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  • Paulo Jorge Pereira

Agostinho Costa Sousa lê "Esta Gente/Essa Gente", de Ana Hatherly


Não foi apenas na poesia que Ana Hatherly se destacou - o seu vasto trabalho estende-se às artes visuais (pintura, desenho, cinema) e à docência universitária. Agostinho Costa Sousa escolheu o poema "Esta Gente/Essa Gente" para lembrar um grande nome da Cultura portuguesa, desaparecido em 2015.



O poema que hoje é aqui lido por Agostinho Costa Sousa integra uma antologia intitulada "Poesia 1958/1978", na qual se reúne o trabalho poético da autora nesse período. Mas, mais do que tudo o resto, era à música que Ana Hatherly pretendia dedicar-se. Contudo, "um problema de saúde" não lho permitiu, conforme confessou em entrevista a Ana Sousa Dias na RTP em 2004, no programa "Por Outro Lado". "Tentei ser cantora lírica. Quando estava numa fase relativamente adiantada fui para a Alemanha para me especializar em música barroca. Ia recomendada, fui ter com um maestro muito conhecido que já morreu, ele pediu-me que cantasse alguma coisa, eu cantei e ele disse: 'Tem tudo menos corpo.' Eu era muito magrinha, era soprano muito agudo, mas ele disse que não tinha estrutura para aguentar. Insisti e, ao fim de alguns meses nas aulas particulares, fui direta para o sanatório na Suíça com perfuração num pulmão", recordou. A música voltava-lhe as costas, mas as artes não o fariam. Hatherly passou um ano no sanatório numa estância de esqui, local com ressonâncias na Literatura: da janela do seu quarto via a casa onde vivera a contista neozelandesa Katherine Mansfield e era a terra onde Paul Célan passara férias. Vendo-a desolada por não ter possibilidades de fazer carreira musical, o médico que a tratara ofereceu-lhe uma Parker de tinta permanente e alento para que não deixasse de tentar outras vias nas artes. "A criatividade é como um prego num saco - encontra sempre saída para a ponta. Se tem alguma capacidade criadora, experimente escrever. É bem mais descansado do que cantar", disse-lhe. Aceitou o conselho do psicólogo e a Cultura ficou a ganhar.

Ana Hatherly nascera no Porto, a 8 de maio de 1929. Perdeu os pais ainda muito jovem e ficou entregue aos cuidados da avó materna, "uma pessoa extraordinária e muito católica". Admite que a avó lhe contava muitas histórias e que, quando escreveu a obra "351 Tisanas", "poemas em prosa ou semi-fábulas, talvez ela tenha ressuscitado um pouco nesse meu método de contar". Outra influência da avó foi a sua paixão pelo cinema, as frequentes visitas ao Rivoli e o facto de o seu filme favorito ser "O Homem Invisível". "Povoou a minha infância de terror numa casa antiga em que o chão rangia e as portas chiavam", lembrou a rir na conversa com a jornalista. Recebeu uma educação "muito severa, num ambiente tradicional", que incluía presença regular na Capela das Almas, na rua de Santa Catarina. Desses contactos com o barroco resultou a sua paixão pelo estilo em que iria especializar-se quando se tratou de fazer investigação universitária. Depois do abalo que foi a perda de uma carreira musical, em 1958 publicou o primeiro livro, "Um Ritmo Perdido", ao qual se seguiram "As Aparências" e "A Dama e o Cavaleiro". "Com os primeiros três livros não acreditei muito que fosse algo capaz de compensar por aquela perda que considerava irreparável", contou a Ana Sousa Dias. Na década de 60 adere ao movimento da Poesia Experimental com António Aragão, Herberto Helder, Melo e Castro, Salette Tavares, entre outros, tornando-se uma figura da vanguarda literária até aos anos 80. "Encontrei aí a minha saída para a revolta, raiva e indignação que sentia com coisas que se tinham passado na minha vida e estavam a passar-se no país", lembrou na entrevista citada. Entretanto, trabalhava também na representação visual da escrita, em pintura e desenho, fazendo diversas exposições em Portugal e fora do país. Durante décadas vai estudar a caligrafia chinesa, mostrando que "a escrita ocidental é tão bela como a oriental" e que era necessário "as pessoas deixarem de ler para poderem ver". No fundo, mostrou "a escrita e não o escrito, a representação visual e não a semântica", conforme apresentou em "Mapas da Imaginação e da Memória".

Licenciada em Filologia Germânica, oferece a si própria um curso de cinema na London Film School com especialização em Animação. Passa por Lisboa a caminho do Egipto na véspera do 25 de Abril e fica, só muito mais tarde cumprindo o projeto de visitar o país africano. Graças à oferta de uma câmara Super 8 por parte de uma amiga italiana, sai à rua para imortalizar em filme os cartazes e as pinturas que pululavam por Lisboa no período após a Revolução. "Filmava e arrancava algumas das coisas para fazer depois um trabalho de montagem que está no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian [nove painéis com o título "Descolagens"], mas fui muitas vezes agredida porque as pessoas pensavam que eu era contra aquilo que estava nos cartazes", recordou. Em 1976, o filme que dali resultou, intitulado "Revolução", é exibido na Bienal de Veneza. De súbito viu-se sem dinheiro, teve de vender a casa e tudo o que tinha para sobreviver até dispor de trabalho. Entre 1977 e 1979 inova na RTP, apresentando em direto o programa "Obrigatório Não Ver", sempre à meia-noite.

Em 1980 candidata-se a um lugar de professora nos Estados Unidos, recebendo um convite da Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde aproveitaria para se doutorar em Literaturas Hispânicas. Era assistente, ensinava Português e, com o salário de professora, pagava os 10 mil dólares correspondentes às propinas. Faz algumas traduções, sobretudo de poesia, de que é exemplo parte da obra de Rilke. E continua a escrever - num intervalo de 30 anos, publica quase três dezenas de livros de entre poesia e prosa, recebendo diversos prémios. No ramo do ensino, passa também pela Escola Superior de Cinema e no AR.CO lisboeta. Mais tarde chega a integrar a direção da Associação Portuguesa de Escritores e ajuda a criar o PEN Clube, passando mesmo pela sua presidência. Professora catedrática no departamento de Literatura Portuguesa da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova, ali ajudou a criar e presidiu ao Instituto de Estudos Portugueses.

Morreu a 5 de agosto de 2015 com 86 anos.


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A obra literária de Ana Hatherly foi assunto aqui em estreia a 31 de maio de 2020 quando Inês Henriques leu um excerto de "351 Tisanas".

Agostinho Costa Sousa reside em Espinho e socorre-se da frase de Antón Tchekhov: "A medicina é a minha mulher legítima, a literatura é ilegítima" para se apresentar. "A Arquitetura é a minha mulher legítima, a Leitura é uma das ilegítimas", refere. Estreou-se a ler por aqui a 9 de maio com "A Neve Caindo sobre os Cedros", de David Guterson, seguindo-se "As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino, a 16 do mesmo mês, mas também leituras de obras de Manuel de Lima e Alexandra Lucas Coelho a 31 de maio. "Histórias para Uma Noite de Calmaria", de Tonino Guerra, foi a sua escolha no dia 4 de junho. No passado dia 25 de julho, a sua escolha recaiu em "Veneno e Sombra e Adeus", de Javier Marías, seguindo-se "Zadig ou o Destino", de Voltaire, a 28. O regresso processou-se a 6 de setembro, com "As Velas Ardem Até ao Fim", de Sándor Márai. Seguiram-se "Histórias de Cronópios e de Famas", de Julio Cortázar, no dia 8; "As Palavras Andantes", de Eduardo Galeano, a 11; "Um Copo de Cólera", de Raduan Nassar, a 14; e "Um Amor", de Sara Mesa, no dia 16. A 19 de setembro, a leitura escolhida foi "Ajudar a Estender Pontes", de Julio Cortázar. A 17 de outubro, a proposta centrou-se na poesia de José Carlos Barros com três poemas do livro "Penélope Escreve a Ulisses". Três dias mais tarde leu três poemas inseridos na obra "A Axila de Egon Schiele", de André Tecedeiro. A 29 do mês passado apresentou "Inquérito à Arquitetura Popular Angolana", de José Tolentino de Mendonça. De dia 1 é a leitura de "Trieste", escrito pela croata Dasa Drndic e, no dia 3, a proposta foi um trecho do livro "Civilizações", escrito por Laurent Binet. No dia 5, Agostinho Costa Sousa dedicou atenção a "Viagens", de Olga Tokarczuk. A 7, a obra "Húmus", de Raul Brandão, foi a proposta apresentada. Dois dias mais tarde, a leitura foi dedicada a um trecho do livro "Duas Solidões - O Romance na América Latina", com Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Seguiu-se "O Filho", de Eduardo Galeano, no dia 20. A 23, Agostinho Costa Sousa trouxe "O Vício dos Livros", de Afonso Cruz.

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