, "a Revolução teve tambĂ©m um sentido poĂ©tico"). "A poesia estĂĄ na rua" Ă© uma frase de um poema seu que constituiu inspiração para a pintora Vieira da Silva.

De Soares voltou a partir um convite polĂ­tico e, pelo Partido Socialista, Sophia de Mello Breyner estaria na Assembleia Constituinte, tal como o marido, deixando marcas indelĂ©veis da sua lucidez e firmeza como, por exemplo, na intervenção de 1 de agosto de 1975 em que critica aquilo que considerou o desvirtuamento da Revolução "pelo abuso e pela avidez de poder das falsas vanguardas ideolĂłgicas". Ou ainda na de 2 de setembro, dedicada Ă  Cultura, como lembrou Manuel Alegre Ă  RĂĄdio Renascença. "Sabemos que toda a cultura real trabalha para a libertação do homem e que, por isso, toda a cultura real Ă©, na sua raiz, revolucionĂĄria. Sabemos que nĂŁo podemos construir, de facto, o socialismo se nĂŁo ultrapassarmos o uso burguĂȘs da cultura. A cultura nĂŁo Ă© um luxo de privilegiados. Se o homem Ă© capaz de criar a revolução, Ă© exatamente porque Ă© capaz de criar a cultura", disse. Abandonou o Parlamento apĂłs a Constituinte e, anos depois, confessou que fora uma experiĂȘncia penosa, porque "estar ali sentada a ouvir falar, falar, falar, era uma agonia". O desencanto pesou demasiado e os convites seguintes para cargos pĂșblicos foram recusados - seria apenas chanceler das Ordens HonorĂ­ficas durante trĂȘs anos, outra vez a solicitação de Soares -, embora nĂŁo deixasse de estar ao lado de MĂĄrio Soares e de Jorge Sampaio nas Presidenciais, alĂ©m de defender a independĂȘncia de Timor-Leste.

Prémio CamÔes em 1999, dois acidentes vasculares cerebrais deixam-na muito debilitada a partir do ano seguinte. Morre a 2 de julho de 2004 em Lisboa. A sua admirada obra é extensa, percorre os territórios de poesia, prosa, contos para crianças, ensaios e teatro, sendo ainda muito elogiadas as suas traduçÔes.

A obra de Sophia de Mello Breyner jå fora abordada aqui no blog por vozes diferentes: eu li o seu poema intitulado "25 de Abril", precisamente no especial dedicado ao Dia da Liberdade; depois, a jornalista Berta Rodrigues, a 4 de maio, com a leitura de um excerto do livro "O Rapaz de Bronze"; a seguir, a 29 de junho, a também jornalista Carla Martins Costa apresentou um trecho do livro "A Menina do Mar". Fernanda Silva leu um pouco do livro "O Cavaleiro da Dinamarca" a 5 de dezembro.


AssĂ­ro & Alvim (poema inserido na obra "Livro Sexto")


A obra de Sophia tem no classicismo e em temas da Natureza parte da inspiração, mas também imortalizou o 25 de Abril, classificado como "o dia inicial inteiro e límpido".

AlĂ©m de ser a Ășnica mulher que, atĂ© hoje, venceu o PrĂ©mio Leya, e logo no livro de estreia, Gabriela Ruivo Trindade tambĂ©m foi distinguida com o PEN Clube PortuguĂȘs Primeira Obra atribuĂ­do em função de "Uma Outra Voz" (neste caso, ex-aequo com o ensaio de Susana JoĂŁo Carvalho intitulado "AntĂłnio Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar"). Em 2016, a autora publicou o conto infantil "A Vaca Leitora" e tem participação em diversas antologias de poesia e contos como "Contos da Emigração - Homens que Sofrem de Sonhos". No ano passado publicou o livro de poesia "Aves MigratĂłrias". A partir de fevereiro, numa parceria com o escritor Nuno Gomes Garcia, que vive em Paris, criou o site mapasdoconfinamento.com Passear pelo site Ă© partir Ă  procura dos trabalhos e dos cerca de 100 nomes que o compĂ”em – de Maria Teresa Horta a Ondjaki, Afonso Cruz, Aida Gomes ou Almeida Cumbane; de Teresa dos Santos a Goretti Pereira; de Lelena Lucas a Heduardo Kiesse, desfilando por diferentes formas de fazer Cultura. E se a uniĂŁo Ă© feita a partir da lĂ­ngua portuguesa, nĂŁo se limita a ficar por aĂ­: cada texto ecoa depois em inglĂȘs e francĂȘs para que (muitos) mais sejam atraĂ­dos. Um projeto de multiculturalidade que estĂĄ em constante enriquecimento.

 
 
 

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