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  • Paulo Jorge Pereira

Especial Dia Mundial da Leitura em Voz Alta com propostas no feminino

Updated: Feb 15

No Dia Mundial da Leitura em Voz Alta aqui ficam várias propostas feitas no feminino e apresentadas por Diana Teixeira de Carvalho ("Ensaio Sobre a Cegueira", de José Saramago), Elisabete Jesus ("As Horas", de Michael Cunningham), Inês Henriques ("Papéis Inesperados", de Julio Cortázar) e Sara Loureiro ("O Infinito num Junco", de Irene Vallejo).



Prémio Camões em 1995 e único português agraciado com o Nobel da Literatura (1998), o primeiro romance de José Saramago foi publicado em 1947 e chamava-se "Terra do Pecado". De "Ensaio Sobre a Cegueira", que saiu em 1995 e aqui é apresentado por Diana Teixeira de Carvalho, o próprio escritor disse: "Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." Uma obra inesquecível como inesquecível é a personagem do cão das lágrimas.



Serralheiro mecânico, desenhador, administrativo, tradutor, editor, jornalista, argumentista - bem pode dizer-se que José Saramago foi um homem dos sete ofícios. Desenvolveu o gosto pela leitura na Biblioteca do Palácio Galveias, mas só nos anos 80 passou a viver do trabalho como escritor. O cinema também se interessou pelos seus livros como o exemplificam as adaptações d'"A Jangada de Pedra (2002), "Ensaio sobre a Cegueira" (2008) ou "O Homem Duplicado" (2014). Nascido na Azinhaga a 16 de novembro de 1922, morreu a 18 de junho de 2010. Comunista até ao fim.



Com "Levantado do Chão", em 1980, Saramago traçara o retrato das enormes desigualdades e da exploração dos mais desfavorecidos pelos mais ricos no Alentejo durante a ditadura e até à Revolução do 25 de Abril. Sobre esta obra, o próprio autor escreveria: "Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: 'Isto é um livro sobre o Alentejo'. Um livro, um simples romance, gentes, conflitos, alguns amores, muitos sacrifícios e grandes fomes, as vitórias e os desastres, a aprendizagem da transformação, e mortes. É portanto um livro que quis aproximar-se da vida, e essa seria a sua mais merecida explicação". De 1982 vem o seu primeiro grande sucesso com a publicação de "Memorial do Convento", mas outros livros seus foram merecendo elogios: "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1986) e "História do Cerco de Lisboa" (1989) são só alguns exemplos.

Se já era objeto de admiração em Portugal e pelo mundo fora, os seus livros ganharam dimensão universal após o Nobel, recebido em 1998. Antes, porém, em abril de 1992, foi alvo de Sousa Lara, então subsecretário de Estado da Cultura no Governo de Cavaco Silva, que retirou "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", muito atacado pela Igreja Católica, da lista de candidatos a um galardão literário europeu. No ano seguinte, o escritor, casado com a jornalista Pilar del Río desde 1988, cortou relações com o poder político e fixou residência na ilha espanhola de Lanzarote. Só em 2004, com Durão Barroso como chefe do Governo, o assunto foi superado. Três anos mais tarde, nasceu a Fundação José Saramago (desde 2012 tem sede na Casa dos Bicos, em Lisboa), dedicada à promoção da Literatura, mas também a defender valores como os Direitos Humanos e o ambiente. Controverso e muitas vezes criticado pelas posições assumidas, Saramago distribuiu o trabalho literário por romances, contos, crónicas, teatro, poesia, viagens, memórias e livros para crianças.

É a sétima vez que o trabalho literário de José Saramago surge aqui no blog. A primeira aconteceu quando li um excerto do livro "Levantado do Chão", a 20 de abril; a 11 de junho, pela voz do jornalista Ricardo Figueira, surgiu "Caim"; a estudante Jet Vos, terceira classificada no Concurso Nacional de Leitura, apresentou "O Ano da Morte de Ricardo Reis" no dia 29 de agosto; "Cadernos de Lanzarote II" foi a obra escolhida por Elisabete Jesus para apresentar um trecho a 29 de setembro; a 30 de dezembro li uma passagem da obra "Memorial do Convento". A 20 de janeiro, escolhi "História do Cerco de Lisboa" para deixar aqui um outro exemplo da sua escrita.


Editorial Caminho


"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." São duas frases curtas, figuram na epígrafe do livro "Ensaio Sobre a Cegueira" e, na sua complexa simplicidade, explicam-nos como a Humanidade seria muito melhor caso não se limitasse a olhar sem ver.

Diana Carvalho é natural de Vila Nova de Gaia e desde criança que escreve textos, livros, artigos, poesias. Em 2013, publicou um livro pela primeira vez e nunca mais parou. Escrever o primeiro romance abriu as portas para colaborar em diversos projetos fantásticos como escritora fantasma, escrevendo livros técnicos, biografias e romances. Na Alfarela Studio, além de escrever, colabora ainda na produção, edição e revisão... é a sua verdadeira paixão: construir livros desde o nada até ao tudo. Na sua opinião, “O livro é a peça de arte mais bonita e arrebatadora que a humanidade criou e, com ele, podemos saber o passado, compreender o presente e, talvez, se estivermos atentos, sonhar o futuro.” Podem ficam a saber mais sobre o seu trabalho e acerca da sua escrita assombrosa neste site muito atraente.

No Dia Mundial da Leitura em Voz Alta, Elisabete Jesus apresenta um trecho do livro "As Horas", de Michael Cunningham, cuja adaptação ao cinema valeu o Óscar de Melhor Atriz à australiana Nicole Kidman.



Michael Cunningham nasceu em Nova Iorque, a 6 de novembro de 1952, tendo passado parte da fase inicial da existência em Cincinnati, no Ohio. Estudaria Literatura Inglesa, licenciando-se na Universidade de Stanford em 1975. Mas não parou a sua formação por aqui e, matriculado na Universidade do Iowa, conseguiu cinco anos mais tarde um mestrado em Belas Artes. Começou a publicar em diversas revistas ainda nos anos 80 até colocar o livro "Golden States" no mercado em 1984. Foi, contudo, a partir de 1989, quando um dos seus contos ("White Angel") entrou na antologia de Best American Short Stories, que ganhou alguma evidência. No ano seguinte, o seu romance "Uma Casa no Fim do Mundo" recebeu elogios de forma generalizada, foi adaptado ao cinema e desbravou caminho para que Cunningham obtivesse, em 1993, uma bolsa Guggenheim. "Sangue do Meu Sangue" (1995) foi o romance seguinte, mas não seria ainda esse o passo mais determinante na sua carreira.



Com "As Horas", homenagem ao livro e à autora que o fizeram sonhar com a profissão de escritor, Cunningham foi distinguido duplamente, uma vez que recebeu o Pulitzer, mas também o PEN/Faulkner, sempre na categoria de ficção. Escrita em 1998, a obra teve adaptação ao grande ecrã em 2002 com realização de Stephen Daldry e interpretações de Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep, Ed Harris, John C. Reilly e Claire Danes e valeu o Óscar de melhor atriz a Kidman. É uma hábil abordagem do escritor à vida de Virginia Woolf, aproveitando a ideia da escritora para "Mrs. Dalloway" (que começou por chamar-se "As Horas"), mas, sobretudo, incluindo outras histórias, mostra como a sociedade patriarcal trata as mulheres.



A partir daqui, passou a ser um escritor com muito mais popularidade, publicando "Dias Exemplares" (2005), "Ao Cair da Noite" (2010) e "A Rainha da Neve" (2014) antes de "Um Cisne Selvagem e Outros Contos" (2015).

Assumidamente homossexual, Cunningham tem partilhado a sua vida, nos últimos cerca de vinte anos, com o psicanalista Ken Corbett. Em conjugação com a escrita de romances e contos, é docente de escrita criativa na Universidade de Yale.

"As Horas" já mereceu uma primeira leitura por aqui a 11 de janeiro.

Gradiva/Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues


"As Horas" valeu a Cunningham não apenas maior visibilidade com a adaptação cinematográfica, mas também vários galardões, entre os quais o Pulitzer.

Nascida em Vila Nova de Gaia, Elisabete Jesus é licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, aqui se tornando ainda Mestre de História Moderna. Professora e investigadora de História desde 2002, realiza colaboração com a Porto Editora desde essa altura, desempenhando papel como coautora de manuais escolares para estudantes em patamares variados das respetivas aprendizagens. Começou a escrever para um público infantojuvenil a partir de 2014 com a publicação d'"A Minha História de Portugal". Seguiram-se "A Minha História dos Descobrimentos (2015) e "A Minha História da Europa" (2019). A sua estreia em leituras aqui no blog aconteceu a 21 de junho quando apresentou um excerto da obra "O Cão que Comia a Chuva", de Richard Zimler. Mais tarde, a 29 de setembro, leu um trecho de "Cadernos de Lanzarote II", escrito por José Saramago.

No Dia Mundial da Leitura em Voz Alta, Inês Henriques, que tem presença regular aqui no blog, apresenta "As Boas Consciências", inserido em "Papéis Inesperados", do argentino Julio Cortázar.



Contos e, em geral, narrativas de fôlego mais curto, sempre com imaginação sem limites, são os principais argumentos da escrita do argentino Julio Florencio Cortázar, nascido na localidade belga de Ixelles, parte da região da capital, Bruxelas, a 26 de agosto de 1914. Mas não é possível menosprezar as inovações do seu trabalho literário também em exemplos do género romance, surgindo "O Jogo do Mundo - Rayuela" como principal trunfo num percurso em que, ao lado de escritores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Octavio Paz ou Carlos Fuentes, integrou o designado boom da Literatura latino-americana nas décadas de 60 e 70. Em disco de que pode escutar-se aqui um pequeno trecho, a sua voz ficou registada para a imortalidade na leitura de alguns pequenos registos inéditos, conforme fez questão de indicar na gravação.



Tinha apenas três anos e já estava de volta ao país natal com a família, passando a viver com a mãe, a tia e a avó após a separação dos pais - esta influência feminina mais próxima e permanente ao longo da sua infância teria reflexos não só no seu modo de olhar o mundo, mas também na sua literatura. Sobre esses tempos falaria por diversas vezes e as suas afirmações seriam reunidas pela viúva, Aurora Bernárdez e pelo seu colaborador Carles Álvarez, em livro de 2014, "Cortázar de la A a la Z", assinalando o centenário do seu nascimento e os 30 anos sobre a sua morte: "Fui enfermizo y tímido, con una vocación para lo mágico y lo excepcional, que me convertía en la víctima natural de mis compañeros de escuela más realistas que yo. Pasé mi infancia en una bruma de duendes, elfos, con un sentido del espacio y del tiempo distinto al de los demás."

Na mesma obra, outra citação faz referência à forma como se recordava do lugar onde vivia: "Mi casa, vista desde la perspectiva de la infancia, era también gótica, no por su arquitectura sino por la acumulación de terrores que nacía de las cosas y de las creencias, de los pasillos mal iluminados y de las conversaciones de los grandes en la sobremesa." E, claro, das primeiras impressões acerca do sedutor, fascinante e assustador universo dos livros à sua volta. "Gente simple, las lecturas y las supersticiones permeaban una realidad mal definida, y desde muy pequeño me enteré de que el lobizón salía en las noches de luna llena, que la mandrágora era un fruto de la horca, que en los cementerios ocurrían cosas horripilantes, que a los muertos les crecían interminablemente las uñas y el pelo, y que en nuestra casa había un sótano al que nadie se atrevería a bajar jamás. Curiosamente, esa familia dada a los peores recuentos del espanto tenía a la vez el culto del coraje viril, y desde chico se me exigieron expediciones nocturnas destinadas a templarme, mi dormitorio fue un altillo alumbrado por un cabo de vela al término de una escalera donde siempre me esperó el miedo vestido de vampiro o de fantasma."

Quando lhe falavam sobre livros e de como fora o seu primeiro contacto com as leituras, Cortázar contava, conforme recorda a obra de 2014: "Nadie seleccionó para mí los libros que debía leer, nadie se inquietó de que lo sobrenatural y lo fantástico se me impusieran con la misma validez que los principios de la física." Mas a vida literária de Julio Cortázar não seria fácil. Primeiro, em 1935, tornou-se professor e espreitou o boxe como prática. Publicou poesia para a estreia, em 1938, mas o livro "Presencia" foi assinado com o pseudónimo de Julio Denis. Tornou-se docente universitário, escreveu "La Otra Orilla" (1945) e percorreu parte da Argentina nas suas funções educativas, mas a chegada de Perón ao poder levou-o a demitir-se e procurar um lugar na Câmara do Livro em Buenos Aires como tradutor. Publicou "Los Reyes" (1949), uma peça de teatro, até que, sentindo-se asfixiado pelo peronismo, incomodado com aquilo que via como "domínio do pensamento único", Cortázar decidiu que teria de abandonar o país e aproveitou a oportunidade de uma bolsa concedida pelo Governo francês para rumar a Paris em 1951. Acabaria por fixar-se na capital francesa, conjugando a escrita literária com a atividade como tradutor para a UNESCO. Dois anos depois da chegada a França casou-se com a tradutora argentina Aurora Bernárdez, desmultiplicando-se ambos em diferentes iniciativas para superar os problemas económicos do casal - uma delas seria a missão de traduzir os livros de Edgar Allan Poe.

As suas dificuldades financeiras assumiam tal dimensão que, no começo de 1955, contou mesmo a um amigo que recebera "12 pesos nos últimos seis meses", correspondentes à venda de exemplares de "Bestiário", a sua obra de 1951. Mas a sua sorte estava prestes a mudar, já depois dos livros de contos "Final del Juego" (1956) e "Las Armas Secretas" (1959), este com um conto ("Las Babas del Diablo") que iria inspirar o realizador italiano Michelangelo Antonioni para o filme "Blow-up", de 1966, com Vanessa Redgrave, David Hemmings e Sarah Miles. Conhece o galego Francisco "Paco" Porrúa, editor que travara conhecimento com "Bestiário" quase por acaso no ano de 1958 e, em 1960, depois de publicar "Los Premios", conta-lhe que está a preparar algo que ele próprio classifica como "um livro insólito e que vai surpreender os editores". Porrúa seria não só o responsável pela edição dessa obra, o já citado "O Jogo do Mundo - Rayuela", em 1963, mas nos anos que se seguiram pela publicação do trabalho de Cortázar e por um aconselhamento que tantas vezes se revelou determinante para o escritor. Um ano antes, porém, publicara outra das suas criações eternas, "Histórias de Cronópios e de Famas", na qual cria personagens que se tornam inolvidáveis.

É dessa fase o seu maior empenhamento político, manifestando pública posições contra as ditaduras dos países latino-americanos. Visita Cuba com a mulher (e começa aqui o seu progressivo afastamento, uma vez que Aurora Bernárdez voltara muito desiludida com aquilo que vira), publica "Carta a una Señorita en Paris" (1963), "La Autopista del Sur" (1964), "Todos los Fuegos el Fuego" (1966), "La Vuelta al Día en Ochenta Mundos", "El Perseguidor e Otros Cuentos" e "Buenos Aires, Buenos Aires" (todos em 1967).



No plano sentimental, a vida com Aurora Bernárdez sofre um abalo mais forte com um primeiro distanciamento, vivendo cada qual em sua casa. Mas, de súbito, Cortázar fala-lhe em refazer a vida com Ugné Karvelis, escritora, sua agente literária na Gallimard e também tradutora da UNESCO, nascida a meio dos anos 30 na Lituânia (que viria a ser integrada na então União Soviética em 1940). Ainda assim, a sua relação de proximidade e amizade não se deteriorou, nem mesmo quando o escritor lhe pediu o divórcio para se casar com Carol Dunlop.

Seguem-se "62/Modelo para Armar" (1968), "Casa Tomada" e "Ultimo Round" (ambos em 1969) e, em 1970, visita o Chile para assistir à tomada de posse do Presidente Salvador Allende, já ao lado da sua segunda companheira. Desse ano de 1970 é a publicação de "Relatos" e "Viaje Alredor de una Mesa" e, sendo uma das vozes que se erguem a fazer perguntas sobre o destino do poeta Heberto Padilla que desaparecera sob o regime castrista, é considerado persona non grata por Fidel Castro a partir de 71. Continua a escrever, publica "La Isla a Mediodía e Otros Relatos" e "Pameos e Meopas" (os dois nesse ano de 1971), "Prosa del Observatorio" (1972), "La Casilla de los Morelli" e "Libro de Manuel" (ambos em 1973). Este último é agraciado com o Prémio Médicis e Cortázar usa o dinheiro das vendas em defesa dos presos políticos da ditadura na Argentina. Permanece o seu empenhamento político, situação que o leva em viagens à Costa Rica e à Nicarágua. Apesar desta intensa atividade, nunca se afasta da escrita e, sobretudo, dos livros de contos, mas não só. Publica "Octaedro" (1974), visita os Estados Unidos e dá palestras em Berkeley. Seguem-se "Fantomas Contra los Vampiros Multinacionales" (1975), "Estrictamente No Profesional" (1976), "Alguien que Anda por Ahí (1977), "Territorios" (1979), "Un tal Lucas" (também em 1979) e "Queremos tanto a Glenda (1980). Em 1981, a debilidade da sua saúde dá os primeiros sinais, pois o escritor sofre uma hemorragia abdominal.

Depois de passar por um internamento, não abranda o ritmo. Escreve "Deshoras" e "Los Autonautas de la Cosmopista" (ambos em 1982), neste caso já em parceria com a escritora canadiana Carol Dunlop, a quem conhecera em 1977 e com quem se casara em 1981 (ano em que recebeu a nacionalidade francesa, embora nunca desista da argentina). Mas 1982 fica marcado de forma trágica, uma vez que Dunlop morre a 2 de novembro, vítima de aplasia medular (embora haja outras versões a referir que teria sido vítima de Sida, transmitida alegadamente por Cortázar, que teria contraído o vírus depois de uma transfusão de sangue recebida em França), e o desgosto do escritor é profundo. Aurora Bernárdez foi um apoio constante, ainda durante a doença de Carol Dunlop. "Nicaragua tan Violentamente Dulce" é de 1983, o mesmo ano em que visita a Argentina pela última vez, então já sob a democracia com a eleição de Raúl Alfonsín para a presidência. "Silvalandia" e "Salvo el Crepúsculo" são ambos de 1984. Quando é diagnosticada leucemia a Cortázar, Aurora Bernárdez não deixa de estar ao seu lado e irá ajudá-lo até ao fim, a 12 de fevereiro de 1984.

A publicação das obras de Cortázar a título póstumo, incluindo "Papéis Inesperados", livro de que aqui Inês Henriques apresenta um texto, é já da responsabilidade de Bernárdez, declarada sua herdeira única e também protagonista da organização de toda a sua correspondência, cuja primeira edição remonta a 2000, tendo depois sido revista e aumentada com mais de mil novas cartas em 2012. "Cortázar de la A a la Z" é a sua derradeira tarefa em 2014 - à saída de uma visita ao médico, a 5 de novembro desse ano, Aurora Bernárdez sofre um AVC. Transportada ao hospital, entra em coma e morre no dia 8 com 94 anos.


Cavalo de Ferro/Tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu


Em "Papéis Inesperados" há de tudo um pouco que ficara inédito quando Cortázar morreu: contos, histórias de cronópios, um capítulo que não entrou em "Rayuela", textos dispersos sobre temas como política, literatura ou viagens, poemas e outros.

Inês Henriques tem presença regular e já esta na casa das dezenas em participações aqui no blog. Estreou-se a 27 de abril com "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector; voltou a 10 de maio e leu um excerto de "A Disciplina do Amor", de Lygia Fagundes Telles; no último dia de maio apresentou parte de "351 Tisanas", obra de Ana Hatherly; a 28 de junho, propôs literatura de cordel, com um trecho do livro "Clarisvânia, a Aluna que Sabia Demais", escrito por Luís Emanuel Cavalcanti; a 22 de agosto apresentou um excerto da obra "Contos de Amor, Loucura e Morte", escrita por Horacio Quiroga; a 15 de setembro leu um trecho de "Em Açúcar de Melancia", de Richard Brautigan; a 18 de novembro voltou com "Saudades de Nova Iorque", de Pedro Paixão, e na quinta-feira, 10 de dezembro, prestou a sua homenagem a Clarice Lispector no dia em que a escritora faria 100 anos, lendo um conto do livro "Felicidade Clandestina". Três dias mais tarde apresentava "Os Sete Loucos", de Roberto Arlt. A 3 de janeiro leu um trecho de "Platero e Eu", de Juan Ramón Jiménez. No dia 8 foi a vez de ter o seu livro em destaque por aqui, quando li um excerto de "Trazer o Ouro ao Peito". A participação anterior a esta surgiu a 21 de janeiro com uma parte da obra "O Torcicologologista, Excelência", de Gonçalo M. Tavares.

No Dia Mundial da Leitura em Voz Alta, Sara Loureiro apresenta como proposta de leitura um excerto do livro "O Infinito num Junco", escrito por Irene Vallejo, multipremiada e vencedora em novembro passado do Prémio Nacional de Literatura em Espanha.



Um livro extraordinário, que soma já mais de duas dezenas de edições em Espanha, além de traduções para muitos idiomas, assim é, em síntese, "O Infinito num Junco", resultado da paixão que a escritora espanhola Irene Vallejo Moreu alimentou desde muito jovem por mitologia greco-romana. Uma história não apenas do nascimento do livro, mas das suas múltiplas expressões ao longo dos séculos e, em simultâneo, uma obra com viagens pelos mais variados espaços, pelas mais diferentes personagens, pela palavra como forma superior de estabelecer pontes entre o passado e o presente num ciclo de aprendizagens que é interminável.



Nascida em Saragoça (1979), Irene Vallejo iria licenciar-se em Filologia Clássica na Universidade local e, mais tarde, acrescentar outra parte da formação superior em Florença. A estreia literária remonta a 2011 quando publicou "La Luz Sepultada", centrada na Guerra Civil espanhola, não mais parando desde então. "El Silbido del Arquero" (2015) foi o romance seguinte, mas, pelo meio, em 2014, dedicou atenção à literatura infantil com "El Inventor de Viajes", cujas ilustrações ficaram a cargo de José Luis Cano. No mesmo ano do seu segundo romance voltou à área da escrita para os mais jovens e publicou "La Leyenda de las Mareas Mansas", numa iniciativa em que estabeleceu parceria com a pintora Lina Vila.

Colunista em jornais como El País ou El Heraldo de Aragón, reuniu em livros as suas crónicas, editando "El Pasado que te Espera" (2010) e "Alguien Habló de Nosotros" (2017). Vallejo é uma autoridade nos temas da Antiguidade Clássica e, quando publicou "El Silbido del Arquero", em 2015, numa entrevista ao jornal El Heraldo de Aragón, deixou respostas que são todo um programa na base da sua forma de fazer literatura: "Entendo a escrita como uma viagem com escalas em épocas distintas que despertam a minha curiosidade. Um livro pode cumprir o sonho impossível da máquina do tempo."

Bertrand Editora/Tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas


Mario Vargas Llosa considerou "O Infinito num Junco" um livro "muito bem escrito, com páginas realmente admiráveis", ou seja, "uma obra-prima". E Alberto Manguel chamou-lhe "uma homenagem ao livro, de uma leitora apaixonada".

Sara Loureiro é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, pós-graduada em Animação Cultural e Mestre em Ciências da Educação. Atualmente dedica-se, como freelancer, à promoção do livro, da leitura e da escrita criativa. É diseuse e não concebe a sua vida sem ler e escrever poesia, o seu superalimento. Também faz resenhas de livros, publicando e partilhando opiniões sobre o que lê. Considera que as palavras são uma das maiores invenções da Humanidade e, por isso, gosta de as ter por perto, de lhes sentir o pulso e insuflar vida. A sua atividade estende-se, igualmente, às áreas da programação e da produção cultural. É cofundadora do PICA, Projeto de Intervenção Cultura e Artes, nascido da/para a sociedade civil, com o propósito de valorizar, preservar e divulgar o património cultural, material e imaterial. Além disso, é consultora pedagógica e formadora na PLUS Academy.

Esta é a terceira participação de Sara Loureiro aqui no blog - a estreia registou-se a 3 de junho com um trecho do romance "A Vida de um Homem que Perseguia Poemas", de Joana M. Lopes. A 11 de outubro apresentou "Ponte Pequim sobre o Tejo", de António Oliveira e Castro.

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