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  • Paulo Jorge Pereira

Agostinho Costa Sousa lê "Remodelações Governamentais", de Mário-Henrique Leiria


É com recurso a um conto de Mário-Henrique Leiria, intitulado "Remodelações Governamentais", que Agostinho Costa Sousa constrói a sua proposta de leitura para hoje.



Artista que caminhava por vias marginais na ficção, poesia e pintura, um surrealista sem regras com sentido de humor muito próprio nas histórias bem curtas, invulgares e estranhas: este é um possível retrato rápido de Mário-Henrique Leiria, cuja obra, produzida na década de 70, não é vasta, mas ainda assim conseguiu deixar marcas profundas.

Nascido a 2 de janeiro de 1923 em Lisboa, Mário-Henrique Baptista Leiria seria aluno da Escola Superior de Belas Artes, da qual recebeu ordem de expulsão em 1942 devido à sua atividade política contra a ditadura de Salazar. Assinou textos sob o pseudónimo de "Vovô Gasosa", conforme descobriria a professora e investigadora Tânia Martuscelli numa altura em que estudava a obra de António Maria Lisboa (mais tarde irá organizar a publicação da obra completa de Leiria). Com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa, entre outros, fundou o primeiro grupo de surrealistas em Portugal, nele participando entre 1949 e 1951 e ainda em 1962 (um ano depois de Cesariny publicar textos seus na "Antologia do Cadáver Esquisito"). Neste último caso, Mário-Henrique Leiria envolveu-se na organização da designada "Operação Papagaio", ao lado de nomes como António José Forte, Manuel de Castro ou Virgílio Martinho, cujo objetivo era o ataque ao Rádio Clube Português. Uma vez nas instalações, os infiltrados deveriam trocar o programa "Companheiros da Alegria" por marchas militares, o hino nacional e, com intervalos de cinco minutos, informação atualizada acerca de tropas que avançavam com um golpe de Estado para acabar com a ditadura. Ao mesmo tempo seriam dirigidos convites para que o povo saísse à rua e fosse gritar o seu apoio aos protagonistas do golpe e ao novo regime. Porém, a PIDE foi alertada para o plano e abortou-o, detendo os participantes. Posto em liberdade, Leiria viajou para o Brasil, tendo sido editor literário e encenador antes do regresso a Portugal em 1970. Três anos depois publica "Contos do Gin-Tonic", colaborando num suplemento do jornal República e no semanário de teor humorístico "Pé de Cabra". O livro "Novos Contos do Gin" sai em 1974 e Mario-Henrique Leiria é chefe de redação do semanário O Coiso no ano seguinte. De 1975 são "Imagem Devolvida, Conto de Natal para Crianças", "Casos de Direito Galáctico" e "O Mundo Inquietante de Josela".

Torna-se membro do Partido Revolucionário Proletário em 1976, mas uma doença óssea interfere de forma decisiva na sua vida. Confinado a viver com a mãe e uma tia, duas idosas, acaba por morrer uma semana depois de completar 57 anos, a 9 de janeiro de 1980.

"Nos contos a gente consegue visualizar uma história", contou Tânia Martuscelli à RTP no programa "Literatura Aqui", de 2017, "não só aquela que está ali, no papel, mas o antes, o durante e o depois. São contos curtos, mas a genialidade do Leiria nos permite perceber esse mundo que ele está retratando. E isso é incrível na Literatura." Além disso, "a novela do Leiria é muito interessante. Primeiro, é um texto inacabado, mas suficientemente acabado para ser lido como novela, porque as personagens são bem construídas e têm uma profundidade que já aparece nos capítulos iniciais e uma narrativa já com sequência. Mas tem alguns traços de fin de siècle, alguma coisa decadentista, mais do que propriamente de vanguarda ou surrealista", esclareceu a professora. Martuscelli identifica ainda "peças que se aproximam do teatro do absurdo, porque há muito nonsense". De acordo com Tânia Martuscelli, o seu legado relaciona-se com o "questionamento da sociedade, assumir o seu papel político na sociedade e tratar a arte não como algo impossível, mas algo que faz parte do quotidiano".

A obra de Mário-Henrique Leiria passou por aqui noutras duas ocasiões: a estreia foi a 30 de maio de 2020 pela voz de Filipe Dias com "Contos do Gin-Tonic" e a segunda oportunidade surgiu a 5 de junho de 2021 com "Gin sem Tónica, mas Também", lido por Amílcar Mendes. A 27 de fevereiro de 2022, Amílcar Mendes voltou a ler textos do autor.


Editorial Estampa


Vivendo com a mãe e uma tia, Mário-Henrique Leiria morreu a 9 de janeiro de 1980 com apenas 57 anos.

Agostinho Costa Sousa reside em Espinho e socorre-se da frase de Antón Tchekhov: "A medicina é a minha mulher legítima, a literatura é ilegítima" para se apresentar. Estreou-se a ler por aqui a 9 de maio com "A Neve Caindo sobre os Cedros", de David Guterson, seguindo-se "As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino, a 16 do mesmo mês, mas também leituras de obras de Manuel de Lima e Alexandra Lucas Coelho a 31 de maio. "Histórias para Uma Noite de Calmaria", de Tonino Guerra, foi a sua escolha no dia 4 de junho. No passado dia 25 de julho, a sua escolha recaiu em "Veneno e Sombra e Adeus", de Javier Marías, seguindo-se "Zadig ou o Destino", de Voltaire, a 28. O regresso processou-se a 6 de setembro, com "As Velas Ardem Até ao Fim", de Sándor Márai. Seguiram-se "Histórias de Cronópios e de Famas", de Julio Cortázar, no dia 8; "As Palavras Andantes", de Eduardo Galeano, a 11; "Um Copo de Cólera", de Raduan Nassar, a 14; e "Um Amor", de Sara Mesa, no dia 16. A 19 de setembro, a leitura escolhida foi "Ajudar a Estender Pontes", de Julio Cortázar. A 17 de outubro, a proposta centrou-se na poesia de José Carlos Barros com três poemas do livro "Penélope Escreve a Ulisses". Três dias mais tarde leu três poemas inseridos na obra "A Axila de Egon Schiele", de André Tecedeiro.

A 29 de novembro apresentou "Inquérito à Arquitetura Popular Angolana", de José Tolentino de Mendonça. De dia 1 do mês seguinte é a leitura de "Trieste", escrito pela croata Dasa Drndic e, no dia 3, a proposta foi um trecho do livro "Civilizações", escrito por Laurent Binet. No dia 5, Agostinho Costa Sousa dedicou atenção a "Viagens", de Olga Tokarczuk. A 7, a obra "Húmus", de Raul Brandão, foi a proposta apresentada. Dois dias mais tarde, a leitura foi dedicada a um trecho do livro "Duas Solidões - O Romance na América Latina", com Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Seguiu-se "O Filho", de Eduardo Galeano, no dia 20. A 23, Agostinho Costa Sousa trouxe "O Vício dos Livros", de Afonso Cruz. Voltou um mês mais tarde com "Esta Gente/Essa Gente", poema de Ana Hatherly. No dia 26 de janeiro, apresentou "Escrever", de Stephen King. Quatro dias mais tarde foi a vez de Maria Gabriela Llansol com "O Azul Imperfeito". "Poemas e Fragmentos", de Safo, e "O Poema Pouco Original do Medo", de Alexandre O'Neill, foram outras recentes participações. Seguiram-se "Se Isto É Um Homem", de Primo Levi, e "Se Isto É Uma Mulher", de Sarah Helm. No dia 18 de março, a leitura proposta foi de um excerto de "Augustus", de John Williams. A 24, Agostinho Costa Sousa leu "Silêncio na Era do Ruído", de Erling Kagge; a 13 de abril, foi a vez do poema "Guernica", de Rui Caeiro e, no dia 20, apresentou um pouco de "Great Jones Street", de Don DeLillo.

No Especial dedicado ao 25 de Abril, a sua escolha foi para "O Sangue a Ranger nas Curvas Apertadas do Coração", escrito por Rui Caeiro, seguindo-se "Ararat", de Louise Glück, no Dia da Mãe e do Trabalhador, a 1 de maio. "Ver: Amor", de David Grossman, foi a proposta de dia 17. No dia 23, a leitura proposta trouxe Elias Canetti com um pouco da obra "O Archote no Ouvido".

A 31 de maio surgiu com "A Borboleta", de Tonino Guerra. A 5 de junho trouxe um excerto do livro "Primeiro Amor, Últimos Ritos", de Ian McEwan. A 17, a escolha recaiu sobre "Hamnet", de Maggie O'Farrell. A 10 de julho, o trecho selecionado saiu da obra "Ofuscante - A Asa Esquerda", do romeno Mircea Cartarescu. No dia 19 de julho apresentou "Uma Caneca de Tinta Irlandesa", de Flann O'Brien. A 31 de julho leu um trecho da obra "Por Cuenta Propia - Leer y Escribir", de Rafael Chirbes. No dia 8 de agosto foi a vez de "No Entres Docilmente en Esa Noche Quieta", de Ricardo Menéndez Salmón. A 15 de agosto apresentou "Julio Cortázar y Cris", de Cristina Peri Rossi. Uma semana mais tarde, a leitura foi de um trecho da obra "Música, Só Música", de Haruki Murakami e Seiji Ozawa. De 12 de setembro é a sua leitura de um poema do livro "Do Mundo", cujo autor é Herberto Helder. "Instruções para Engolir a Fúria", de João Luís Barreto Guimarães, foi a leitura a 16 de setembro e já aqui regressou.

A 6 de outubro leu um trecho da obra "Jakob, O Mentiroso", de Jurek Becker. "Rebeldes", de Sándor Márai, foi a leitura do dia 11. Mircea Cartarescu e "Duas Formas de Felicidade" surgiram dois dias mais tarde. Seguiu-se "Diários", do poeta Al Berto, a 17 de outubro. Três dias mais tarde propôs "A Herança de Eszter", de Sándor Márai. A 2 de novembro apresentou "Os Irmãos Karamazov", de Fiódor Dostoiévski. Data de 22 de novembro a leitura de "Nicanor Parra: Rey y Mendigo", de Rafael Gumucio. A 30 de novembro leu "Schiu", de Tonino Guerra. No passado dia 12 trouxe "Montaigne", de Stefan Zweig. Recuperei a sua leitura do poema "Instruções para Engolir a Fúria" no dia 16 quando o autor, João Luís Barreto Guimarães, foi distinguido com o Prémio Pessoa. A 23 apresentou um excerto de "Silêncio na Era do Ruído", de Erling Kagge. No dia 6 de janeiro a escolha recaiu sobre "Lições", de Ian McEwan. A 16 de janeiro apresentou "Stalinegrado", de Vasily Grossman. No dia 30 leu um excerto da obra "A Biblioteca à Noite", de Alberto Manguel.

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