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  • Paulo Jorge Pereira

Inês Henriques lê "Coração, Cabeça e Estômago", de Camilo Castelo Branco

Há uma correspondência entre as palavras usadas no título e as diferentes fases da vida do protagonista em "Coração, Cabeça e Estômago", de Camilo Castelo Branco, obra publicada em 1862, um ano depois de "Amor de Perdição". Inês Henriques lê um pouco daquele livro e o escritor entra aqui no blog em mais uma oportunidade.



Silvestre da Silva é a personagem principal do livro "Coração, Cabeça e Estômago", aqui apresentado com mais uma presença marcante de Inês Henriques através da leitura. Mas este não é o mais famoso livro do autor em causa...

"Amava Simão uma sua vizinha" é uma das mais conhecidas frases da Literatura portuguesa e o autor é um dos seus grandes clássicos: Camilo Castelo Branco. E, sim, aquela é uma frase marcante da sua mais famosa obra, "Amor de Perdição", clássico absoluto da obra camiliana e da escrita em Português. Foi adaptado ao teatro em 1907 e, no cinema, teve uma primeira versão muda de George Pallu (1921). Em 1943, com António Vilar e a estreante Carmen Dolores, surgiu sob realização de António Lopes Ribeiro, mas também teve Manoel de Oliveira a realizar em 1978 (daqui resultaria ainda uma série de televisão exibida pela RTP) e, em 2008, então com o título "Um Amor de Perdição", a obra a servir de inspiração, Mário Barroso como realizador e a história trazida para os tempos modernos com os atores Tomás Alves, Patrícia Franco, Catarina Wallenstein e Willion Brandão, Beatriz Batarda, Ana Padrão e Virgílio Castelo. No Brasil, em 1965 o clássico camiliano foi transformado em telenovela.

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, nascido na Rua da Rosa, no Bairro Alto, em Lisboa, a 16 de março de 1825, tem origem nobre, mas o pai, Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, embora o perfilhasse, não se casou com a mãe, Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira. O pequeno perde a mãe com apenas dois anos e fica órfão do pai oito anos mais tarde. Ficará aos cuidados de uma tia de Vila Real e, mais tarde, sob a proteção de Carolina Rita Botelho Castelo Branco, uma irmã mais velha. São padres os seus primeiros professores e o estudante, tornado voraz leitor, vai conhecer como poucos os clássicos e não só. Aos 16 anos já está casado com Joaquina Pereira de França, mas depressa o casamento entra em crise e Camilo concentra-se nos estudos para a Universidade ao mesmo tempo que mergulha em várias paixões - vai viver com Patrícia Emília do Carmo de Barros, depois de uma fase agitada em que terá combatido ao lado dos miguelistas na Revolta da Maria da Fonte.

Vai participando em diversas publicações e, como a sua escrita desagrada a alguns poderosos, sofre agressões por diversas vezes. Deixa Patrícia em 1848 e procura abrigo em casa da irmã, seguindo-se uma primeira opção universitária por Medicina que é interrompida e substituída por Direito. O jornalismo torna-se uma opção mais regular a partir de 1850, altura em que se apaixona por Ana Plácido, mas esta casa-se com o comerciante Manuel Pinheiro Alves e Camilo chega a encarar o seminário como caminho a seguir, embora acabe por deixá-lo. É famoso o seu caso de rapto de Ana Plácido, bem como todas as peripécias que daí resultaram - da captura pelas forças da lei ao encarceramento na cadeia da Relação, no Porto, onde Camilo se torna amigo do salteador Zé do Telhado e aproveita para escrever várias obras, entre as quais "Amor de Perdição" e "O Romance de um Homem Rico". Ele e Ana acabam absolvidos do crime de adultério por um juiz mais conhecido por ser o pai de Eça de Queirós, vivem juntos e, após um primeiro filho que seria ainda do marido, Ana e Camilo serão pais de outras duas crianças. Irá escrever centenas de obras para dispor de dinheiro suficiente no agregado familiar e, a partir do verão de 1863, após a morte do marido de Ana Plácido, vivem numa casa em São Miguel de Seide.

Com a saúde debilitada - a partir de 1865 passa a ter sérios problemas de visão e acabará por ficar cego -, Camilo passa um ano em Vila do Conde e escreve a peça "O Condenado" (1871), além de outras obras e crónicas jornalísticas. Vai seguir-se um período, até 1890, em que é presença assídua na Póvoa de Varzim em tertúlias com personalidades como Almeida Garrett, José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, o juiz que era pai de Eça, Alexandre Herculano ou António Feliciano de Castilho. E também não faltam sessões de jogo, nem a escrita fervilhante e constante - a sua obra completa vai ultrapassar os 250 livros. O Rei D. Luís atribui-lhe o título de 1.º Visconde de Correia Botelho (1885) e três anos mais tarde Camilo e Ana casam-se.

A progressão da cegueira deixa-o cada vez mais desesperado e, a 1 de junho de 1890, após a visita do médico Magalhães Machado, que lhe recomenda repouso, Camilo dá um tiro na cabeça. Para trás ficam inúmeros livros como "Anátema" (1851), "Mistérios de Lisboa" (1854), "Onde Está a Felicidade?" (1856), "O que Fazem Mulheres" (1858), "As Três Irmãs", "Amor de Perdição" (de que li aqui um excerto a 4 de dezembro do ano passado), "Memórias do Cárcere" e "Coração, Cabeça e Estômago" (todos de 1862), "A Queda dum Anjo" (1866, aqui apresentado a 28 de novembro de 2020), "A Doida do Candal" (1867), "O Regicida" (1874), "A Filha do Regicida" (1875), "A Viúva do Enforcado" (1877), "Eusébio Macário" (1879), "A Corja" (1880) ou "A Brasileira de Prazins" (1882).


Parceria A.M. Pereira, Lda


Os problemas de saúde de Camilo começaram em 1865 e agravaram-se até à cegueira que o levou ao desespero do suicídio em 1890.

Inês Henriques é presença regular aqui no blog. A paixão e o carinho pelos livros têm acompanhado a sua vida. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Franceses), escolheu o Jornalismo como profissão e o Desporto como área de atuação. Realizado o curso profissional no CENJOR, foi estagiária na Agência Lusa, à qual voltaria mais tarde, e trabalhou no jornal A Bola antes de entrar na redação do Portal Sapo. Neste contexto, a proximidade do desporto adaptado levou-a a escrever "Trazer o Ouro ao Peito - a fantástica história dos atletas paralímpicos portugueses", publicado em 2016. Agora, apesar de já não estar no universo profissional do Jornalismo, continua atenta a essa realidade ao mesmo tempo que tem sempre um livro para ler. E vários autores perto do coração.

Aqui no blog, estreou-se a 27 de abril de 2020 com "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector; voltou a 10 de maio e leu um excerto de "A Disciplina do Amor", de Lygia Fagundes Telles; no último dia de maio apresentou parte de "351 Tisanas", obra de Ana Hatherly; a 28 de junho, propôs literatura de cordel, com um trecho do livro "Clarisvânia, a Aluna que Sabia Demais", escrito por Luís Emanuel Cavalcanti; a 22 de agosto apresentou um excerto da obra "Contos de Amor, Loucura e Morte", escrita por Horacio Quiroga; a 15 de setembro leu um trecho de "Em Açúcar de Melancia", de Richard Brautigan; a 18 de novembro voltou com "Saudades de Nova Iorque", de Pedro Paixão, e na quinta-feira, 10 de dezembro, prestou a sua homenagem a Clarice Lispector no dia em que a escritora faria 100 anos, lendo um conto do livro "Felicidade Clandestina". Três dias mais tarde apresentava "Os Sete Loucos", de Roberto Arlt. A 3 de janeiro leu um trecho de "Platero e Eu", de Juan Ramón Jiménez. No dia 8 foi a vez de ter o seu livro em destaque por aqui, quando li um excerto de "Trazer o Ouro ao Peito". A 23, a Inês voltou e leu um trecho do livro "O Torcicologologista, Excelência", de Gonçalo M. Tavares e no dia 1 de fevereiro foi uma das participantes no Especial dedicado ao Dia Mundial da Leitura em Voz Alta com "Papéis Inesperados", de Julio Cortázar. A 13 de fevereiro apresentou um excerto do livro "Girl, Woman, Other", de Bernardine Evaristo, participando a 8 de março no Especial dedicado ao Dia Internacional da Mulher com a leitura de um trecho do livro "A Ilha de Circe", de Natália Correia. A 5 de maio participou, com Armando Liguori Junior, no Especial dedicado ao Dia Mundial da Língua Portuguesa.

No dia 22 de maio, ao lado de Raquel Laranjeira Pais e Rui Guedes, contribuiu para o Especial dedicado ao Dia do Autor Português. A 1 de junho interveio no Especial do Dia Mundial da Criança com "Ulisses", de Maria Alberta Menéres. A 7 de agosto, Inês Henriques leu um pouco da obra de estreia de Duarte Baião, "Crónicas do Desassossego". Chico Buarque e "Essa Gente" estiveram na sua leitura a 17 deste mês e, no dia 20, foi a vez de um pedaço do livro "À Noite Logo se Vê", de Mário Zambujal. "Sobre o Amor", de Charles Bukowski, foi a sua leitura de 7 de setembro, seguindo-se "Na América, Disse Jonathan", dois dias mais tarde. No domingo, dia 12, foi "Dom Casmurro", de Machado de Assis, a sua escolha para ler. Dia 15 foi o escolhido para apresentar "Coração, Cabeça e Estômago", de Camilo Castelo Branco. "Flores", de Afonso Cruz, foi a sua proposta no passado dia 17. A 21 de setembro apresentou "Normal People", de Sally Rooney. A 30 de setembro revelara a mais recente leitura: "Sartre e Beauvoir: A História de uma Vida em Comum", de Hazel Rowley. "Desamor", de Nuno Ferrão, surgiu a 20 de novembro, seguindo-se, além da já mencionada em cima leitura de "Amor Portátil", também a obra "Niketche: Uma História de Poligamia", de Paulina Chiziane, no dia 13, e ainda "Olhos Azuis, Cabelo Preto", de Marguerite Duras, no dia 22. Na véspera de Natal, Pedro Paixão e "A Noiva Judia" foram os convidados na leitura de Inês Henriques.

A 1 de fevereiro, Dia Mundial da Leitura em Voz Alta, apresentou um trecho de "Todas as Crónicas", de Clarice Lispector. "Platero e Eu", de Juan Ramón Jiménez, que aqui estivera em janeiro de 2021, regressou no sábado, dia 12 de fevereiro. Dois dias depois começava a leitura de excertos do livro "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer", do sueco Stig Dagerman, que se concluiu a 19 de fevereiro. A 28, o regresso às leituras por aqui fez-se com um excerto de "Pedro Lembrando Inês", de Nuno Júdice. "Um, Ninguém e Cem Mil", de Luigi Pirandello, foi a leitura proposta no dia 4 de março. "Putas Assassinas", de Roberto Bolaño, surgiu a 10 de março. Herberto Helder e "A Menstruação Quando na Cidade Passava", do livro "Poemas "Completos", foram a leitura seguinte. No dia 19, a proposta recaiu sobre "A Noite e o Riso", de Nuno Bragança. A 2 de abril, aqui se recuperara a sua leitura de um trecho da obra "Em Açúcar de Melancia", de Richard Brautigan. No dia seguinte homenageou a falecida Lygia Fagundes Telles com um trecho da obra "A Disciplina do Amor" e a 23 aqui recuperei a sua leitura de "Novas Cartas Portuguesas", de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

No Especial dedicado ao 25 de Abril, Inês Henriques apresentou um excerto da obra "Os Filhos da Madrugada", de Anabela Mota Ribeiro. A 5 de maio, no Especial dedicado ao Dia Mundial da Língua Portuguesa, propôs "Manual de Pintura e Caligrafia", de José Saramago. A 6 de junho leu "A Sangrada Família", de Sandro William Junqueira. No dia 1 de agosto, a escolha recaiu no japonês Junichiro Tanizaki com um excerto da obra "A Confissão Impudica". De 10 de outubro é a homenagem à nova Nobel da Literatura, Annie Ernaux, com um excerto do livro "Uma Paixão Simples". A 21 de outubro leu "Para Onde Vão os Guarda-Chuvas", de Afonso Cruz. De 14 de novembro, no Especial Centenário de José Saramago, é a recuperação da sua leitura de um excerto da obra "Manual de Pintura e Caligrafia".

No Especial 1.000 Leituras de dia 23, "A História de Roma", de Joana Bértholo, foi a sua escolha. No dia 28 trouxe um pouco do livro "A Carne", cuja autora é Rosa Montero. O último dia de 2022 mostrou-a a ler um trecho da obra "Lavoura Arcaica", de Raduan Nassar. Voltou a 10 de fevereiro e leu um pouco do livro "Um Bom Homem É Difícil de Encontrar", de Flannery O'Connor. No dia 14 de fevereiro, a leitura proposta foi "Falha", de Sarah Kane. A 8 de março, no Especial sobre o Dia Internacional da Mulher, leu "Os Anos", de Annie Ernaux. E, a 21, quando aqui surgiu o Especial dedicado ao Dia Mundial da Poesia, cá esteve a ler "What's in a Name", de Ana Luísa Amaral. "A Cerimónia do Adeus", de Simone de Beauvoir, foi a sua proposta de 31 de março. A 26 de abril leu um excerto de "Sopro", de Tiago Rodrigues. De 9 de maio é o regresso de "351 Tisanas", de Ana Hatherly. "Na América, Disse Jonathan", de Gonçalo M. Tavares, voltou a 26 de maio. "A Solidão dos Inconstantes", de Raquel Serejo Martins, foi a proposta de 12 de junho.

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