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  • Paulo Jorge Pereira

Especial Dia Mundial do Teatro com Armando Liguori Junior e Fernanda Silva

No Dia Mundial do Teatro aqui ficam propostas apresentadas por Armando Liguori Junior ("A Gaivota", de Anton Tchekhov) e por Fernanda Silva ("O Marinheiro", de Fernando Pessoa).



Médico que foi escritor ou escritor que era médico? A pergunta teve resposta do próprio Anton Pavlovitch Tchekhov quando reconheceu que a Medicina era a sua mulher e a Literatura uma espécie de amante. Mesmo assim, com esta relação irregular, escreveria mais de uma centena de contos, além de peças de teatro como "A Gaivota", de que aqui se apresenta um excerto, cinco romances e dois livros de ensaios.

Tchekhov nasceu em Taganrog, no então Império Russo, a 17 de janeiro de 1860. Os pais, Eugenia Jakovlevna e Pavel Egorovic Tchekhov, tinham uma vida modesta com base numa pequena loja. Com quatro irmãos e duas irmãs (uma morreu nos primeiros anos de existência), o pequeno Anton fez o que pôde para ajudar os pais no negócio. Cercado por dívidas, o pai esteve perto de ser detido pelas autoridades, mas conseguiu escapar e foi viver para Moscovo, onde já estudavam dois dos filhos, depois se juntando também a mãe de Tchekhov. O futuro escritor ficaria, aos 17 anos, a viver com o irmão Michail, um pouco mais novo, na Taganrog natal. Depois viveu dois anos sozinho, uma vez que o irmão já se reunira com o resto da família, foi dando aulas privadas, mas, em 1879, também seguiu rumo a Moscovo. Aqui se dedicaria ao estudo da Medicina, licenciando-se em 1884, numa fase em que já ia publicando artigos em diferentes jornais ou revistas. Quatro anos mais tarde, a revista Severnyi Vestnik publica "A Estepe", um dos romances de Tchekhov.

De 1889 é a morte de um dos irmãos (Nikolai), vítima de tifo e tuberculose, algo que deixa o jovem médico e escritor deprimido. Apesar de tudo, não deixa de escrever e de publicar. Influenciado pela investigação que o irmão procurava realizar sobre prisões quando morreu, Anton enfrentou uma duríssima viagem até Sacalina em 1890, aqui permanecendo durante vários meses a entrevistar detidos (deste trabalho resultará o ensaio "A Ilha de Sacalina"). No regresso a Moscovo, o escritor faz escalas em Vladivostok, na ilha de Ceilão (atual Sri Lanka) e em Odessa. "O Duelo" surge em 1891, sendo a obra primeiramente apresentada por capítulos no Novo Tempo. Mostra o seu lado beneficente ao apoiar e contribuir para o apoio a agricultores vítimas da seca na região oriental da Rússia. Muda-se para Melichovo, a pouco mais de 60 km da capital russa, com os familiares em 1892, numa tentativa de acalmar a tuberculose que o ataca de forma por vezes contundente. Repete as campanhas de auxílio a quem mais precisa, não só através do apoio à construção de infraestruturas, mas também com a oferta do seu trabalho médico às classes mais desfavorecidas. Dá início, em 1894, à escrita da peça "A Gaivota", mas a estreia nada tem de auspiciosa e chega a ser vaiada, algo que faz Tchekhov refletir se não será melhor deixar de escrever peças.

A resposta vem sob a forma de nova encenação e representação - com o famoso Constantin Stanislavski, que entrará na História como criador do designado Método, influência determinante para várias gerações de atores -, desta feita aclamadas pelo público. O sucesso modifica-lhe os planos e Tchekhov acaba por escrever outras três peças para a companhia, mas a debilidade da sua saúde é um perigo constante: em 1896, uma hemorragia nos pulmões obriga-o a passar por internamento e a ouvir uma temível mensagem: "Se não alterar o seu estilo de vida, a morte virá mais depressa do que pensa." Impressionado e "convidado" a alterar o seu ritmo de vida, Tchekhov torna a mudar de cidade, agora para perto de Ialta, aqui passando a viver após a morte do pai, registada em 1898. Tolstoi e Gorki serão visitas para longas conversas sobre Arte e não só, enquanto Tchekhov escreve "As Três Irmãs" e "O Jardim das Cerejeiras".

A 25 de maio de 1901, Tchekhov casa-se com a atriz Olga Knipper, mas a infelicidade persegue-os e, no ano seguinte, Olga perde uma criança durante a gravidez. A dureza da perda leva a que demorem a recuperar e, em 1903, trocam Ialta pela cidade alemã de Badenweiler, em plena Floresta Negra. A doença de Tchekhov é, no entanto, irreversível e o escritor, cada vez mais debilitado, acaba mesmo por perder a vida a 15 de julho de 1904 com apenas 44 anos.

No género dramático publicou "Platonov" (Безотцовщина, para alguns conhecida como "Órfão ou Peça sem Título" [Пьеса без названия], 1881); "Malefícios do Tabaco" (О вреде табака, 1886); "Ivanov" (Иванов, 1887); "O Urso" (Медведь, 1888); "O Pedido de Casamento" (Предложение); "O Casamento" (Свадьба); "O Demónio da Madeira" (Леший), "Tatiana Repina" (Татьяна Репина) e "Inevitavelmente Trágico" (Трагик поневоле, todas peças de 1889); "A Festividade" (Юбилей, 1891); "A Gaivota" (Чайка, 1896); "Tio Vânia" (Дядя Ваня, 1900); "As Três Irmãs" (Три сестры, 1901) e "O Jardim das Cerejeiras" (Вишнёвый сад, 1904). Os cinco romances são "A Estepe" (Степь, de 1888); "O Duelo" (Дуэль, 1891); "A História de um Desconhecido" (Рассказ неизвестного человека, 1893); "Três Anos" (Три года, 1895) e "Minha Vida" (Моя жизнь, 1896).

Editora Biruta


"A Gaivota" começou por ter estreia vaiada, mas uma reformulação e reencenação do projeto, com intervenção do famoso Constantin Stanislavski, transformou-se num sucesso.

Armando Liguori Junior, ator e jornalista de formação, tem três livros publicados; dois de poemas ("A Poesia Está em Tudo" – Editora Patuá 2020; "Territórios" – Editora Scortecci 2009; e um de dramaturgia: "Textos Curtos para Teatro e Cinema (2017) – Giostri Editora). Atualmente mantém um canal no YouTube (Armando Liguori), dedicado a leituras literárias, especialmente de poesia. Estreou-se nas leituras aqui para o blog com "Se te Queres Matar Porque Não te Queres Matar?", de Álvaro de Campos, a 15 de julho, seguindo-se "Continuidades", de Walt Whitman, a 7 de agosto e "Matteo Perdeu o Emprego", de Gonçalo M. Tavares, a 11 de setembro. A 16 de outubro, três dias antes da publicação, o Armando deu-me a honra de nos dar a "ouver" um trecho do segundo livro que publiquei, "Murro no Estômago". No dia 12 de fevereiro apresentou "Pelo Retrovisor", de Mário Baggio.

No Dia Mundial do Teatro, Fernanda Silva, que tem presença regular aqui no blog, apresenta "O Marinheiro", escrito por Fernando Pessoa de um dia para o outro no último trimestre de 1913.



Na origem de um universo complexo, formado por diferentes temáticas e numerosos heterónimos, está um dos principais nomes da poesia lusófona e figura central do movimento modernista, Fernando António Nogueira Pessoa, nascido no quarto andar do número 4 do Largo de São Carlos, o edifício em frente ao Teatro Nacional de São Carlos, a 13 de junho de 1888, em Lisboa. A infância foi atribulada, pois, com apenas cinco anos, Pessoa perdeu o pai, Joaquim de Seabra Pessoa, vítima de tuberculose, e também o irmão Jorge, no ano seguinte. Com dificuldades financeiras, a mãe, Maria Madalena, mudou-se para o número 104 da rua de São Marçal e iria casar-se com João Miguel Rosa a 30 de dezembro de 1895. Viveu durante nove anos na cidade sul-africana de Durban, pois ali o seu padrasto desempenhava a missão de cônsul. Tornou-se fluente também em inglês, foi um estudante notável numa escola católica irlandesa, criou o pseudónimo Alexander Search, começou a escrever poesia em inglês e perdeu uma irmã, Madalena Henriqueta, que morreu com dois anos. Volta a Lisboa com a família para férias e aqui nasce João Maria, quarto filho do segundo casamento da mãe. Visitam os Açores e Tavira para contactar com familiares, mas o jovem Fernando, sentindo que a mãe lhe dedica menos atenção, começa a ficar distanciado do resto da família. De tal forma que fica em Lisboa algum tempo mesmo depois de os outros familiares voltarem para Durban. Quando regressa, estuda durante o dia na área de Letras com o objetivo de se tornar universitário, mas à noite está na Durban Commercial School. Com o nome de David Merrick faz tentativas de escrita de contos e, em 1903, falha a entrada na Universidade do Cabo, embora seja agraciado com o prémio Rainha Vitória porque o seu ensaio em inglês obtém a melhor classificação entre mais de oito centenas de candidatos. Passa outro ano na escola em solo sul-africano e aprofunda conhecimentos de Literatura antes de viajar sozinho para Lisboa onde irá viver com uma avó e duas tias.

Aos 17 anos, tenta o curso superior de Letras, mas deixa-o ao fim de um ano sem sucesso. Passa para uma aprendizagem por conta própria, "devorando" na Biblioteca Nacional livros sobre disciplinas que o fascinavam: Filosofia, Literatura, Sociologia e Religião. Não tardou a aventurar-se no universo da escrita - primeiro, pelo lado da crítica (1912); depois, pela via da prosa criativa (uma parcela do "Livro do Desassossego", publicada no ano seguinte); e logo com a publicação de poemas (1914). Pelo meio, de um dia para o outro no último trimestre de 1913, escreve "O Marinheiro", peça que só será representada depois de Pessoa morrer e sobre a qual, numa carta endereçada a Armando Côrtes-Rodrigues em março de 2015, por alturas da primeira publicação do texto na revista Orpheu, dirá: "O meu drama estático 'O Marinheiro' está bastante alterado e aperfeiçoado; a forma que v. conhece é apenas a primeira e rudimentar. O final, especialmente, está muito melhor. Não ficou, talvez, uma cousa grande, como eu entendo as coisas grandes; mas não é cousa de que me envergonhe, nem – creio – me venha a envergonhar."

Sobre o que vem a ser isso de "teatro estático", o poeta cuidou de explicar: "Chamo teatro estático àquele cujo enredo dramático não constitui ação – isto é, onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma ação; onde não há conflito nem perfeito enredo. Dir-se-á que isto não é teatro. Creio que o é porque creio que o teatro tende a teatro meramente lírico e que o enredo do teatro é, não a ação nem a progressão e conseqüência da ação – mas, mais abrangentemente, a revelação das almas através das palavras trocadas e a criação de situações (...) Pode haver revelação de almas sem ação, e pode haver criação de situações de inércia, momentos de alma sem janelas ou portas para a realidade", escreveu o próprio Pessoa.

A vida pessoal tinha contornos de saltimbanco, uma vez que tanto precisava de viver com familiares como de se isolar em quartos alugados. No capítulo profissional, não era dos livros que extraía rendimento - em vida publicou apenas "Mensagem" e três obras em inglês -, mas sim do trabalho como tradutor e a escrever cartas comerciais em inglês ou francês. Vai participar em tertúlias literárias no café A Brasileira (mas também no Martinho da Arcada) com amigos como Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro ou António Botto, transformando-se em elemento preponderante do Modernismo que, em 1915, participa na revista Orpheu (dirige mesmo o segundo e último número em parceria com Mário de Sá-Carneiro) e, em 1924, ajuda a lançar a Athena - aqui publica poesia em seu nome, mas também nos dos heterónimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Pelo meio conhece Ofélia Queirós que ficará na biografia do poeta como a única namorada da sua vida. Conhecem-se em maio de 1920, quando a então jovem de 19 anos entra no escritório onde trabalha Pessoa para ser datilógrafa, mas a morte do padrasto, o regresso a Lisboa da mãe do poeta e a questão de Ofélia passar a viver mais longe representam demasiado peso, pelo que a relação parece acabada em novembro de 1920. A mãe morre em 1925 e Pessoa passa a viver na rua Coelho da Rocha, aqui produzindo milhares de páginas de obra dispersa e variada: poesia, textos filosóficos e políticos (chega a escrever contestação e críticas a Salazar e à ditadura), teatro, contos (alguns deles policiais), crítica literária, traduções e até horóscopos. Sim, porque na referida carta de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, o poeta escreve sobre o seu gosto por astrologia e pelo ocultismo: "Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo."

Escreve sempre muito, muitas vezes no café Martinho da Arcada, e em diferentes superfícies, sejam cadernos ou anúncios, na parte de trás de cartas, em panfletos, papel com o selo das firmas para as quais trabalha ou simples folhas soltas. Charles Robert Anon e Jean Seul serão outros dos nomes que integram a extensa lista de heterónimos. Em 1929, retoma o relacionamento e as cartas trocadas com Ofélia, mas é um amor platónico. As bebidas alcoólicas tornam-se uma companhia constante na vida de Pessoa, algo que acabará por apressar-lhe o fim. Internado no hospital de São Luís dos Franceses a 29 de novembro de 1935, o poeta morre no dia seguinte, aos 47 anos.

A obra assinada por Fernando Pessoa ou pelos seus heterónimos já aqui teve várias presenças: eu li um excerto do "Livro do Desassossego", assinado por Bernardo Soares, a 9 de abril; mais tarde, a 15 de junho, nova leitura de parte da obra com assinatura de um heterónimo, dessa vez com "A Espantosa Realidade das Coisas", na voz de Sandra Escudeiro; a 15 de julho foi vez de Armando Liguori Junior apresentar "Se Te Queres Matar Porque Não Te Queres Matar?", de Álvaro de Campos; com assinatura do próprio Pessoa, "Ó Sino da Minha Aldeia", inserido na obra "Ficções do Interlúdio", foi a leitura proposta por José António de Carvalho a 21 de agosto. A 14 de dezembro foi a vez e a voz de Amélia Olivia Iliescu com "Ao Longe Ao Luar".


Editora Ática


Pessoa chamou "teatro estático" ao que fez com "O Marinheiro" e explicou que isso significava que "o enredo dramático não constituía ação".

Fernanda Silva tem participação regular aqui no blog. Tudo começou com "O Universo num Grão de Areia", de Mia Couto, a 28 de abril, seguindo-se "A Vida Sonhada das Boas Esposas", de Possidónio Cachapa (11 de maio), "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", de Manuel Jorge Marmelo (8 de junho), "Bom Dia, Camaradas", de Ondjaki (27 de junho), "Quem me Dera Ser Onda", de Manuel Rui (5 de julho), e "O Sol e o Menino dos Pés Frios" (16 de julho), de Matilde Rosa Araújo. No passado dia 8 de outubro voltou com "O Tecido de Outono", de António Alçada Baptista e, a 27, leu "Histórias que me Contaste Tu", de Manuel António Pina, seguindo-se "Imagias", de Ana Luísa Amaral, a 12 de novembro, e "Os Memoráveis", de Lídia Jorge, apresentado no passado dia 16. A 23 de novembro, Fernanda Silva leu um trecho do livro "Do Grande e do Pequeno Amor", de Inês Pedrosa e Jorge Colombo. A 5 de dezembro apresentou "O Cavaleiro da Dinamarca", de Sophia de Mello Breyner Andresen e a 28 do mesmo mês fez a última leitura de 2020: "Na Passagem de um Ano", de José Carlos Ary dos Santos. A 10 de janeiro apresentou a sua primeira leitura de 2021 com "Cicatrizes de Mulher", de Sofia Branco, no dia 31 desse mês leu um trecho de "Mar me Quer", escrito por Mia Couto, e a 14 de fevereiro apresentou "Rodopio", de Mário Zambujal. A 28 de fevereiro foi a vez de ler um trecho do livro "A Instalação do Medo", de Rui Zink. No passado dia 8, foi possível "ouvê-la" no Especial dedicado ao Dia Internacional da Mulher, lendo um excerto da história "As Facas de Nima", escrito por Sofia Branco e parte do livro "52 Histórias". A 13 de março apresentou "Abraço", de José Luís Peixoto. Um trecho de "Cadernos de Lanzarote", de José Saramago, foi a sua leitura no passado dia 24.

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