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  • Paulo Jorge Pereira

Especial Centenário de Clarice Lispector com Inês Henriques e Sandra Escudeiro

Updated: Dec 12, 2020

No dia em que a escritora Clarice Lispector completaria 100 anos, aqui se apresentam leituras de Inês Henriques e Sandra Escudeiro feitas de propósito para assinalar esta data. Neste caso, Inês Henriques lê um conto do livro "Felicidade Clandestina".



"Felicidade Clandestina" é, em simultâneo, um dos 25 contos que compõem o livro e o próprio título do mesmo. Lispector publicou-o em 1971, incluindo alguns contos que já conheciam publicação, pois Clarice escreveu-os a partir de 1967 sob a forma de crónicas no Jornal do Brasil, abordando temas como família, adolescência ou a sua infância no Recife. Os outros 24 contos que fazem parte da obra são os seguintes: "Uma Amizade Sincera", "Miopia Progressiva", "Restos do Carnaval", "O Grande Passeio", "Come, meu Filho", "Perdoando Deus", "Tentação", "O Ovo e a Galinha", "Cem Anos de Perdão", "A Legião Estrangeira", "Os Obedientes", "A Repartição dos Pães", "Uma Esperança", "Macacos", "Os Desastres de Sofia", "A Criada", "A Mensagem", "Menino a Bico de Pena", "Uma História de Tanto Amor", "As Águas do Mundo", "A Quinta História", "Encarnação Involuntária", "Duas Histórias a meu Modo" e "O Primeiro Beijo". Foi o quarto livro de contos da autora. "Clandestina Felicidade", uma curta-metragem de 1998, baseia-se precisamente em "Felicidade Clandestina".

Nascida na então República Popular da Ucrânia a 10 de dezembro de 1920, filha de pais judeus numa família que sofrera com as perseguições em massa (pogroms), o seu nome era Chaya Pinkhasovna Lispector. Dois anos depois seguiu com a família para o Brasil, onde vivia a sua tia materna, na fuga ao antissemitismo e à destruição causada pela guerra civil. Lá se tornou Clarice, cedo mostrando aptidões para a escrita. Desde os 13 anos que sentiu vontade de ser escritora (com sete anos já sabia ler e escrever). A infância fora agitada, com marcas de pobreza extrema e de perdas irreparáveis. De Maceió para o Recife e daqui para o Rio de Janeiro, por entre gritante instabilidade financeira da família, Clarice e as irmãs (Tania e Elisa) perderam a mãe, Mania Krimgold Lispector, para quem chegara a inventar jogos com frases, em 1930. Tentaria mais tarde atenuar os problemas de ordem económica na família ao dar explicações de Português e Matemática e tornou-se uma leitora persistente, admirando Machado de Assis, Dostoievski, Monteiro Lobato e Herman Hesse. Já escrevia e enviou mesmo contos para a secção infantil do Diário de Pernambuco, mas nunca teve direito a publicação.

Em 1940 morreu o pai, Pinkhas (que passara a ser Pedro no Brasil), numa fase em que Clarice era estudante universitária de Direito, trabalhava num escritório de advocacia e fazia traduções de textos científicos. Com a morte do pai, Elisa e Tania foram morar para casa de Elisa, já casada com William Kaufmann. Clarice estava saturada do seu emprego e, apesar da discriminação por ser mulher, foi à procura de acesso ao jornalismo, nessa altura sob controlo e censura do governo liderado por Getúlio Vargas. Visitou diversas redações, distribuiu os seus contos e, na revista Vamos Ler!, acabou por conseguir as primeiras publicações. Mais tarde, foi contratada para a Agência Nacional por Lourival Fontes, secretário do ministro da Propaganda. Aqui conhece e apaixona-se pelo escritor e jornalista Lúcio Cardoso, mas não é correspondida, uma vez que o mineiro era homossexual. O seu trabalho jornalístico vai crescendo, viaja, faz entrevistas e escreve reportagens, não deixa de escrever contos. Inicia uma relação que resultará em casamento, a 23 de janeiro de 1943, com Maury Gurgel Valente, seu colega em Direito e futuro diplomata.

Antes, em 1942, passa a escrever para o jornal A Noite, lê Espinosa, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Manuel Bandeira e escreve "Perto do Coração Selvagem", obra de estreia que é publicada em dezembro do ano seguinte, altura em que Clarice e o marido se licenciam em Direito. O marido torna-se vice-cônsul e o casal instala-se em Belém a partir de janeiro de 1944, mas um ano mais tarde Maury Gurgel é indigitado para o consulado em Nápoles e ruma a Itália primeiro, ainda sem Clarice. A escritora só a 30 de julho começou uma viagem que a levaria a escalas na Libéria, Guiné-Bissau, Senegal, Portugal - onde conhece personalidades do meio literário como João Gaspar Simões, Natércia Freire e Maria Archer -, Marrocos e Argélia, chegando a Nápoles a 24 de agosto. Em Itália recebe a notícia de que o primeiro livro foi premiado e termina o segundo, intitulado "O Lustre", publicado em 1946. Regressa ao Brasil durante três meses como correio diplomático e, no início de março, o marido é transferido para Berna e a mulher acompanha-o.

Clarice combate as rotinas com a escrita de contos que vai publicando em jornais e renova leituras, descobrindo Simone de Beauvoir, Jean Cocteau e Henrik Ibsen. A 10 de agosto de 1948, é mãe pela primeira vez. Ao filho Pedro se juntará Paulo, nascido a 10 de fevereiro de 1953, numa altura em que Clarice e o marido vivem já em Washington face ao seu cargo de diplomata na capital norte-americana. Pelo meio publica "A Cidade Sitiada" (1949), mas a sua vida sofre um novo abalo quando é diagnosticada esquizofrenia ao filho mais velho. É num período em que se dedica por inteiro a levar Pedro aos médicos que decide divorciar-se, em 1959, voltando a viver no Brasil. Volta às traduções depois de uma longa interrupção. E, acima de tudo, escreve muito, em jornais e não só, também para exorcizar sentimentos de culpa com a doença de Pedro. Livros de contos como "Laços de Família" (1960) e "A Legião Estrangeira" (1964) ou romances: "A Maçã no Escuro" (1961) e "A Paixão segundo G.H." (1964).

Um cigarro esquecido aceso durante a noite provoca um incêndio em casa e, devido à gravidade das queimaduras, quase lhe causa a morte em setembro de 1966. A recuperação é dolorosa, mas Clarice dedica-se a escrever para os filhos "O Mistério do Coelho Pensante" (1967) e "A Mulher que Matou os Peixes" (1968) - mais tarde, a sua obra de literatura infantil incluirá "A Vida Íntima de Laura" (1974), "Quase de Verdade" (1978) e "Como Nasceram as Estrelas" (1987), os dois últimos em publicação póstuma. Mas também há inspiração para romances como "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres" (1969) e "Água Viva" (1973) e livros de contos - "Onde Estivestes de Noite" e "Via Crucis" (ambos de 1974). Entretanto, agrava-se a esquizofrenia de Pedro para angústia de Clarice. Escreve mais, escreve ainda e sempre: "O Ovo e a Galinha" e "A Hora da Estrela", ambos de 1977. É, aliás, pouco depois da publicação deste último que descobre a doença: sofre de cancro num ovário em estado muito adiantado e com metástases espalhadas pelo corpo. Internada no hospital, morre na véspera de completar 57 anos, a 9 de dezembro de 1977. Mesmo assim, não cessam de ser publicados livros que deixou escritos como "Um Sopro de Vida" ou "A Bela e a Fera".

A obra de Clarice Lispector foi várias vezes abordada aqui no blog. Inês Henriques apresentou-a em estreia a 27 de abril com um excerto de "Perto do Coração Selvagem"; a professora universitária Stefania Chiarelli leu um pouco de "Felicidade Clandestina", que agora aqui está de volta, a 9 de julho; Maisa Barbosa mostrou um trecho de "Todas as Crónicas" a 15 de agosto; Sandra Escudeiro apresentou uma leitura de "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" a 2 de outubro.


Relógio d'Água

"Felicidade Clandestina" é o título do livro e, em simultâneo, de um dos 25 contos que o integram.

Inês Henriques tem presença regular e soma a oitava participação aqui no blog. Estreou-se a 27 de abril com "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector; voltou a 10 de maio e leu um excerto de "A Disciplina do Amor", de Lygia Fagundes Telles; no último dia de maio apresentou parte de "351 Tisanas", obra de Ana Hatherly; a 28 de junho, propôs literatura de cordel, com um trecho do livro "Clarisvânia, a Aluna que Sabia Demais", escrito por Luís Emanuel Cavalcanti, a 22 de agosto apresentou um excerto da obra "Contos de Amor, Loucura e Morte", escrita por Horacio Quiroga, a 15 de setembro leu um trecho de "Em Açúcar de Melancia", de Richard Brautigan, e a 18 de novembro voltou com "Saudades de Nova Iorque", de Pedro Paixão.



No dia em que a escritora Clarice Lispector completaria 100 anos, aqui se apresentam leituras de Sandra Escudeiro e Inês Henriques feitas de propósito para assinalar esta data. Neste caso, Sandra Escudeiro lê dois fragmentos escritos por Lispector.



Sandra Escudeiro, que se identifica como "uma amante da Leitura", tem presença regular aqui no blog, nasceu em 1973 e vive em Vila Nova de Famalicão. É a dinamizadora do "Clube de Leitores", na biblioteca escolar da Escola Básica de Ribeirão, onde trabalha há 11 anos. Por outro lado, é também artesã e, em part time, dedica-se à trapologia desde 2009. Inspira-se na literatura e nos seus autores, idealiza e constrói bonecos exclusivos em trapos designados "Bonecos Urbanos", aqui surgindo as "Figuras Literárias", isto é, bonecos que caracterizam os mais importantes escritores, diversas personagens das histórias infantis bem como outros seres idealizados na imaginação da criadora. Podem acompanhar aqui o seu maravilhoso trabalho: bonecosurbanos.blogspot.com.

Esta é a sua sétima presença aqui no blog. Tudo começou com a leitura do poema "A Espantosa Realidade das Coisas", de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa, a 15 de junho; seguiram-se "O Limpa-Palavras", de Álvaro Magalhães, a 26 desse mês; "Canção na Massa do Sangue", de Jacques Prévert, a 30 de julho; "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector, a 2 de outubro; "Só" e "O Poço é o Pêndulo", de Edgar Allan Poe, foram as suas leituras de 2 de novembro; no dia 21 desse mês regressou com "Os Transparentes", de Ondjaki.

Relógio d'Água

Sandra Escudeiro é também artesã e dedica-se à trapologia desde 2009: inspira-se na Literatura e nos seus autores, idealiza e constrói bonecos exclusivos em trapos a que chama "Bonecos Urbanos".


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