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  • Paulo Jorge Pereira

Nobel da Literatura: Inês Henriques lê "Uma Paixão Simples", de Annie Ernaux

Updated: Oct 11

Já passaram alguns dias, mas a leitura da obra da francesa Annie Ernaux, a quem foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura, vale sempre a pena. E é precisamente essa a proposta de Inês Henriques com base num trecho do livro "Uma Paixão Simples".



Ser a primeira mulher francesa (e apenas a 17.ª mulher em 119 premiados) a receber a distinção da Academia Nobel para a Literatura é o mais relevante facto do trabalho que Annie Ernaux tem construído ao longo dos anos, mas a verdade é que a sua obra era já multipremiada. Aos 82 anos, o galardão foi justificado com "a coragem e acuidade clínica com que descortina as raízes, os estranhamentos e os constrangimentos coletivos da memória pessoal".

Vale a pena lembrar a lista completa desde 1901: Selma Lagerlöf (Suécia), 1909; Grazia Deledda (Itália), 1926; Sigrid Undset (Noruega), 1928; Pearl Buck (EUA), 1938; Gabriela Mistral (Chile), 1945; Nelly Sachs (Suécia), 1966; Nadine Gordimer (África do Sul), 1991; Toni Morrison (EUA), 1993; Wislawa Szymborska (Polónia), 1996; Elfriede Jelinek (Áustria), 2004; Doris Lessing (Inglaterra), 2007; Herta Müller (Alemanha), 2009; Alice Munro (Canadá), 2013; Svetlana Aleksievitch (Bielorrússia), 2015; Olga Tokarczuk (Polónia), 2018; Louise Glück (EUA), 2020 e Annie Ernaux (França), 2022.

Quando nasceu, a 1 de setembro de 1940, em Lillebonne, chamaram-lhe Annie Thérèse Blanche Duchesne. De origem humilde, passou grande parte da infância e da juventude na Normandia: cresceu em Yvetot e estudou Literatura Moderna na universidade em Rouen, só mais tarde completando esses estudos em Bordéus. Seria docente no ensino secundário na década de 70 e também em Paris até se transferir para o Centro de Ensino à Distância (CNED).

Antes, nos anos 60, a sua vida fora registando mudanças: do casamento (falhado e retratado em 1981 no livro "Uma Mulher Congelada") ao nascimento dos dois filhos e à morte do pai, mas também uma primeira tentativa de escrita de um livro que, no entanto, nunca seria publicado. De 1974 é o seu primeiro livro, intitulado "Les Armoires Vides" e logo catalogado como romance autobiográfico, debruçando-se sobre o aborto clandestino pelo qual passara em 1964. O mesmo sucederia com "La Place", análise à vida do pai, graças ao qual começou a ser distinguida com prémios em 1984.

O termo "autoficção" surge sempre associado ao trabalho literário de Ernaux e acontece também, por exemplo, no livro "Uma Paixão Simples", publicado em 1992 e hoje aqui apresentado na leitura de um trecho por Inês Henriques. Teve adaptação ao Cinema em 2020, num filme de Danielle Arbid, contando a história de paixão obsessiva entre uma mulher e um diplomata russo. "A Vergonha" (1997) aborda a perda da virgindade; em 2000, "O Acontecimento" regressa à questão do aborto (é recente, de 2021, a adaptação cinematográfica de Audrey Diwan) e, em 2005, "L'Usage de la Photo" é a sua experiência com o cancro da mama. Nessa fase está já fora do ensino e escreve "Os Anos" em 2008, misto de "história pessoal, impessoal e coletiva".

Aliás, no site de Annie Ernaux pode ler-se que, desde o começo, a sua escrita "nunca deixou de explorar a experiência vivida – a sua experiência, mas também a da sua geração, dos seus pais, das mulheres, dos anónimos e dos esquecidos, dos outros". No fundo, "está orientada em vários eixos, que se cruzam ao longo do tempo e dos livros: a experiência do corpo e da sexualidade; relações interpessoais (família, amor); trajetórias e desigualdades sociais; educação; tempo e memória; e escrita, um verdadeiro fio condutor que une esses aspetos".

As características das "experiências mais pessoais, até mesmo íntimas, são carregadas de uma dimensão coletiva, sociológica, seja a experiência do luto, da vergonha social, da descoberta da sexualidade, da paixão amorosa, do aborto clandestino, do passar por uma doença ou a perceção do tempo", explica-se no site.

Do passado mês de maio é "Jeune Homme", o livro mais recente de Annie Ernaux a ser publicado.

Quem quiser saber mais sobre a vida e obra da escritora francesa pode consultar aqui o seu site bilingue.

Livros do Brasil/Tradução de Tereza Coelho


Várias obras de Annie Ernaux tiveram direito a adaptação cinematográfica, a mais recente das quais sobre "O Acontecimento" (2021).

Inês Henriques tem presença regular aqui no blog e a leitura de hoje foi apresentada em estreia a 24 de maio de 2020. A paixão e o carinho pelos livros têm acompanhado a sua vida. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Franceses), escolheu o Jornalismo como profissão e o Desporto como área de atuação. Realizado o curso profissional no CENJOR, foi estagiária na Agência Lusa, à qual voltaria mais tarde, e trabalhou no jornal A Bola antes de entrar na redação do Portal Sapo. Neste contexto, a proximidade do desporto adaptado levou-a a escrever "Trazer o Ouro ao Peito - a fantástica história dos atletas paralímpicos portugueses", publicado em 2016. Agora, apesar de já não estar no universo profissional do Jornalismo, continua atenta a essa realidade ao mesmo tempo que tem sempre um livro para ler. E vários autores perto do coração. Inês Henriques tem presença regular e já está na casa das dezenas em participações aqui no blog. Estreou-se a 27 de abril de 2020 com "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector; voltou a 10 de maio e leu um excerto de "A Disciplina do Amor", de Lygia Fagundes Telles; no último dia de maio apresentou parte de "351 Tisanas", obra de Ana Hatherly; a 28 de junho, propôs literatura de cordel, com um trecho do livro "Clarisvânia, a Aluna que Sabia Demais", escrito por Luís Emanuel Cavalcanti; a 22 de agosto apresentou um excerto da obra "Contos de Amor, Loucura e Morte", escrita por Horacio Quiroga; a 15 de setembro leu um trecho de "Em Açúcar de Melancia", de Richard Brautigan; a 18 de novembro voltou com "Saudades de Nova Iorque", de Pedro Paixão, e na quinta-feira, 10 de dezembro, prestou a sua homenagem a Clarice Lispector no dia em que a escritora faria 100 anos, lendo um conto do livro "Felicidade Clandestina". Três dias mais tarde apresentava "Os Sete Loucos", de Roberto Arlt. A 3 de janeiro leu um trecho de "Platero e Eu", de Juan Ramón Jiménez.

No dia 8 foi a vez de ter o seu livro em destaque por aqui, quando li um excerto de "Trazer o Ouro ao Peito". A 23, a Inês voltou e leu um trecho do livro "O Torcicologologista, Excelência", de Gonçalo M. Tavares e no dia 1 de fevereiro foi uma das participantes no Especial dedicado ao Dia Mundial da Leitura em Voz Alta com "Papéis Inesperados", de Julio Cortázar. A 13 de fevereiro apresentou um excerto do livro "Girl, Woman, Other", de Bernardine Evaristo, participando a 8 de março no Especial dedicado ao Dia Internacional da Mulher com a leitura de um trecho do livro "A Ilha de Circe", de Natália Correia. A 5 de maio participou, com Armando Liguori Junior, no Especial dedicado ao Dia Mundial da Língua Portuguesa. No dia 22 de maio, ao lado de Raquel Laranjeira Pais e Rui Guedes, contribuiu para o Especial dedicado ao Dia do Autor Português. A 1 de junho interveio no Especial do Dia Mundial da Criança com "Ulisses", de Maria Alberta Menéres. No passado dia 7 de agosto, Inês Henriques leu um pouco da obra de estreia de Duarte Baião, "Crónicas do Desassossego". Chico Buarque e "Essa Gente" estiveram na sua leitura a 17 deste mês e, no dia 20, foi a vez de um pedaço do livro "À Noite Logo se Vê", de Mário Zambujal. "Sobre o Amor", de Charles Bukowski, foi a sua leitura de 7 de setembro, seguindo-se "Na América, Disse Jonathan", dois dias mais tarde. No domingo, dia 12, foi "Dom Casmurro", de Machado de Assis, a sua escolha para ler. Dia 15 foi o escolhido para apresentar "Coração, Cabeça e Estômago", de Camilo Castelo Branco. "Flores", de Afonso Cruz, foi a sua proposta no passado dia 17. A 21 de setembro apresentou "Normal People", de Sally Rooney. A 30 de setembro revelara a mais recente leitura: "Sartre e Beauvoir: A História de uma Vida em Comum", de Hazel Rowley. "Desamor", de Nuno Ferrão, surgiu a 20 de novembro, seguindo-se, além da já mencionada em cima leitura de "Amor Portátil", também a obra "Niketche: Uma História de Poligamia", de Paulina Chiziane, no dia 13, e ainda "Olhos Azuis, Cabelo Preto", de Marguerite Duras, no dia 22. Na véspera de Natal, Pedro Paixão e "A Noiva Judia" foram os convidados na leitura de Inês Henriques. A 1 de fevereiro, Dia Mundial da Leitura em Voz Alta, apresentou um trecho de "Todas as Crónicas", de Clarice Lispector. "Platero e Eu", de Juan Ramón Jiménez, que aqui estivera em janeiro de 2021, regressou no sábado, dia 12 de fevereiro. Dois dias depois começava a leitura de excertos do livro "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer", do sueco Stig Dagerman, que se concluiu a 19 de fevereiro. A 28, o regresso às leituras por aqui fez-se com um excerto de "Pedro Lembrando Inês", de Nuno Júdice. "Um, Ninguém e Cem Mil", de Luigi Pirandello, foi a leitura proposta no passado dia 4. "Putas Assassinas", de Roberto Bolaño, surgiu a 10 de março. Herberto Helder e "A Menstruação Quando na Cidade Passava", do livro "Poemas "Completos", foram a leitura seguinte.

No dia 19, a proposta recaiu sobre "A Noite e o Riso", de Nuno Bragança. A 2 de abril, aqui se recuperara a sua leitura de um trecho da obra "Em Açúcar de Melancia", de Richard Brautigan. No dia seguinte homenageou a falecida Lygia Fagundes Telles com um trecho da obra "A Disciplina do Amor" e a 23 aqui recuperei a sua leitura de "Novas Cartas Portuguesas", de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. No Especial do passado 25 de Abril, Inês Henriques apresentou um excerto da obra "Os Filhos da Madrugada", de Anabela Mota Ribeiro. A 5 de maio, no Especial dedicado ao Dia Mundial da Língua Portuguesa, propôs "Manual de Pintura e Caligrafia", de José Saramago. A 6 de junho leu "A Sangrada Família", de Sandro William Junqueira. No dia 1 de agosto, a escolha recaiu no japonês Junichiro Tanizaki com um excerto da obra "A Confissão Impudica".

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