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  • Paulo Jorge Pereira

Inês Henriques lê "Platero e Eu", de Juan Ramón Jiménez

Inês Henriques está de regresso às leituras aqui no blog e desta vez a proposta é a história de um animal de estimação muito especial, contada por Juan Ramón Jiménez, Prémio Nobel da Literatura em 1956, no livro "Platero e Eu", um maravilhoso exemplo de poesia em prosa.



"Eu nunca escrevi nem escreverei nada para crianças, porque acho que a criança pode ler os livros que lê o homem, com determinadas excepções que a todos se lhe ocorrem": para que não ficassem dúvidas, o poeta Juan Ramón Jiménez fez questão de prestar este esclarecimento quando foi editado "Platero e Eu". Insubmisso e indomável, Jiménez seria obrigado a exilar-se nos Estados Unidos em 1936, uma vez que era uma das vozes que se erguiam contra Francisco Franco, futuro ditador de Espanha. Mas já lá iremos...

Nascido a 23 de dezembro de 1881, em Moguer, Huelva, na província da Andaluzia, terceiro filho do casal formado por Víctor Jiménez Jiménez e Purificación Mantecón López-Parejo, Juan Ramón Jiménez Mantecón depressa se sentiu atraído pela escrita e pelo desenho, recebendo influências da mais variada ordem. Mais tarde, ele próprio exerceria influência sobre a geração de 1927 com nomes como Federico García Lorca, Jorge Guillén e Rafael Alberti. Em setembro de 1896 viaja para Sevilha com a ideia de dedicar-se aos estudos em Direito, mas as suas atrações estão nas artes visuais, nas letras e no sexo feminino - namora com Blanca Hernández-Pinzón Flores e, mais tarde, com Rosalina Brau. Passa a ser visita frequente das bibliotecas e aprofunda o interesse pela poesia, tentando a sua sorte para publicar em diferentes jornais e revistas. Em 1899 volta a Sevilha e chega a inscrever-se em Direito, mas acaba por decidir afastar-se e consegue publicar no Vida Nueva de Madrid, recebendo convite para se fixar na capital espanhola.

Escreve e frequenta tertúlias literárias em Madrid, mas, adoentado, regressa a Moguer na primavera de 1900 e perde o pai em julho, golpe que o abala de forma profunda. Sofre diversos desmaios e, perante diversos ataques de pânico, é internado numa instituição para doentes mentais em Bordéus entre maio e setembro de 1901. Mas fica instalado em casa do doutor Lalanne, diretor do espaço, criando uma boa ligação com este, a sua mulher e os filhos. Não deixa de escrever, mas é transferido para um sanatório em Madrid no qual irá organizar reuniões literárias que se transformam em tertúlias a que assistem inclusive alguns escritores. Deixa a instituição e volta a casa em 1905, procurando manter a tranquilidade por entre os conflitos com heranças e partilhas que apoquentam a família. Entre 1908 e 1913, Jiménez escreve e publica uma dezena de livros - é nesta fase que os seus percursos entre Moguer e Fuentepiña são feitos em cima do burro Platero, imortalizado no livro

"Platero e Eu" (primeira versão em 1914), de que aqui se apresenta um trecho.

Vai viver para Madrid em definitivo no ano de 1913 e conhece Zenobia Camprubí com quem irá casar-se a 2 de março de 1916 em Nova Iorque. Viajam por Boston, Filadélfia, Baltimore, Washington, entre outras cidades, e Jiménez escreve "Diario de un poeta recién casado", mas também a versão definitiva de "Platero e Eu". No regresso à capital espanhola, a vida harmoniosa com a mulher permite ao poeta publicar ao ritmo de um livro por ano e chegam a dedicar-se a traduções. São anos de enorme produtividade, mas uma dupla tristeza ensombra-lhes a vida em comum num intervalo de poucos dias em 1928: morre Purificación Mantecón López-Parejo, mãe de Jiménez e, pouco depois, também Isabel Camprubí, mãe de Zenobia, perde a vida. De 1929 é a oferta que o irmão de Zenobia faz ao casal, antes de voltar para os Estados Unidos: um Ford T com o qual vão viajar por toda a Espanha nos dois anos seguintes, sendo Zenobia uma das primeiras mulheres do país com carta de condução.

Em julho de 1932 há outro acontecimento traumático para o casal: a escultora Marga Gil Roësset compõe um busto de Zenobia, mas suicida-se logo a seguir, devido à impossibilidade de concretizar o seu amor por Jiménez. Com a Guerra Civil espanhola a partir de 1936 e o poeta declaradamente do lado republicano, a vida do casal passa por recolher crianças que ficam órfãs, mas o perigo está sempre à espreita e o exílio torna-se inevitável. Jiménez fala com o Presidente da República e, a 22 de agosto de 1936, com passaporte de adido cultural da embaixada espanhola em Nova Iorque, rumam a Paris para mais tarde viajarem de barco rumo aos Estados Unidos a partir de Cherbourg.

Em solo norte-americano tentam angariar apoios financeiros para a República, mas, desiludidos com o desprezo a que votam os seus esforços, partem para Porto Rico e, pouco depois, para Cuba. Jiménez recebe a notícia da morte do afilhado e sobrinho Juan Ramón Bayo em 1938 e uma profunda tristeza apodera-se dele. Meses mais tarde, o casal volta a Nova Iorque, passando tempos tranquilos com os irmãos de Zenobia até ao regresso a Havana. De janeiro de 1939 é a notícia da sua instalação em Miami, seguindo-se viagens e conferências que vão envolver os dois. Jiménez continua a escrever e a publicar, enquanto Zenobia é convidada para dar aulas de Espanhol a soldados em 1943, numa fase em que vivem já em Washington e as dificuldades financeiras se atenuam. Em agosto de 1948, o poeta é convidado para conferências em Buenos Aires e o casal aproveita a oportunidade para visitar Montevideu. Porém, os maus tempos estão outra vez à espreita e, em 1950, uma nova depressão leva Jiménez a outro internamento, desta vez em Washington. Março do ano seguinte assinala o regresso definitivo a Porto Rico e outro momento duríssimo: é diagnosticado cancro a Zenobia em novembro. Operada, inicia a recuperação ao lado do marido que ainda está debilitado pela depressão.

São tempos tristes, duros e muito delicados para ambos. Zenobia sofre uma recaída nos primeiros meses de 1953 e tem de passar por exigentes sessões de tratamento. O marido não melhora da depressão e, face à doença de Zenobia, vê o seu estado agravar-se - são de internamentos sucessivos os anos de 1954 e 1955. O ano de 1956 não começa melhor, pois Zenobia vê-se forçada a viajar para Boston por causa do cancro que continua a roubar-lhe a saúde. Há um fugaz momento de satisfação quando, a 25 de outubro, a Academia Sueca anuncia o Prémio Nobel da Literatura para Jiménez. Três dias mais tarde morre Zenobia. É profunda a tristeza e a depressão em que mergulha o poeta, fechado em casa, sem se alimentar nem cuidar de si. Volta a ser internado e, após algum tempo de recuperação, sofre uma queda em 1958 que lhe provoca fraturas e não lhe permitirá mais andar. Quando a família insiste para o levar de regresso a Espanha, Jiménez resiste e recusa. Porém, a persistência dos familiares leva-o a mudar de ideias e a aceitar o regresso a casa, mas é o momento em que adoece com broncopneumonia e tem de ser internado de urgência. Todos os esforços médicos são, no entanto, infrutíferos: a 29 de maio, em Porto Rico, Juan Ramón Jiménez deixa de existir.


Edição Diário de Notícias


Em "A Jangada de Pedra", José Saramago faz uma homenagem ao autor e à obra aqui apresentada, colocando em vários pontos da sua história um burro chamado Platero.

Inês Henriques tem presença regular e soma a décima participação aqui no blog. Estreou-se a 27 de abril com "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector; voltou a 10 de maio e leu um excerto de "A Disciplina do Amor", de Lygia Fagundes Telles; no último dia de maio apresentou parte de "351 Tisanas", obra de Ana Hatherly; a 28 de junho, propôs literatura de cordel, com um trecho do livro "Clarisvânia, a Aluna que Sabia Demais", escrito por Luís Emanuel Cavalcanti; a 22 de agosto apresentou um excerto da obra "Contos de Amor, Loucura e Morte", escrita por Horacio Quiroga; a 15 de setembro leu um trecho de "Em Açúcar de Melancia", de Richard Brautigan; a 18 de novembro voltou com "Saudades de Nova Iorque", de Pedro Paixão, e na quinta-feira, 10 de dezembro, prestou a sua homenagem a Clarice Lispector no dia em que a escritora faria 100 anos, lendo um conto do livro "Felicidade Clandestina". Três dias mais tarde apresentava "Os Sete Loucos", de Roberto Arlt.

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